A Voz

Graciosa lenda, do tempo da aurora do mundo, nos narra o Talmud: Terminada a obra da criação, Deus convidou os anjos para um giro através desse novo mundo e pediu-lhes a opinião. Todos se manifestaram cheios de admiração e louvor pelas maravilhas da onipotência divina.

Somente um deles manteve-se num silêncio estranho até que Deus o interpelou, perguntando se achava alguma coisa a criticar ou a corrigir. O anjo, inclinando-se em profunda adoração, respondeu: “Grande és tu, ó Senhor e grandes são as tuas obras. Só uma coisa falta; uma voz consciente, clara, forte, a jubilar sem cessar através desse universo: Obrigado! Obrigado, Senhor!” Deus sorriu feliz: “Está previsto”, e criou o homem à sua imagem e semelhança e o fez dono e porta-voz do universo.

 

Logos

E nós, cristãos, sabemos ainda mais Deus criou o filho de Deus feito homem, para ser o porta-voz universal, da criação. O homem do paraíso recusara a tarefa de ser cantor do mundo. Deus o substituiu, com infinita vantagem nossa, por seu próprio Filho feito homem. E desde o “Glória” nos campos de Belém ressoa, do oriente até ao ocidente, e por toda a eternidade, a música de louvor, gratidão e amor que canta o coração de Jesus.

 

Festival

Como o Filho de Deus feito carpinteiro em Nazaré, e com ele, em íntima união, deve agora o cristão, a criatura redimida, tirar do trabalho cotidiano sua canção de cada dia, canção de toda vida.

A mãe de família em seus mil afazeres e preocupações deve estar sempre a cantar: “Louvado seja Deus”. O técnico, o cientista atrás das retortas do laboratório, e todos esses inúmeros profissionais humanos, todos devem cantar o salmo 116: “Louvai a Deus, povos todos, louvai-o todas as nações.” Política, comércio, indústria, lavoura, escolas, universidades todos devem compor melodiosa sonata em louvar a Deus.

São Francisco compôs seu famoso Cântico do Sol.

Mas não há dúvida que o melhor cântico do sol foi a sua própria vida. A melhor canção, a mais grata ao ouvido de Deus é a nossa vida humana transformada num louvor de Deus perene. Até que entoemos nosso “Glória a Deus” unidos a Ele nas alturas.

 

Canção

Balbuciamos nós sacerdotes, monges, religiosos, louvor e gratidão a Deus, recitando os salmos do rei Davi. Recitamos esses cantos de louvor do povo eleito em união com o Filho de Deus que desde Nazaré recitou os salmos em preito e homenagem ao Pai. E junto com ele terminamos cada salmo, com o estribilho e o remate de toda a existência humana e de todo o universo: “Glória ao Pai, Filho, Espírito Santo, por todos os séculos e tempos sem fim”.

Extraído do livro Teologia das Realidades Celestes do Padre João Beting CSsR

Anúncios