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Quero mergulhar nas profundezas do Espírito de Deus.

Quero mergulhar nas profundezas do Espírito de Deus..

Um sacerdote mexicano fez algumas recomendações práticas para participar da Missa..

Realismo

Todas as exigências morais devem ter a sua raiz nos Evangelhos e na vida de Jesus. O Batista foi anacoreta e Jesus, não.

Teologia do deserto e da vida angélica são simbolismos, são estruturas ou ideologias sobrepostas.

A luta anti-demoniaca não é específica do monge; foi de fato uma devoção do monacato egípcio. É só uma parcela da vida espiritual, uma devoção.

Teologia do martírio dos cristãos: não consta, ou melhor, consta que a maioria dos cristãos não irá morrer mártir.

Após dois mil anos, sabemos, por experiência, que sempre haverá alguns ornados com esta graça excepcional, mas são poucos.

Na mentalidade dos monges, era expressão do desejo tão notório, na antigüidade cristã, de participar do privilégio dos mártires: subir à visão divina logo, sem demora.

Era expressão do amor de Cristo. Se Jesus manifestou seu grande amor por nós, ao morrer na cruz (Jo 15,15), querem os monges
revidar o gesto com um martírio incruento pela áspera penitência.

Real é a teologia da imitação dos apóstolos e da
comunidade de Jerusalém. Sto. Antão resolveu ficar monge ao ouvir o evangelho dominical: “Vai, vende tudo e terás um tesouro no céu”.

Ele e os outros refugiaram-se no deserto só para ter sossego, silêncio para rezar. Celibato
e pobreza, podiam praticá-los também em Alexandria.

Mas na noite estrelada do deserto é mais fácil entoar Salmos. Cassiano, (Collationes 18,5) explica a origem do cenobitismo como retorno ao primeiro fervor apostólico em comunidades menores, porque a comunidade grande
do povo cristão era um tanto relaxada.

Século XX

A teologia hodierna, pré e pós-conciliar, oferece um quadro variado de teorias, em parte recusadas, em parte apoiadas pelo Vaticano II, em parte ainda abertas à investigação
teológica.

Desejamos investigar qual o essencial
da espiritualidade monástica, da vida religiosa
consagrada; qual a diferença específica da espiritualidade cristã geral, ou de espiritualidade do laicato; qual o característico
da vida consagrada, quais seus componentes
essenciais, válidos em todos os tempos.

Passamos em revista as principais opiniões, que vão da identificação formal da espiritualidade monástica com a santidade cristã, até um outro extremo de um “tanto faz”.

Vida consagrada é o núcleo fervoroso dentro da
Massen-kirche (do povo de Deus) ou é só sinal, bandeirinha (às vezes de “faz-de-conta”)? Por que votos? Por que três?

Um grupo de teólogos considera pobreza, virgindade, obediência como elementos formais da perfeição cristã, portanto, obrigatórios para todo batizado.

No outro extremo [...] está o grupo do tanto faz. Com ou sem votos pode-se ficar sumamente santo.

Os três votos não ajudam grande coisa no progresso espiritual, às vezes até atrapalham:
Gerkin, Rahner, Ranwez.

O Vaticano II recusou os dois extremos e apresentou, pela primeira vez, num documento
oficial do magistério, a teologia da vida consagrada.

Teologia das Realidades Celestes

TEOLOGIA

A teologia da vida religiosa-monástica evoluiu não somente na sua organização, mas também na sua ideologia teológica.

Foi uma lenta elaboração dos dados evangélicos no conjunto da evolução dos dogmas. Diz o Concílio que foi crescendo como uma árvore a partir de pequena semente (LG 43).

Através da floração variada e colorida da vida monástica iremos investigar sua natureza
específica: sua razão formal de ser e de existir.

O primeiro monge-teólogo é Orígenes. Quase todos os elementos já se encontram, dispersos aqui, acolá, em seus comentários homiléticos da Bíblia.

O grande surto monacal do século quarto elaborou uma completa espiritualidade,
teologia mais intuitiva que reflexiva; um leque
que se abre em cinco palhetas (CODINA, Teologia de La vida religiosa, 1968.)

Teologia do deserto

Assim como o mistério pascal começou com a peregrinação de Israel no deserto, e Cristo iniciou a vida apostólica passando quarenta dias na oração e na penitência do deserto, assim os discípulos da nova aliança
recolhiam-se na solidão do deserto, a fim de encontrar o mistério de Deus mais facilmente do que no reboliço do mundo humano.

O deserto do Egito e Arábia, mais tarde
as matas extensas da Europa medieval forneceram um habitat natural, difícil de reconstruir-se no século XX.

Teologia do martírio

O cristão perfeito, o santo, é o mártir. Derramando vida e sangue por Cristo, realiza a mais aproximada identificação com o Redentor.

Realiza a expressão mais palpável do Amor, segundo João 15,13.

Teologia da Imitação dos apóstolos

Os monges, incluindo-se os anacoretas, consideram-se como herdeiros autênticos da vida que levavam os apóstolos e a primeira comunidade de Jerusalém. A conferir,
Paládio, Evrágio Pôntico.

Teologia da luta contra os demônios

Cristo e seus discípulos expulsaram os demônios. E o povo cristão dos séculos IV-V faz romarias aos monges penitentes do deserto, pedindo-Ihes oração e bênção para
livrá-Io de todo o mal. Expulsar maus espíritos tornou-se uma espécie de apostolado monacal.

Teologia da vida angélica

O monge vive já a vida dos anjos. Não pelo voto da virgindade, mas pela oração ininterrupta, pelo culto litúrgico perante o trono de Deus, dia e noite.

Eis a espiritualidade monacal primordial. Admirável em sua generosidade, realmente um sinal luminoso dos valores do além, mas é preciso ver tudo com realismo.

Teologia das Realidades Celestes

São Bento.

A grande novidade é que São Bento exigiu
uma vestição do hábito monástico, um noviciado regular, e no fim, uma profissão religiosa, consistindo numa promessa
oral e numa petitio escrita (pedido escrito).

É a figura jurídica de promessa jurada do direito romano.

Mas aqui, a promessa é feita a Deus e o documento assinado, é depositado sobre o altar.

O conteúdo da promessa é tríplice: obediência (na maioria dos códigos medievais mencionado em primeiro lugar); conversão moral; estabilidade local no mosteiro.

São Bento exigiu esta estabilidade local para cortar o uso e abuso dos monges andarilhos que, sob pretexto de peregrinações piedosas, rodavam pelo continente todo, passando anos fora do convento, dando bons e maus exemplos, conforme o caso.

Para a pobreza está previsto e prescrito a renúncia formal de todos os bens e fazendas, desde o noviciado.

Mas São Bento esqueceu o voto de castidade, de
virgindade? Oh, não! Pois ele exige quase o voto do mais perfeito. Exige, sob voto, uma conversão radical e total.

Aliás, o termo não é conversão, mas vivência virtuosa.

Conversatio é tradução literal de um conceito monástico grego: praktiké ethike. Cassiano nela distingue três graus:

– A renúncia ou primeira conversão, conversão corporal e local, consistindo na renúncia a um lar, à riqueza e ao convívio humano. Portanto, celibato, pobreza e clausura.

– A segunda renúncia, ou renúncia do coração, cujo fim é a pureza da alma é chamada em grego praktiké ethike, a prática moral. Abrange tudo o que hoje é chamado ascese, prática das virtudes, perfeição espiritual, santidade.

– O terceiro grau de Cassiano, a terceira renúncia, é a contemplação (theoretiké, teoria), a qual, sendo infusa, fica na alçada de Deus.

O voto de São Bento é portanto, muito exigente. Toda a ascese, toda a prática das virtudes cai sob a sua lei.

A situação monástica continuou assim até o início da teologia escolástica, no século XII.

Partindo do conceito de doação a Deus, os teólogos analisaram os haveres do
ser humano, e concluíram que os três votos, de pobreza, castidade e obediência, abrangem a totalidade da pessoa humana a ser entregue ao poder e aos cuidados de Deus.

São Tomás recolhe depois os frutos maduros da pesquisa teológica, mas acentua com mais vigor que o núcleo central é o amor de Deus.

Vida religiosa monástica é, segundo ele, um modo de praticar o amor de Deus.

Não o único, mas provavelmente, o mais direto e o mais eficiente.

Teologia das Realidades Celestes

Século IV: Pacômio

De Pacômio, fundador dos conventos (seus conventos
chegaram a contar cinco mil monges) e do seu
famoso discípulo, Schnudi, foi-nos conservada a primeira
fórmula de profissão, exigida sob juramento, na incorporação ao cenóbio. Schnudi gostava do método forte.

Sucedeu ao seu tio. Reorganizou tudo. Exigiu, por escrito,
observância da regra aos trinta monges que havia, número
que chegou a 2.200 monges e 1.800 monjas num cenóbio
vizinho.

Eis o texto da profissão chamada aliança: “Juro
(homologo) perante Deus, no seu santo lugar, que a palavra que sai da minha boca é testemunha, Não quero, de modo algum, manchar meu corpo. Não quero roubar. Não quero fazer juramentos falsos. Não quero mentir. Não
quero fazer secretamente o mal.

Se eu transgredir o que jurei, não quero entrar no reino dos céus. Pois, eu o vejo, Deus, diante do qual eu pronunciei o texto desta aliança (diathéke), destruiria minha alma e meu corpo no fogo do
inferno, por ter transgredido a palavra da aliança que pronunciei”.

O texto não indica limite de prazos; vale, pois, para
sempre. O teor espiritual é de principiantes. Mas foram
admiráveis no rigor da penitência (trabalho manual) e na
recitação assídua dos Salmos.

São Basílio

São Basílio exigiu profissão oral da virgindade (homologia
parthenias), e isso perante testemunhas, de preferência
perante o bispo diocesano.

Não indica o cerimonial em uso. O voto é perpétuo: “Quem se consagrou a Deus e depois passou a outro estado de vida, é sacrílego, pois qual ladrão roubou um donativo consagrado a Deus”.

Considera as virgens infiéis como adúlteras. Mas também
fixou idade mínima para a profissão, de dezesseis a desessete anos.

Também para São João Crisóstomo é um pacto feito
com Deus; é irrevogável.

Efrém, sírio: “Irmãos, somos obrigados a perseverar na via em que entramos”.

Calcedonia

O Concilio de Calcedonia, 451, cânon 16, ratifica a
legislação usual e estabeleceu: não podem contrair matrimônio.

Se o fazem, estão excomungados. “Mas autorizamos
o bispo a usar de misericórdia”. Retornemos ao
Ocidente.

Consagração das Virgens

A consagração das virgens receberá grande destaque
no rito latino, a partir da paz constantiniana. É até
hoje reservada ao bispo. Era precedida do propósito praticado por vários anos; era por assim dizer o voto simples, sendo a consagração ritual, o voto solene.

Quanto à idade: inicialmente “segundo o parecer do
Bispo”; depois a Espanha fixou-a em quarenta anos; Cartago, em vinte e cinco anos, o que prevaleceu.

Um texto do Pontifical Romano fala de sessenta anos. Assim seria, em vez do início de uma vida nova, prêmio de boa conduta.

Mas o texto provavelmente faz confusão com a admissão
das diaconisas. Mas também houve casos de meninas
consagradas aos doze anos, idade legal para casamento
no direito civil romano.

Uma Preciosa, falecida nessa idade no ano 401, tem
sua inscrição no cemitério de Calisto. Jerônimo fala de
uma Ansela, consagrada na mesma idade.

O nome oficial é imposição do véu, indicando que o
ritual foi copiado da cerimônia matrimonial. Em razão do
simbolismo, esposa de Cristo, nunca foi aplicado aos
monges.

Para maior realce, a cerimônia era reservada ao
Bispo. Sto. Ambrósio, que deu o véu à sua jovem irmãzinha, foi muito procurado, até por moças da África, Cartago.

A infração do voto por casamento posterior, é assunto
de três cartas pontifícias, de Sirício, Inocêncio I e
Leão Magno. Se a virgem recebera o véu, cometeu adultério; devem separar-se.

E Inocêncio I exige que o homem se faça monge. Se a virgem fez somente propósito, sem ter recebido a consagração litúrgica, parece que o matrimônio
era tido por válido; mas deve fazer penitência,
segundo Sirício, e não pequena.

Está visto que o ‘propositum’ era considerado como voto, obrigando em consciência.

Teologia das Realidades Celestes

 

- A Tradição apostólica de Hipólito parece-me decidir
a questão pela afirmativa, em razão da menção das virgens
num ritual litúrgico.

- As promessas do batismo foram pronunciadas nas
mãos do bispo. O mesmo rito existe ainda no Pontifical
Romano: “Prometes conservar sempre a virgindade?”
“Prometo”. “Deo gratias”.

Novaciano exigiu dos adeptos de seu cisma o juramento
de fidelidade à liturgia. Deu-lhes a comunhão e
logo em seguida, segurando entre as suas as mãos postas
do fiel, fê-Io jurar: “Juro, pelo Corpo e Sangue de Cristo,
nunca abandonar a tua causa” (Eusébio, História Eclesiástica 6,43).

Algo análogo precederia a admissão ao
grêmio dos e das virgens. A recordar, o texto de Orígenes
(LV 3,4): “Quando fazemos votos de servi-lo na castidade,
pronunciamos os votos com nossos lábios e juramos castigar a nossa carne”. Era, portanto, o voto pronunciado em voz alta, e não prometido apenas em pensamento.

- Hábito, vestuário monacal é a simplicidade e a modéstia.
Aliás, ainda estamos no período das perseguições.
Tertuliano quer que usem em público o véu das senhoras
casadas e lamenta não haver distintivo para os ascetas
(De Virginibus velandis, 10).

Eusébio fala de uma virgem martirizada sob Diocleciano, cuja testa cingia a ínfula da virgindade, uma faixa purpúrea. Ignoramos se era costume geral.

O clero, isto é, o presidente da assembléia, bispo ou
presbítero, usava a ínfula, provavelmente branca, à semelhança do Sumo Pontífice do A.T.

- A partir de 313, monges e monjas usam hábito, minuciosamente descrito por Cassiano.

Uma nota do século seguinte: Sto. Atanásio diz que
a virgem deve usar roupa escura, sem aplicações e sem
franjas, mangas compridas, cabelos cortados e presos por
uma fita de lã, podendo conversar com os homens somente com o rosto velado.

Reza breviário, isto é, salmos à meia-noite, na aurora, na terça, na sexta, na noa. A primeira colação é feita após a noa.

Concluindo: até o século III, a virgindade é o núcleo
central, em redor do qual se cristalizou toda a espiritualidade.

É o conjunto total das práticas que quer expressar
a doação a Deus, entendida como supremo ato de amor a
Deus.

Teologia das Realidades Celestes

 

Metódio de Olimpo

Elaborou, no seu Banquete das Virgens, a primeira
monografia monástica.

Ele considera o estado de virgindade como instituição dos apóstolos (10,11). Parece fazer alusão a um ritual litúrgico da recepção, ou é só uma metáfora poética?

Como Orígenes, refere-se aos votos do A.T. e declara
o voto da virgindade como sendo o voto mais perfeito e
mais sublime; porque nos faz esposa de Cristo.

É oblação definitiva; mas parece, segundo 3,14, que em caso de conflito moral pode-se casar, segundo 1Cor 7.

Ainda alguns textos característicos: “A virgindade é o
grande voto. O homem pode dar ao culto de Deus, ouro,
prata, animais e até todos os seus haveres. Mas nenhum
destes pode dizer ter ofertado o grande voto; somente
aquele que doou a Deus a si mesmo, totalmente. O homem
perfeito consagra a Deus tudo, alma e corpo, como
oblação integral” (5,1).

“Que o grande voto, entre todos, é a castidade (agnéia)
afirmo e provo”. Partindo de Nm 6,4 (nazireato) fala
da castidade dos olhos, dos ouvidos, da boca, das mãos,
dos pés, do coração e conclui: “isto é santificar a castidade
(agnizein agneian), isto é fazer o grande voto” (5,4).

Convém abster-se do vinho (5,5). As virgens são
prefiguradas no A.T. pelo altar do incenso no templo (5,6).

Cartas às Virgens

Resta-nos ainda outra monografia monástica deste
século III, as duas epístolas sobre a virgindade, de autor
grego desconhecido.

Por longo tempo foram atribuídas ao
papa Clemente, +90. Por outro lado, devem ser anteriores
ao ano 300, porque ascetas e virgens ainda vivem isolados,
não em cenóbios, como a partir dos anos 300.

Também porque consiste o apostolado dos ascetas em viagens periódicas pelas cidades vizinhas, para propagar a
fé cristã, tal como aparece na Didaqué e depois desaparece
por completo na era constantina.

Aos ascetas e às virgens cabe a tarefa não só de
guardar o celibato-virgindade (restrição que estava talvez
bastante em voga na Igreja africana, a julgar pelas críticas
de Tertuliano e Cipriano), mas cabe-lhes também a prática
de toda a perfeição cristã, “imitar o Cristo em tudo”.

Há o apostolado da oração, da expulsão do demônio, da visita aos doentes. Mas a principal tarefa é o apostolado da
palavra de Deus, formando, de cidade em cidade, círculos
de leitura da Bíblia. Nas viagens hospedam-se com um
asceta-colega, não com qualquer leigo. Evitem familiaridade com as virgens.

Têm votos? Parece que sim: “Quem, perante Deus,
professou a castidade, deve cingir-se da santa força de
Deus” (13). Já possui toda a espiritualidade monástica:
castidade, pobreza, separação dos perigos do mundo,
oração, mortificação.

Falta só a vida em comum.

Respigamos algumas sentenças espirituais:
“Pensando em abraçar a vida de virgindade, irmão,
será que refletiste bastante quanto de labor e moléstia isto
implica?” (1,5).

A tua lei: “Seguir todas as pegadas de Cristo” (1,6).

“A tudo devem implicar a imagem-modelo, Cristo” (1,7).

“Homem e mulher que professaram a virgindade,
mas não querem imitar a Cristo em tudo, não se
podem salvar” (1,7).

“Deve a virgem ser santa, de corpo e espírito, perseverando
no obséquio ao seu Senhor, não voltando para trás” (1,7).

“Realmente, eles são cidade de Deus, morada
e templo no qual Deus se hospeda e mora” (1,9).

“Cada qual de nós confirme os irmãos na fé de um só Deus” (1,13).

“Devem pedir operários que, como os apóstolos,
imitam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, na solicitude pela
salvação dos homens” (1,13).

II,4 parece indicar o convívio de várias moças na
mesma casa. II,15 reprova familiaridades com mulheres,
pois essa vida exige a fidelidade, a eqüidade e a justiça”.

Resumindo o resultado para o século III, constatamos:

– Há um voto de virgindade, um compromisso que
liga em consciência.

Clemente de Alexandria (Stromata 3,1): “A continência é desprezo do corpo, em razão de uma promessa (homologia) feita a Deus”.

– O voto deve ser livre, refletido e perpétuo. Conforme
o ditado evangélico: “Quem põe a mão no arado”…

– Voto irrevogável. Cipriano e talvez Metódio são os
únicos a admitir dispensa. Clemente Alexandrino (Stromata, 3,15):

“Quem prometeu (homologesas) não se casar,
segundo o propósito da eunuquia, deve ficar celibatário”
(agametos diamenéto), ou, em 3,12; o paralelismo com o
matrimônio indissolúvel pode ter influído.

– Fica aberta a questão da homologação do voto por
um cerimonial litúrgico, como foi depois a velatio virginum (imposição do véu) no século IV.

- Um afresco, nas catacumbas do século III, é interpretado
por Rossi-Wilpert como cerimônia da velatio. Mas
a interpretação é muito contestada.

Teologia das Realidades Celestes

 

Vence a vaidade do mundo quem não faz nada de supérfluo, nada em vão…”

Orígenes

Sobre essa base teológica da doação, Orígenes
constrói toda a espiritualidade própria dos ascetasvirgens:

– Intrépido em apregoar a pobreza evangélica, não
só para os consagrados mas para o clero todo, comentando o livro de Josué, lembra que os sacerdotes e levitas da antiga lei não receberam parte na distribuição da terra santa, porque, Deus era sua herança.

Assim há, na Igreja do N.T., “alguns que pela força da alma e pela graça dos méritos precedem a todos.

Deles se diz que o Senhor é a sua herança… São poucos e raros… A parte maior, mais numerosa, segue a via comum das virtudes, em boas obras, e são do agrado do Senhor”.

Mas Orígenes insinua em seguida que sacerdotes e levitas do A.T. prefiguram as palavras do evangelho: “Vai, vende tudo e terás um tesouro no céu” (Mt 19,21); “Se alguém não renunciar a tudo o que possui” (Lc 14,33);

“Quem não odeia pai e mãe, etc.” (Lc 14,26; 12,9-11).
No comentário de Mateus, desenvolve mais uma idéia:
fala do jovem rico; da vida pobre da comunidade de
Jerusalém…

“Quem quer ser perfeito, deve obedecer à palavra de Jesus: vende tudo e dá aos pobres.

Agora, seria tarefa dos generosos e dos que têm qualidades que ornam um bispo, seria tarefa destes convidar e exortar os que podem a colocar tudo em comum, para as necessidades da vida… Um exemplo da concórdia dos fiéis no tempo dos apóstolos”.

Aponta aqui um ideal monástico, sonhado e realizado um século mais tarde.

– Com particular carinho, trata Orígenes da oração.

Os contemplativos estão na casa de Deus. Os ativos ficam
no vestíbulo da entrada. “Dediquemo-nos à palavra
de Deus, e meditemos a sua lei, dia e noite.

Deixemos tudo de lado e ocupemo-nos de Deus. Treinemo-nos nos testemunhos de Deus, isto é, estejamos convertidos ao Senhor” (12,316).

– O apego às criaturas priva-nos da liberdade da
gnosis, a “contemplação”.

“Como podemos encontrar a liberdade, estando assalariados ao século, servindo ao dinheiro? Servindo aos desejos do corpo? Eu mesmo me acuso.. (dinheiro e prazer não me prendem mais) mas sou ávido de louvor e ando à procura da glória humana… E enquanto procuro tais coisas, sou escravo delas” (In Exodum
12,386).

– Comentando Nm 5, amplia o mesmo tema de uma
maneira sumamente espiritual. Os madianitas venceram
os seicentos mil israelitas.

Depois da oração de Moisés (Nm 31), doze mil israelitas venceram os madianitas, para nos ensinar que “israel não vence pelo número de soldados, mas por sua santidade e piedade; essa é que vence…

Daí, também: Um deles persegue mil e dois deles
põem em fuga dez mil, se eles observam a lei do Senhor”
(12,764).

“Portanto, vê-se que mais vale um santo rezando do
que numerosos pecadores trabalhando… Procura pois,
em primeiro lugar a justiça de Deus e conserva-a.

Observando, obtendo, conservando essa, ela te sujeitará todos os teus inimigos… Deveras, há tanta vaidade e tanto vazio no mundo, que o soldado de Deus deve superar e vencer!

Vence a vaidade do mundo quem não faz nada de supérfluo, nada em vão…”

(Parece-me estar ouvindo São João da Cruz). Ouça:
“Vã é toda ação e toda palavra dentro da qual não há algo
para Deus” (12,766).

“Separar-nos do mundo, entendo.
não do lugar ou do país, mas na vivência” (12,630).

– Em Levítico 11, faz alusão ao voto dos nazireus,
“que se consagravam a Deus por três, quatro anos, ou
por quantos quisessem”. Infere-se daí que o voto da virgindade podia ser limitado a um prazo temporal e não era necessariamente perpétuo, vitalício e irrevogável? Não.

Comentando Rm 9,37, Orígenes se explica: quanto ao
jejum e à abstinência (do vinho e da carne), cada asceta
decide como quer, por tempo limitado.

Mas, no tocante à virgindade, não se conhecem limites, porque é doação, doação de toda a pessoa, sagrada para o culto de Deus.

Usar objetos ou pessoas sagradas para uso profano é
roubo no sacrário (12,530-531).

Orígenes mostra-se, na sua doutrina ascética, equilibrado,
compreensivo, relegando os entusiasmos para sua vida pessoal.

Todavia, ele não esconde que seu ideal é a virgindade, a qual segundo ele, implica uma consagração total a Deus, abrangendo portanto, todo o campo da ascese cristã. O compromisso através de voto formal, aparece com nitidez.

Mas não ficamos sabendo se existe já uma homologação
oficial por parte da Igreja. Seria então, voto público,
não apenas particular.

Favorável é um texto em Números 2,1: Orígenes recorda o bom exemplo do clero e sua importância:

“Eis tal o bispo, tal o presbítero, tal o diácono. E
o que então dizer das virgens, dos continentes ou de todos
que se destinam à profissão da piedade?” (12,591).

Ascetas e virgens professam piedade, devoção, religiosidade; e aparecem misturados aos quadros da hierarquia.

Já são, portanto, categoria eclesiástica.

Teologia das Realidades Celestes

Elvira

O concílio de Elvira, (300 ou 303?), cânon 13: “As
virgens consagradas que quebraram o voto e se entregaram à luxúria… e as impenitentes: foi aprovado negar-lhes a comunhão, mesmo na hora da morte (podendo receber a absolvição na confissão, in foro interno).

Mas arrependendo-se, abstenham-se da vida sexual e recebam a comunhão na hora da morte (como os relapsos).

Continuam, pois, sendo proibido para elas o matrimônio e a comunhão (exceto o viático).

Para comparar: as faltas sexuais pré-matrimoniais são castigadas, mesmo no concílio, com penitências e com a excomunhão por cinco anos.

Existe, pois, um vínculo especial na virgem consagrada.

Em análise teológica: o propósito de conservar a
virgindade, por amor a Jesus, foi considerado como tendo
conseqüências em consciência: é o que hoje chamamos
de voto. Cipriano e o concílio consideram as virgens ligadas ao seu estado de um modo semelhante ao estado
matrimonial. E a Igreja julga-se no direito e dever de impor sanções pelas falhas.

Entretanto, o Oriente desenvolveu uma teologia da
vida consagrada muito mais profunda, já no século III.

Clemente de Alexandria insiste que continentes e virgens
pratiquem, além da virgindade, a áscesis. Foi Clemente
quem deu à palavra ascese o sentido e conteúdo evangélico-cristão.

Mas o grande campeão da vida consagrada é Orígenes.
Eunuco, no sentido espiritual e no sentido físico,
elaborou a teologia espiritual da vida monástica, um século antes de ela florir de um modo maravilhoso em todo o Oriente. Certas frases dele caberiam bem na boca de São João da Cruz, o doutor da renúncia total, do dom total.

Em Orígenes, os textos não fazem tanta impressão, porque
se perdem em meio dos comentários bíblicos. Mas é o
mesmo espírito.

Orígenes insiste, com vigor, na imitação de Cristo,
na seqüela de Cristo, no caminho da cruz. Ele viveu, pessoalmente, como monge. Vendeu todo o seu patrimônio.

Dormia no chão e só procurava o mínimo necessário.
Abstinha-se de vinho. Andava descalço. E usava uma
roupa só. Segundo Orígenes, os ascetas e as virgens vivem
a vida apostólica. São, portanto, os sucessores dos
doze discípulos do Mestre.

Exclama jubiloso: “A Igreja está florida de virgens” (In Exodum, PG 12, 181).

A consagração a Deus, pela virgindade, é um voto
feito a Deus. O comentário da legislação mosaica sobre
votos, em Números 30, revela a posição dos ascetasvirgens
no N.T.

“Se oferecemos a Deus a nossa castidade corporal, receberemos dele a castidade espiritual…

A Escritura menciona vários votos: de Ana, de Jefté… Mas aquele que é chamado narizeu consagra a Deus sua própria pessoa…

Oferecer-se a si próprio, agradar a Deus
não pelo trabalho do outro, mas pelo seu próprio ser, é o
mais perfeito e o mais eminente de todos os votos.

Quem faz assim, é imitador de Cristo… se tomas a tua cruz e segues após Cristo; se dizes: vivo, mas não sou mais eu,
vive em mim Cristo; se a nossa alma arde em desejo por
voltar e estar com Cristo… e não mais se compraz nos
gozos deste mundo; se cumpre toda a lei dada para os
nazireus de um modo espiritual.

Assim se faz a oblação da alma a Deus. E quem vive em castidade, dedica o seu corpo a Deus segundo 1Cor 7.

Santos são chamados os que se deram a Deus. O
carneiro, o vitelo é santo, consagrado a Deus. Ilícito fazer
deles uso profano: concluamos daí o que significa o homem consagrar-se a Deus.

Voltando-te a Deus, deves imitar o vitelo (de sacrifício), o qual não pode mais servir a obras humanas. Mas tudo quanto diz respeito à alma, à obediência e à observância do culto divino, isto tem de ser a tua agenda e o teu pensamento” (PG 12,760).

Aprofundando mais essa doação total a Deus, Orígenes
compara os ascetas-virgens com os holocaustos
do A.T. em Números 24: “Como Jesus foi vitima de expiação, cordeiro de Deus pela humanidade, assim também os santos profetas e apóstolos foram vitimas de expiação, conforme o dizer explicito de São Paulo: “Desejo ser anátema” (Rm 9,3); “sou vitima e o tempo da minha destruição se aproxima” (2Tim 4,2)… “assim, enquanto há
pecado é necessário que haja vitimas pelo pecado”
(12,757).

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