Imagem

 Destarte verifica-se a palavra do paraíso: “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”, e isso num grau e modo inaudito. Pela natureza intelectual “figuramos” a natureza espiritual de Deus.

Mas pela graça santificante, participando da natureza divina de um modo real, existencial, tornamo-nos espelhos que refletem a Deus. De um modo particular a vida Trinitária. Somos filhos de Deus, participantes da vida divina de modo análogo ao modo como Jesus pela união hipostática

. Como ele também nós somos gerados pelo Pai, ao infundir-nos a graça. Assim como ele é a imagem do Pai, reflexo de luz eterna (Hb 1,3), assim nós, pela graça, somos imagens do Verbo Eterno. E como no Verbo se reflete a vida trinitária, tornamo-nos também espelhos da Santíssima. Trindade, embora muito opacos.

Sta. Catarina de Gênova viu uma alma na graça de Deus, e comentou: “Se não soubesse que há um só Deus, pensaria que fosso um Deus, que era o próprio Deus”. Jesus sorriu e desenganou: “É só uma cópia…”

Como disse Eckehar OP.: “O que Deus é por natureza, é a alma por graça. Deus fez uma segunda edição humana bem melhorada: e a segunda é digna da vida eterna (Prohaska). Um pagão batizado, aos oitenta anos, morre aos oitenta e dois anos: “Quantos anos tem?”, perguntam-lhe. – “Dois” (de filho de Deus).

 E essa beleza celeste já está aqui na terra conosco, dentro de nós (Ef 1,14). Explica São Paulo que o selo, que o Espírito Santo nos imprime, é não somente penhor (como se traduz em geral) mas a primeira prestação. Sto. Agostinho já reclama contra a tradução inexata da Vulgata para arrabon.

 Rm 8,5 garante que já recebemos as primícias do Espírito, suas primeiras “prestações”. Graça é vida, revérbero da divindade. E porque nada disso percebemos? Presença invisível, insensível? Esse tesouro é subtraído aos nossos sentidos corporais Nem o intelecto consegue contato. Só o amor chega a pressentir a presença do amor.

 Até à última revelação final será a fé o nosso guia, no dizer de São Pedro (1,1-5). Não vemos a Deus e suas riquezas, embora esteja tão perto de nós, com toda a plenitude do seu Ser, por falta de iluminação. A luz da fé tem voltagem tão reduzida!

 E é insuficiente para tão majestosa catedral; insuficiente para clarear e iluminar todo esse palácio de Deus dentro de nós. Esperemos a luz eterna! Mas o que então veremos, já está agora em nós, tal qual, idêntico.

Como uma catedral, no escuro da noite, na penumbra da lamparina. No céu, a luz da fé será substituída pela luz da glória, que é “algo” que nos põe em condições de ver Deus face a face. Mas a graça santificante é a mesma. Ela é a única coisa que levamos conosco da terra para o outro mundo.

 E ainda sua irmã gêmea, o amor de Deus. As demais virtudes, mesmo a fé, são dispensadas. O mérito das boas obras já está registrado na graça santificante.

 VER DEUS

 Sta. Teresa d’Ávila, foge aos sete anos, com seu irmão mais velho, a fim de em Marrocos morrer mártir pela fé. Interrogada explica-se: “Parti porque quero ver Deus e para ver Deus é preciso morrer antes”.

Antes de morrer obteve a graça de ver a majestade divina: “Toda a graça, toda a nossa graça, não vem do alto do céu, mas do íntimo da alma, onde Deus mora no centro do castelo dos sete patamares”.

 Nessa ocasião Sta. Teresa descobriu também “experimentalmente” (Vida 18) que Deus está presente na alma como criador do corpo e da alma, verdade que ela ignorava, pois havia lhe ensinado um teólogo ignorante que Deus está presente só pela graça santificante.

Tudo subsiste em Deus (At 17,28). Deus cria a alma humana tornando-a imagem de Deus Uno e Trino, ou melhor, tornando-a figura, esboço, rascunho, ser, intelecto, vontade. E Deus passa, uma segunda vez, pelo centro da alma, e desta vez imprime-lhe uma imagem perfeita.

 Não! imprime-lhe sua própria vida divina, a graça santificante. Então sim, mora no centro da alma o Rei e de lá, desse fundo ou ápice, age sobre ela. E neste fundo foi derramado o amor de Deus pelo Espírito (Rm 5,5).

 Deste centro interior é que ele fala e nos pede para deixarmos por sua conta a direção de nossa alma, segundo Rm 8,14: “Aqueles são filhos de Deus, que se deixam guiar pelo Espírito de Deus”. Essa presença divina opera uma união experimental, especialmente a partir da quinta morada, união progressiva a invadir a alma da gente até transformá-la em Deus.

 A alma “vê a Santíssima. Trindade” por uma visão intelectual… Vê a distinção entre as pessoas divinas… entende serem todos as três uma substância, um poder, 81 um saber, um só Deus… As três pessoas comunicam-se e falam à alma, e dão-lhe a compreender aquelas palavras do Senhor no Evangelho… que ele viria com o Pai e o Espírito Santo morar na alma que o ama” (STA. TERESA, Moradas 7,1).

 “O que eu entendo disto é que aquilo que eu chamo de espírito da alma, se torna uma coisa só com Deus… como a água da chuva que cai num rio e se confunde totalmente com a água do rio… como uma gota d’água que cai num barril de vinho… como as chamas de velas unidas se fundem numa só chama” (Moradas 7,2).

“Agora, morre a borboleta mística com indizível satisfação… e Cristo torna-se sua vida… Vê-se claramente ser Deus quem dá a vida à alma… E ela não pode deixar de exclamar: “Ó vida da minha vida e sustento que me sustentas” (Moradas 7,2).

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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