QUEM É DEUS?

Sto. Tomás, aos 5 anos, perguntava ao seu mestre de primeiras letras: “Quem é Deus?”

 

Mistério

Deus é o mistério. Mil nomes lhe são dados, mas sua face continua oculta. Sei que é eterno, onipotente,onisciente, infinito, bom, formoso. Mas sei também que é muito mais do que isto. Desde sempre é eterno, existe:“paralelo a todos os tempos e espaços – onipresente”(ROHDEN, De alma para alma).

É o único ser “auto-existente”. Todos os demais são alo-existentes. São sombras, e não realidades, apesar da grossura, altura ou peso. Existem por acaso. Existem porque o Ser Absoluto os fez existir. São partículas relativas na gramática cosmológica.

Isaías, embora profeta e visionário, declara que Javé é um Deus escondido (45,15), pois para Deus o mundo inteiro é como uma gota d’água perante o mar. Assim sendo a inteligência humana deve-se achar na mesma desproporção perante Deus: incapaz de compreender.

Deus é o mistério. Nossa inteligência conduz até perto: Deus existe; mas sua natureza está sempre envolvida no halo do mistério. A bússola orienta com segurança o explorador rumo ao pólo norte. Chegando, porém, perto do misterioso foco de atração, ela move-se inquieta, agitase, não serve mais Assim a mente humana perante o mistério de Deus.

As inteligências mais penetrantes só sabem balbuciar.Hierón, tirano de Siracusa, pediu ao filósofo Simônides:“Diga-me, quem é Deus”. O sábio pediu um dia de prazo para responder. Depois pediu dois, depois quatro,depois oito. No fim, declarou: “Quanto mais tempo passo meditando, tanto mais difícil me parece a resposta” (Cícero).

A revelação bíblica conduz-nos alguns passos mais adiante. Mas no fim, topamos também com o mistério infinito.

 

Revérberos

Deus criou esse mundo: portanto ele é maior, mais formoso, mais forte. Se o mundo criado nos empolga, deslumbra, fascina, hipnotiza: quanto mais o seu criador.

Qual foi a emoção de Newton ao descobrir a lei da gravitação dos sistemas estrelares: as estrelas menores girando ao redor das grandes, as grandes girando dentro das galáxias. E estes gigantes voando através do espaço na velocidade de cento e oitenta mil quilômetros por segundo (não por hora ou por minuto, mas por segundo).

Nossa mente fica barrada.

E a criatura é só reflexo, revérbero, sombra, da Realidade infinita, imensa. Diz Sto. Agostinho: “Deus não seria Deus se não fosse superior à nossa capacidade de compreensão”.

 

Fragmentos

A sabedoria brâmane inventou o conto do elefante na aldeia dos cegos. O primeiro cego pegou a tromba e decretou triunfante: “O elefante é como uma árvore torta com a casca áspera e rugosa”. Os colegas protestaram:“Não, ele é como um leque grande (orelha)”. “Não, ele se parece com uma serpente (rabo)”. “Não, ele se parece com uma coluna (patas)”.

Nós vislumbramos alguns atributos divinos mas não conseguimos uma visão do conjuntos global. A razão humana falha quando encontra luz demais Olhando o sol, fica cega.

Seres finitos e limitados, parecemos turistas a visitar a catedral de Colônia de noite, armados de pequenos holofotes.

Aqui se destaca um altar e não enxergamos os retábulos no alto. Ali, uma coluna que se perde no escuro da abobada. Topamos com os pés numa lousa sepulcral e deciframos a inscrição latina. Impossível ter uma visão cabal e adequada do templo, em sua majestade (T. Toth).

Vemos alguns fragmentos de Deus. Sabemos que Deus é santo, justo, misericordioso e imaginamos estes conceitos a nosso modo humano, quando na realidade, em Deus não existe essa série sucessiva de qualidades. Em Deus não há partes: é tudo uma coisa só. Intelecto e vontade são em Deus a mesma coisa. Justiça e misericórdia em Deus são idênticas. Impossível imaginarmos isto com a nossa cabeça. Mas de quantos conceitos errôneos iríamos livrar-nos se nunca perdêssemos de vista estes princípios. Deus, ser infinito, difere tanto, tanto de nós, que nossas idéias sobre Deus ficam muito aquém da realidade. Nossos raciocínios sobre a natureza de Deus são balbucios. Nossos conceitos sobre Deus estão cheios de acréscimos humanos; infiltrados por ganga terrestre.

Antropomorfo é todo o nosso pensar e falar de Deus.

Com Sto. Agostinho a palavra: “Tu és eterno e imutável.

Tu não tens um hoje. E no entanto o dia de hoje com todas as suas novidades se desenrola em tua presença.

Poderá correr o rio do tempo se Tu não o guiares?

Os teus anos não passam mas convergem para uma eternidade sempre presente. Desde os tempos de nossos ancestrais, quanta vastidão de tempo já passou diante da tua presença eterna!… Quem não o compreende, não insista, mas alegre-se. Alegre-se e procure encontrá-lo: eis o que importa” (Confessiones. 1,6).

Anúncios