Encontros

Os que retornam de lá, os que O encontraram em seus caminhos terrestres, declararam-se incapazes de dar explicações. É toda uma luta. Jacó lutou com o Anjo-Deus, exigindo-lhe dissesse seu nome. Moisés ouviu seu nome, viu-o face a face, conversou com ele como um amigo com seu par (Ex 33,11), contemplou o invisível, diz Hb 11,27. E afinal nada nos contou, desculpando-se por ter a língua pesada. Isaías viu o trono de Deus sobre os serafins, mas: “é impossível falar com lábios impuros” (6,5). Jeremias escusa-se, balbuciando a-a-a; sou criança que não sabe articular palavras (1,6). Perante o infinito todos ficam com a língua pesada. Até mesmo o apóstolo que subiu até o terceiro céu e viu coisas impossíveis de expressar em linguagem humana (2Cor 12,2). Prece e amor nos aproximam do Deus-mistério. Não inteligência, e especulação.

Assim acorreu a Helena Most, luterana convertida,no encontro misterioso: “Meu anseio de encontrar Deus chegou a ser tão grande que me dominava toda. Às vezes,fugia do convívio familiar e corria ao meu quarto, para cair de joelhos pedindo, pedindo, pedindo. E Nosso Senhor deu-me a verdade”.

Hermann Bahr, crítico literário, deve sua conversão ao encontro misterioso: “Uma fé ilusória não me teria acalmado. Belas emoções e sentimentos não me valiam. Eu queria saber”.

Carmelo de Paris, 1607. A superiora visita a jovem noviça na cela, Catarina de Jesus. Encontra-a absorta em Deus. “O que faz?” “Contemplo este Deus que enche tudo aqui”. E recaiu no silêncio.

Seja recordada a palavra de Jesus, hoje atual como nunca, mais do que nunca: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o revelar” (Mt 11,27).

Deus é a suprema Realidade. É o centro. Impossível,metafisicamente impossível a descentralização. Anjos e demônios só se ocupam com ele. Se os demônios pudessem esquecê-lo, estaria findo seu inferno. Na terra, fogo e gelo, e toda a criatura rodeiam o salmista (148,8), cantando o louvor do Altíssimo.

 

Desencontros

Com a humanidade as coisas são diferentes. Há toda uma variedade: não conhecer, ignorar, recusar. As desculpas são várias. Deus: isto é grande demais; se o tomássemos a sério, ele invadiria tudo. E, em todo caso, se Ele existe, é impossível compreendê-lo. Fantasma ou realidade, em todo caso inacessível. “Bagatelas”, responde o livro da Sabedoria (4,12).

No paganismo, o vício obsceno é Deus. A crueldade é Deus. Figuras revoltantes ou ridículas povoam o Olimpo.

Degradação aviltante, castigo do orgulho humano, é este culto religioso pagão.

Sto. Agostinho conta que o senado romano reconheceu oficialmente três mil deuses, mas recusou terminantemente a homologação do Deus dos cristãos, porque é um deus orgulhoso; não tolera outros deuses a seu lado.

Fora bem inspirado! Imaginem, Jesus figurar entre os três mil, todos eles criaturas da fantasia humana, ou melhor,caricatura. Jamais!

Recusar Deus que é o único ser que existe… que absurdo! Todo o universo só existe por empréstimo, numa existência precária, eternamente mendigada. É mister contemplar a Deus como se tudo o mais não existisse,pois Deus é o Absoluto, o único.

Cromácio pediu ao mártir Sebastião a cura. Foi-lhe exigida uma condição: tirar da casa todos os ídolos pagãos.

Cromácio: “Certo, mas guardei apenas um pequenino,porque é lembrança”. Sebastião: “Não podes conservar nenhum, ainda te seja caro como o olho, se queres sarar!”… Como existem idéias infantis da humanidade sobre o Ser Absoluto, Infinito.

Extraído do livro do padre João Beting: Teologia das Realidades Celestes

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