GRAÇA

 

Graça é favor gratuito. É benevolência e amizade de Deus para com a criatura.

Nosso destino eterno é Deus. Pela graça Deus nos quer fazer participar, desde já, na terra, dessa vida divina.

Consideramos até agora o destino de todo ser racional:

Deus, a plenitude do Ser. Mas por assim dizer, Ele foi visto de fora. Foi um contato externo com Deus. Foi, por assim dizer, participação na esfera marginal da divindade.

É esse o destino que deve caber a habitantes de outros planetas, no vasto universo. Destino, quiçá, que coube ainda aos problemáticos ancestrais de nosso Adão.

Mas Adão, e sua descendência, foi elevado a um destino acima do seu destino natural. Destino sobrenatural

. Foi destinado a participar da própria vida de Deus, da sua vida mais íntima em grau máximo, acessível à criatura.

Sabemos como Adão vendeu sua primogenitura por uma maçã, como Esaú por um prato de lentilhas (Gn 3). O Filho de Deus feito homem veio substituí-lo, restaurando a união da família humana com Deus.

A origem

 

 

O mistério dessa união renovada é maior do que foi no paraíso.

Aí Deus unira graça e natureza, suspendendo ao mesmo tempo todos os defeitos laterais da natureza humana.

Assim a graça podia contentar-se com a elevação sobrenatural. A união era pacífica e sem lutas. Na restituição, e redenção por Cristo, Deus porém deixou a natureza humana em seu estado natural, no qual ela recaíra pelo pecado original, viu e vê, com nitidez, a sua pobreza sem Deus e sua incapacidade de atingir o destino sobrenatural, castigo da justiça divina. Todavia, após o batismo desaparece toda culpa. Rm 8,1: nihil damnationis, “nada de culpável” resta na criatura humana, embora continue desprovida de todos os recursos espirituais. Mas aumentou, assim, a glória de Deus. Nada glorifica mais a Deus do que a criatura reconhecer a realidade, suas limitações e insuficiências, e suportar de boa mente o seu nada, oferecendo-se em holocausto total a Deus.

Escreve Scheeben: “Eis a maior glória da criatura:dar-se, oferecer-se humilde e submissa a Deus, como holocausto. Ao contrário, nada mais a rebaixa tanto quanto o orgulho e a rebeldia contra o criador. O fogo que devora este holocausto é a graça do amor ardente. Ardor que aniquila a sensualidade herdada e, mais ainda, a rebeldia e independência inatas. Exige a renúncia de bens naturais, bens reais, a fim de pertencer exclusivamente a Deus. Amor que faz a natureza alegrar-se na sua miséria natural, a exemplo de São Paulo: “Prefiro gloriar-me, jubiloso, das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo” (2Cor 12,9). Amor que faz desejar humilhações e dor, porque vê nisto maior glória de Deus.

Deseja crucificar a natureza à semelhança do Redentor,que quis sofrer e morrer para maior glória do Pai (Cf. Gálatas).

A natureza geme, mas deve não só suportar sua deficiência natural mas também sacrificá-la e oferecê-la, em expiação pela revolta paradisíaca. É o mistério da cruz.

Mas a crucificação não produz a destruição da natureza e da força. A fraqueza da carne assemelha-nos ao Redentor, que também precisou sofrer tudo, a fim de entrar na glória (Lc 24,26) a fim de realizar o mistério pascal!”.

 

Elevação cristã

 

Subir altas montanhas é gosto ancestral do homem.

A visão do alto eleva nosso coração. Os revérberos do sol nas geleiras, nas neves eternas… O silêncio e a solidão…

O céu parece mais perto.

Quem mora nas planícies terrestres, talvez lisas e monótonas como um tabuleiro, que ouça uma música.

Uma sonata de Beethoven, Scherzo opus 31 de Chopin,trechos da Aída ou da Traviata de Verdi: elevam a alma.

A elevação cristã porém, não é alpinismo, nem música,nem literatura. É a elevação do homem interior, a Cristo, e de Cristo até Deus.

Elevação não somente afetiva, mas real, ontológica,existencial.

A natureza humana é unida à graça-enxertada, diz São Paulo, como uma sombra-natureza de ordem divina.

Natureza e sobrenatureza harmonizam-se tão bem que o sobrenatural da graça aparece como um complemento conatural.

Um íntimo desejo “subconsciente” do homem pelo sobrenatural, vislumbra em Deus o seu maior bem. Até Sartre, filósofo pagão, dá testemunha desse desejo inato.

Escreve, em 1943: “O sentido de desejo é, em última análise,o projeto de se tornar Deus…” Ser homem é tender a ser Deus, ou se preferem, o homem é fundamentalmente desejo de Deus (L’Être et le Néant, pg. 653).

A promoção sobrenatural encontra, pois, dentro de nós, uma aspiração instintiva.

Os primeiros cristãos sentiam-se mais familiarizados com esse nosso contato com o além. Tinham olhos mais claros para captar essas luzes do espaço etéreo. E, cheios de fervor, rezavam usando a língua bíblico-aramaica: Maran atha! Vinde, Senhor Jesus, vinde! A ordem sobrenatural era para eles realidade invisível mas real.

São Paulo, talvez mais que os Evangelhos, abriu-lhes os olhos e a mente. Ele menciona, nas suas cartas, inúmeras vezes, como sendo o essencial de sua mensagem, a graça, a cáris ou carisma de Deus. Um pagão, que chegasse a ler as cartas paulinas, deveria ter ficado intrigado com esse vocábulo usado num contexto tão misterioso.

De fato, ele é a chave do enigma cristão.

Contagioso, o otimismo do apóstolo: “Superabundou a graça” (Rm 5,20).

“Ó riqueza de sua graça, que em torrentes derramou sobre nós” (Ef 1,8).

“Tudo quanto existe no céu e na terra fez novamente convergir em Cristo” (Ef 1,10).

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

 

 

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