VIDA DIVINA

 

Deus quis intensificar a efusão de sua bondade iniciada na obra da criação. Quis levá-la ao máximo possível fazendo a criatura, angélica e humana, ter parte na sua própria natureza divina. E assim criou a Graça, aquela emanação da essência divina que enxerta, infiltra na criatura a vida própria de Deus.

O A.T. não teve noção disto. Os livros sapienciais sentem o mistério. “Mas só o Filho de Deus nô-lo revelou” (Jo 1,18).

É um renascer da água e do Espírito Santo (Jo 3,5).

Renascimento invisível como o soprar do vento misterioso,pois nasce do Espírito (3,6).

É como videira e sarmento: em ambos corre a mesma seiva (Jo 15,1).

E finalmente, quase no fim da Bíblia, revela São Pedro a grande palavra: “Deus, o que há de mais precioso,fez-nos participantes da natureza divina” (2Pd 1,4).

Essa participação não suspende a linha divisória entre Deus e a criatura. Não resulta em panteísmo. Mas tão pouco é apenas uma divinização moral, metafórica. Faz termos parte real e física na vida divina. É participação ontológica e existencial.

Por isso, a palavra de Jesus à Samaritana: “Se soubesses o dom de Deus” (Jo 4, 10). A Nicodemos sobre o renascimento: “Somos renascidos de Deus” (Jo 1,13).

“Quem ama é nascido de Deus… e conhece a Deus” (1Jo 4,7-8).

 

FILHOS DE DEUS

 

 

De filhos da terra tornamo-nos, por este segundo nascimento, filhos de Deus, à semelhança do Filho Unigênito,pois ele deu-nos este poder de tornar-nos filhos de Deus (Jo 1,13). “Somos chamados filhos de Deus e o somos de fato” (1Jo 3,1).

São Paulo apregoa uma renovação espiritual. Exorta: Revesti-vos de Cristo! “Revesti-vos do novo homem” (Ef 4,22). “Batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27). E quem “vive em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor 5,17). A graça de Deus é “uma nova criação” (Gl 6,15). Pois recebemos a plenitude de Filho Unigênito “graça sobre graça” (Jo 1,16).

É o grande mistério da Encarnação do Verbo Eterno,do Filho de Deus, realizada a fim de elevar todas as criaturas humanas à mesma dignidade por participação (Ef 3,4). O dom que Cristo nos trouxe é sua vida divina. “Dei-lhes a glória que me deste” (Jo 17,22).

Agora podemos “ousar” rezar o Pai-Nosso. O Espírito Santo (Rm 8,16) autoriza-nos a chamar a Deus de nosso Pai.

Luiza de França, filha de Luís XV, ao receber uma censura da governanta, retrucou-lhe: “Não se esqueça,sou filha do rei da França”. A governanta respondeu, com calma: “Eu sou filha do rei do céu”.

Não somos só filhos adotivos, que dos novos pais só recebem o nome, e talvez futuramente recebam uma herança, mas sem com eles terem ligame biológico. Não; o que Jesus é por natureza, Filho de Deus, somos nós pela graça, por participação real, física. “Há dois nascimentos, um da terra, outro do céu. Um na carne, outro no espírito.

Um para a morte, outro para a eternidade. Um de homem e mulher, outro de Deus e da Igreja” (Sto. Agostinho).

Portanto, Deus Pai nos ama. Imagine-se o despropósito:

Deus nos amar…

Agora Ele vê em nós seu Filho predileto. Junto com ele ama-nos, desde toda a eternidade (Jr 31,3). “São minhas delícias estar com os filhos dos homens” (Sb 8, 1):palavras do Verbo de Deus.

 

Dom de Deus

 

 

A natureza desse dom é um mistério da fé. Podemos dizer que é uma realidade permanente, interior, que tem suas raízes na substância da alma, espalhando-se pelas potências e faculdades. Não é idêntica ao amor de Deus,que nos é infuso pelo Espírito Santo (Rm 5,5), embora esse dois dons vivam e cresçam sempre paralelos.

A vida humana é acrescida de uma sobrenatureza,de uma vida divina.

A pedra existe, mas é sem vida. A planta tem vida vegetal. Num estágio superior temos a vida do animal. O homem acrescenta à sua vida animal a vida intelectual.

Acima de nós estão os anjos, seres intelectuais sem corpo.

E acima de tudo isso, na culminância da escala dos seres está o cristão partícipe da vida divina.

A natureza íntima dessa vida divina participada está envolta no mistério do sobrenatural. Dispomos só de analogias,figuras e comparações.

Jesus usou a figura da videira e dos sarmentos. Fala de renascer para uma vida nova. Compara-a com a veste nupcial.

São Paulo recorre à figura do enxerto de um galho de oliveira selvagem numa oliveira cultivada. E, contra todas as leis da botânica, o enxerto selvagem assume a natureza da oliveira de cultivo (Rm 11).

Os antigos santos padres gostam de compará-la a um selo impresso na cera. Ou à ação do fogo sobre o ferro.

O fogo torna-o brilhante, maleável, sem destruir-lhe a natureza; assim o cristão invadido pelo fogo divino (Basílio).

Ou a uma gota d’água num barril de vinho (Greg. Naz).

 

Valor

 

Deus mesmo está deslumbrado. Perguntou a uma santa, ao mostrar-lhe uma alma na graça santificante:

“Veja, não acha que valeu a pena morrer na cruz por criaturas tão bonitas?” Diz o teólogo; “O menor grau de graça santificante é superior, em valor, a todo o universo” (I II 113,9). “Reintegrar um pecador na graça é obra maior que criar um novo mundo” (1. c. ad 2). A graça santificante do último dos homens supera, em valor, o mais alto dos anjos.

Graça santificante, i. é., fazer a criatura participar da vida divina é o maior milagre da onipotência divina. Realmente, “a quem Deus enriquece, ninguém será capaz de empobrecer” (Cipriano de Cartago).

Superior à graça santificante é só a Encarnação e a dignidade da Mãe de Deus.

Teologia das Realidades Celestes, Padre João Beting CSsR

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