Porta fechada

Céu e terra passarão. O mundo vai acabar. Só Deus permanece (Mt 24,25)

“A figura deste mundo passa” (1Cor 7,31). Sempre oportuno o lembrete do sábio do A.T.: “Lembra-te do teu criador… Tudo o mais é vão e vazio”(Ecl 12,1.8).

Não nos atrasemos no caminho! Por favor! Seria fatal.

Diz Gregório Magno: “Insensato o viandante que ao contemplar no caminho os prados floridos, esquece a meta da sua viagem”.

Vai-lhe acontecer como às virgens loucas: vai encontrar portas fechadas. Vai-lhe acontecer como à boneca de Teresa ChappuIs. Recebera, aos seis anos, uma boneca que sabia dormir, chorar – uma maravilha! Mas a “filha querida” tinha de saber também todas as lições do catecismo. E lá vai a primeira pergunta: “Para que estamos na terra?” Silêncio “Como! nem isto sabe?” E a pobre pagã voou para um canto. Nunca mais nela tocou. Traste inútil. O sacerdote que ensinava catecismo no castelo, começava cada aula com esta primeira pergunta.

 

A marca

“Deus gravou na fronte de cada uma das suas criaturas a marca de propriedade, selo infalsificável do seu real senhorio. É só abrir os olhos para ver que o nome de

Deus resplende de todas as alturas e profundezas da criação.

Traça-o o raio, em caracteres de fogo, no sinistro vulcão. O orvalho desenha-o com pérolas, nas aloiradas folhas de capim. O vendaval o esculpe, em alto relevo,nos sanhudos vagalhões do mar. Enquanto as flores o pintam no vislumbrante matiz de suas pétalas. O ribombar horríssono do trovão, como o meigo ciciar da brisa vespertina, a lúcida claridade do dia como o negrume fatídico da noite, tudo canta, tudo apregoa, nas mais variadas tonalidades da escala musical, o eterno hino triunfal: Glória ao Deus dos exércitos! Cheios de tua glória estão os céus e a terra. Hosana a Deus nas alturas!” (ROHDEN, 108)

 

O dono

Os antigos romanos gravavam a fogo na testa dos escravos fugitivos o nome do dono. O artista assina a obra com seu nome. Demos uma volta pelo mundo e averigüemos a marca do dono. Cada criatura nos responde: sou de Deus; foi Deus que me fez. “Perguntei, escreve

Sto. Agostinho, à vastidão do mundo a respeito de Deus e ele respondeu-me: Não eu, mas Ele me fez” (Confessiones,10,6). Toda criatura é serva de Deus. Esta dependência não admite exceção. Tudo é dele. Tudo quanto existe. Vivo ou morto. Sol, lua, estrelas lhe pertencem. E na terra, todas as cidades e reinos, todos os navios e foguetes,todas as fazendas e lavouras, todas as fábricas e usinas, todos os talentos e gênios, todas as criações da arte da música e da literatura são domínio de Deus. Os homens dispõem disto, a título de empréstimo, por setenta ou oitenta anos.

Deus é senhor absoluto e, portanto, o homem seu servo. Deus põe suas mãos em nosso ombro e nos diz:

“Eu te criei… eu te salvei. Tu és meu” (Isaías 43,1). Todos servem a Deus: estrelas e flores, anjos e homens, grandes e proletários, povos e famílias. É um conseqüência lógica, metafísica da qual nem Deus pode abrir mão, por sorte nossa por ser impossível criatura tornar-se ser-nãocriado,ser absoluto. Eis, pois, a carta magna do reino da terra: servir a Deus.

 

Servir

A palavra de Deus repete: “Nenhum de nós vive para si, nem morre para si. Vivendo, vivemos para o Senhor. Morrendo, morremos para o Senhor. Vivos ou mortas, ao Senhor é que pertencemos” (Rm 14,7). Para criatura racional-espiritual não há outro fim possível senão Deus.

Sto. Agostinho o assinala, dizendo: “Deus é o supremo bem; não podemos contentar-nos com menos”. Diz o ditado:“Quem viveu sem Deus, floriu em vão”. Disse o poeta (Novalis): “Deus é o sol da alma”. Sem a luz do sol, é a noite.

Deus é centro e fundamento. É construído sobre areia tudo que não se apóia em Deus; é oco tudo que Deus não enche: pois ele é a plenitude. Tudo morto o que Deus não anima e vivifica: pois só ele é a vida e só ele dá a vida.

Extraído do livro Teologia das Realidades Celestes do Padre João Beting CSsR

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