Vontade de Deus

A suprema perfeição da criatura “homem” é servir a Deus. Fazer a vontade de Deus é a suma perfeição. Para traçar um roteiro para a criatura humana não há outro ser mais competente, mais inteligente, mais bondoso que Deus. Os humanos podem expandir todos os seus talentos,que Deus lhes deu, para criar valores e culturas, mas que o façam sempre de acordo com o plano de Deus. Povos e governos podem e devem lutar por uma promoção social, cultural, sempre mais crescente, mas seja tudo coordenado com as leis de Deus. A política nacional e internacional desenvolva sua atividade, mas sem contrariar a vontade de Deus. As obras de arte e da literatura merecem cultivo, mas não ofendam as normas divinas. Não há independência perante o Ser Absoluto e nenhum das atividades humanas é “livre”: todas devem convergir em Deus e subordinar-se à sua lei. Tudo está debaixo da soberania de Deus. “Faça-se a Tua vontade, como no céu, assim também na terra”: eis o roteiro do cosmos universal.

A exemplo do Homem-Deus, que declarou alto e em bom som: “Faço sempre o que é do agrado do Pai” (Jo 8,29), nosso modelo e exemplo até chegarmos ao Consummatum est – terminou tua hora de trabalho e serviço.

E ouvirmos o convite: servo bom e fiel, entra na glória de Deus.

 

Retorno

O homem foi feito para viver de Deus. Como o pássaro foi feito para voar, e o sol para brilhar.

A tragédia da humanidade atéia consiste justamente em ter cortado o elo entre Deus e o homem. Agora nada mais tem sentido. Sem Deus não existe nem verdade,nem justiça, nem felicidade entre os homens. Nada mais resta ao homem do que a angústia e o desespero, o correr atrás dos prazeres e ingurgitar-se de psicotrópicos. E dessa ausência de Deus a humanidade irá morrer. A lei da selva e a brutalidade do egoísmo são as leis da humanidade se Deus, condenada a morrer de morte lenta, mas certeira.

E esta morte é realmente “um arco de triunfo que se abre para o vazio” (Barres). “Nosso mundo perdeu o sentido de Deus… e a sociedade humana tornou-se um vazio, do qual ela morrerá, um deserto de Deus” (Suhard, 1948).

Pio XII estigmatizou e denunciou, em 1949, um mal maior: o ódio de Deus. E hoje, após um concílio mundial, o cínico nos comunica: Deus já morreu. É o início das trevas da Angústia.

É mister subir às fontes, à origem. “Não há mais esperança a não ser na linha vertical… Avante na estrada.

Sentido único” (Claudel). É mister retornar, de causa em causa, até à luz inacessível dentro da qual se esconde Aquele que existe. “O mundo é a face de Amor Eterno inclinado sobre nós” (Laurigaudie). Os hindus afirmam com uma obstinação pedante que tudo é ilusão; mas nós sabemos que tudo é “alusão” (Claudel).

Um aviador canadense diz: “Perdido no espaço, sozinho,estendi a mão e toquei a face de Deus. Através desse Nada magnífico que é o mundo, tocamos a presença de Deus.” “O mundo é um pensamento que não pensa, suspenso num pensamento que pensa” (Lachelier).

Saiba a criatura que, através dos meandros da vida terrena, com seus percalços, ela vai eternizar-se em Deus. O teólogo medieval lapidou a sentença: “A visão do Deus Trino e Uno é fruto e fim da nossa vida” (I Sent. 2,1).

Toda a grandeza e toda a miséria humana origina-se desse destino divino. Se o homem é fiel, a sua existência cotidiana é iluminada por esta invisível presença. Se o homem recusa a luz, se resiste ao amor eterno, sua vida é quebrada. A nós cabe escolher… Deus renova o convite sem cessar. “Quem te criou, reclama por ti” (Agostinho).

“Não haja entre nós quem falhe à meta” (Hb 4,1). O apóstolo convida para a corrida ao prêmio oferecido a todos.

“Esqueço o que ficou para trás e atiro-me para frente. Mirando o alvo, vou à conquista do prêmio” (Fl 3,13).

Extraído do livro Teologia das Realidades Celestes do Padre João Beting CSsR

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