DEUS ESPÍRITO

Sto. Agostinho narra como mandou seus cinco sentidos pelo mundo afora à procura de Deus. E, um a um, voltaram dizendo: “Não vimos nada, é impossível ver Deus na terra; somente em teu coração poderás sentir sua presença, mas ver, só na eternidade”.

Deus é espírito, explica Jesus à Samaritana. Deus é espírito perfeitíssimo, dizia o catecismo para crianças, quando na verdade nem sequer os adultos, nem o gênio mais elevado é capaz de alcançar o sentido dessa palavra.

Nós somos um composto de corpo e espírito. Nosso pensamento atinge a realidade intelectual não por intuição mas somente por um penoso processo lógico de abstração.

Como somos corpóreos, a nossa linguagem também é corpóreo e, daí, inadequada para definir um ser não corpóreo. É impossível falar sobre Deus com precisão, usando uma linguagem feita pelos e para os cinco sentidos do organismo corporal.

 “Como peixes que levantam a cabeça fora d’água para ver o sol, ou o mundo florido ao redor, assim é o mundo dos seres espirituais em relação a nossa razão (Foerster). Por isso parece que Deus não se cansa de fazer repetir pelos profetas do A.T.: “Tanto quanto os céus estão elevados acima da terra, tanto se acham elevados meus caminhos acima dos vossos e meus pensamentos ultrapassam vossos” (Is 55,9).

Tornamos a lembrar que nosso linguajar sobre Deus ficará sempre inadequado por dupla razão: por Deus ser espírito puro e por ser absoluto, infinito. Não sabemos falar de outra maneira, a não se a humana. Falamos do olhar de Deus, da mão de Deus, do trono de Deus. A própria Bíblia fala assim. Falando do trono de Deus a Escritura quer dar a entender sua infinita majestade. Falando do braço de Deus entende sua onipotência.

 Metáforas. “Deus mora numa luz inacessível; nenhum ser humano jamais ouviu, nem o pode ver” (1Tm 6,16). Só a fé e sua luz nos guia.

A natureza criada dá-nos uma imagem de Deus, mas vaga e nebulosa. Conhecemos Deus só pelo espelho das criaturas: por aquilo que estas refletem de Deus. Criaturas, embora obras divinas, não podem ser expressão adequada da onipotência infinita. Diz Sto. Tomás: “Sobre Deus sabemos melhor o que ele não é, do que o que ele é”.

Por outro lado, o que sabemos de Deus não se resume apenas a nomes e vocábulos. Por imperfeitos que sejam nossos conceitos mentais sobre Deus, eles são reais, atingem a realidade embora de um modo imperfeito e incompleto. São Paulo o afirma (Rm 1,20): “As perfeições invisíveis de Deus tornaram-se visíveis à nossa inteligência, através das criaturas”.

Temos só conceitos análogos, diz a Escola. Por enquanto vemos com num espelho (opaco) alguns reflexos e sombras do infinito. A plenitude do Ser ultrapassa os quadros da mente criada e mais ainda os de um intelecto preso a imagens corpóreas. Sabes quando verás a Deus de verdade? Quando ao teu nome se acrescentar RIP: Requiescat in pace. Quando se rezar sobre teu túmulo: A luz eterna brilhe para ele (T. Toth). Belo costume bem gracioso, este de despedirmo-nos dos nossos falecidos com esta saudação: “Brilhe agora para ti a luz eterna”.

E seja recordada a bem-aventurança evangélica:

“Bem-aventurados, diz o Filho de Deus, bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5,8).

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