Pranto do deserto

Nas noites estreladas, o vento agita de leve, os minúsculos grãos de areia do deserto. Bilhões e bilhões movimentam-se em leve atrito. Produzem assim um som plangente, como o gemido lastimoso de um animal gigantesco ferido de morte. Ouçam, diz o árabe: o deserto chora.

Chora saudoso pelos jardins floridos, as searas ondulantes de outrora.

Aonde correm todas as águas, sempre avante, deve haver um mar, a pátria de todas as águas, rios e mares.

Aonde correm todos os seres humanos, e correm sem parar, aí deve haver um oceano imenso, a pátria das almas, a eternidade, Deus e sua felicidade. Nossos corações,inquietos e infelizes enquanto não descansam em Deus.

“Deve haver uma terra pela pelas bandas do ocidente”.

Com esta idéia fixa Colombo descobriu a América.

Vale o mesmo axioma da vida humana: no poente da vida terrestre dever haver outra vida. Colombo foi taxado de louco por diplomados da universidade de Salamanca…mas estava com a razão. O cristão, norteado pela fé para a vida eterna com Deus, também recebe neste mundo míope a mesma pecha, mas ele é que viverá vida eterna.

Eldorado

Um instinto secreto sussurra-nos ao ouvido que existe o Eldorado. Qual agulha magnética que sempre aponto para o pólo, assim o coração humano sofre e vive dessa nostalgia, dessa saudade, vaga, indefinida, saudade de uma felicidade plena e duradoura. Quantas lágrimas de saudade derramam os seres terrestres. Até a felicidade nos faz chorar. Talvez, pelo pressentimento da pouca duração.

Como disse alguém que experimentou as alegrias desta terra, bebeu por assim dizer de todas as águas, Sto. Agostinho: “Criaste-nos para Ti e nosso coração está inquieto até descansar em Ti”.

E ainda alguns textos deste grande lutador cristão.

“O prêmio de Deus é o próprio Deus”.

“Eis a religião cristã: venerar um Deus só e não muitos,porque só um Deus faz a alma feliz”.

“Tarde te amei, ó beleza eterna e sempre nova. Tarde te amei. Eis que Tu estavas dentro de mim e eu estava fora. Eu te buscava lá fora. Atrás destas formosuras, criaturas tuas, corri disforme. Tu estavas comigo mas eu não estava contigo. Aquelas seguraram-me afastado de ti,elas que não existiriam se não existissem por ti. Chamaste,clamaste, rompeste minha surdez; lançaste raios e fulgores e afugentaste minha cegueira… enfim, te senti e agora estou faminto e sedento (de ti)”.

“Tocaste-me: eis que estou ardendo em tua paz”.

“Ó Amor, que ardes sempre e nunca te apagas. Ó caridade, ó Deus meu, inflama-me… dá o que mandas e manda o que queres” (Confessiones. 10,27).

“Ali repousaremos… no fim sem fim. Qual é o nosso destino senão chegar ao Reino sem fim?” (Cidade de Deus, 22,30)

Terra da promissão

Saudades de uma vida eterna, eis o problema de cada vida humana. Vivemos como plantas ávidas da luz do sol nesta terra da promissão.

Foi um longo caminhar. Séculos se passaram, foi prometida a Abraão. Israel marchou por quarenta anos atrás desta visão. E ainda caminhamos, a humanidade toda, à sua procura, porque esse país só existe no além.

Por aqui ainda marchamos nas areias do deserto.

Extraído do livro Teologia das Realidades Celestes do Padre João Beting, sacerdote redentorista

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