DESTINO DO HOMEM

1. O mundo que nos rodeia foi dado por Deus para

usufruto não para o domínio do homem. Em primeiro lugar,

para sustentar sua vida corporal. O decreto divino na

manhã da criação é explícito: “Crescei e multiplicai-vos e

subjugai a terra” (Gn 1,28).

Os anjos não participam dessa finalidade do mundo

material porque são seres incorpóreos, enquanto que as

demais criaturas são o caminho necessário para o homem

chegar ao conhecimento de Deus. O homem depende do

mundo corporal (material) em sua atividade intelectual.

2. O progresso cultural: arte, literatura, técnica, ciência,

tudo isso faz parte do plano divino, desde que esteja

a serviço do bem estar da humanidade e subordinado ao

seu destino eterno. “Deus colocou o mundo ao dispor dos

homens” (Ecl 3,11).

Os valores culturais não são suficientes para servirem

como fim último mesmo em um mundo que não tivesse

um destino sobrenatural. Deus é e fica sempre sendo o

termo absoluto assim como, perante o sol, todas as estrelas

desaparecem.

3. Mas a suprema felicidade do ser “homem”, seu último

fim é: conhecer a Deus e dar-lhe glória. É a mais singular

de nossas tarefas. “Deus nos criou para servirmos

de louvor à sua glória” (Ef 1,12).

O homem está única e exclusivamente orientado para

a glória de Deus. Da parte de Deus, isso não é um egoísmo

antropomorfo, é lógico. “Deus busca sua glória, não

por causa de si mas por nossa causa”, diz a Summa Theologica,

IIII 132, 1,1. E Sto. Agostinho: “Por Ele ser bom é

que nós existimos: Quia bonus est, sumus”.

Louvar a plenitude absoluta da verdade, da bondade,

da beleza, é racional. Ora, Deus é bem absoluto e a

beleza suprema. Ele só pode louvar a quem merece, i.é.,

a si próprio, o Ser Absoluto. É lógico. Igual atitude impõese

à criatura: prestar homenagem, louvor e glória a quem

 merece, a quem de direito. É conseqüência metafísica.

“Toda criatura é de Deus. Algum dia, amanhã ou depois,

terá que estar diante dele e de joelhos” (F. W. Faber)

4. Na ordem natural, o homem participa da natureza

divina de um modo remoto. É imagem de Deus enquanto

é dotado de inteligência e de amor.

Na ordem sobrenatural, a participação atinge um

grau muito superior. Sendo a natureza humana, em sua

substância, elevada a uma participação da natureza divina,

o foi ao ponto de tornar-nos, de um modo real, filhos

de Deus, à semelhança do Filho Unigênito. Recebeu assim

o homem capacidades superiores, um destino bem

mais elevado: o de amar com um amor eterno o bem supremo

que pode existir. Dom gratuito que ultrapassa todos

os recursos da criatura. Toda a humanidade foi criada

para mergulhar na visão beatífica da Divindade, para viver,

ver e amar como o próprio Deus; para ser submergida

na plenitude do Ser. Como retribuir tão grande condescendência,

tão grande amor?

5. A teologia distingue entre glória objetiva e glória

subjetiva. A glória objetiva é a perfeição que os seres refletem

em sua natureza. Quanto mais perfeitos, tanto

maior a glória do criador. Um santo glorifica mais a Deus

do que um cristão medíocre. O Cântico do Sol, de São

Francisco, é a expressão amorosa dessa glória objetiva

de Deus.

A glória subjetiva completa-a, embora não seja indispensável.

Não consta entre os teólogos que Deus não

pudesse criar um mundo composto somente de seres irracionais,

sem os seres racionais, capazes de apreciar a

grandeza das obras divinas.

A escritura encarrega o homem dessa tarefa com

esta belas palavras: “Deus colocou uma luz em suas almas

(nos olhos dos homens) a fim de lhes mostrar a

grandeza de suas obras… para que louvassem seu santo

 nome e publicassem a magnificência de suas obras” (Ecl

17,8ss).

É assim o homem, porta-voz, intérprete da natureza.

As flores desenrolam suas pétalas coloridas implorando

com esta linguagem muda ao homem para que louve a

Deus. Os passarinhos chilreiam desde o amanhecer, como

que entusiasmado o homem a louvar o criador. Foi

nesse sentido que um eremita bateu nas flores com seu

bastão, dizendo: “Calem-se! Já sei o que querem… que

eu louve a Deus em nome de vocês”.

Por maior que seja, entretanto, a glória que a natureza

irracional tribute a Deus é inconsciente, instintiva,

forçada. A criatura irracional é instrumento que não pode

deixar de glorificar o seu autor.

O astro flamejante que traça com vertiginosa rapidez

sua fabulosa trajetória, não sabe o que faz. Não tem

consciência de suas qualidades de pregoeiro da sabedoria

e do poder divinos: obedece cegamente às leis da gravitação.

Desfiando suas plangentes notas à hora do crepúsculo,

o sabiá segue a instintiva inspiração do pequeno

peito. Ignora, porém, que está celebrando a bondade e

real munificência do Pai Celeste.

6. Rugindo pelas estepes siberianas ou pelas florestas

amazônicas, o furacão não sabe que canta a marcha

triunfal daquele que “caminha sobre as asas do vento;

que faz dos vendavais seus mensageiros e dos raios de

fogo os seus ministros” (Sl 103,4).

A Deus, porém, é devida a vassalagem livre e racional.

E quem lhe presta essa homenagem consciente e

voluntária, essa glorificação formal, são, no céu, os anjos;

na terra, a criatura que “pouco abaixo dos anjos foi colocada”

(Sl. 8,8), o homem. O homem, que é capaz de conhecer

e amar. “O homem deve suprir a deficiência da

criatura irracional, servindo-se dela como de escada para

subir até Deus… Assim, o homem não é só o rei da cria25

ção; é também o seu profeta, o seu intérprete; é o sumo

sacerdote que oferece, racionalmente, o preito irracional

das outras criaturas” (H. ROHDEN, Donde para onde, 1934,

pgs. 109-111).

7. Desde a Encarnação é Cristo-homem o fim de toda

a criação, segundo Cl 1,15. O restante da humanidade

adquire o beneplácito e o agrado de Deus na medida em

que participa de Cristo (Rm 8,29).

O mundo é palco, campo, arena do Cristo místico.

Deus quis rematar a criação da humanidade pelo Deus

Encarnado. Deus permitiu o pecado original para dar a

seu Filho predileto mais um título de honra: cruz e redenção.

“Deu-lhe um nome acima de todo nome” (Fl 2,9).

Jesus Cristo, Homem, em toda a vastidão do mundo,

entre todos os anjos e criaturas racionais, é a criatura

mais amada por Deus.

Extraído do livro Teologia das Realidades Celestes do Padre João Beting CSsR

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