Contato divino

 

Esse contato íntimo abre-se ao amor. Quem ama recebe a visita divina, repete Jesus. Enérgico, incisivo é o texto de 1Jo 4,8: “Quem não ama, não chegou a conhecer (ver) Deus; porque Deus é amor”. Para tantos cristãos repete-se o caso de Jacó, na visão da escada do céu.

Realmente esse lugar é sagrado e eu não sabia” (Gn 28,16).

A mesma queixa, nos tempos hodiernos.

“Os homens vivem à superfície de suas almas, sem penetrar nunca no interior” (Leseur)

“Deus habita em nós. Como, e com que recolhimento recebemos um tal hóspede? Eu me confundo ao pensar que, mal deu entrada em mim, lhe volto as costas e o abandono, para entreter-me com ninharias” (Paulina Reynolds)

Jesus queixa-se a Benigna Consolata: “Sou, em muitos corações, como um tesouro infrutuoso. Eles me possuem porque têm a graça. Mas não me fazem valer. Supre essa indiferença”.

Todo o nosso empenho seja como de Isabel da Trindade:”fazer com que a casa de Deus (sua alma) seja invadida pelos três”.

Não sejamos como o jumento que, no domingo de Ramos, carregou o próprio Deus sem o perceber. Como disse São Bernardo: “O jumento não deixou de ser jumento”.

 

Em Deus

 

 

Nossa vida está escondida em Deus, diz São Paulo.

Valha, pois, também o imperativo: esteja escondida em Deus! Realizemos nossos privilégios sobrenaturais

Não sinto nada, me dizes. Respondo: só falta sincronizar,ou melhor: ligar o contato. “Quem me ama”… repete Jesus. Portanto, ame mais!

O Deus Trino está pertinho. E toda a vida íntima da Trindade realiza-se dentro de nós… “Somos um céu”, disse Orígenes. Desde toda a eternidade o Pai gera o Filho, sua imagem perfeita. Não outrora, mas hoje e agora num presente eterno. E o Pai, contemplando o Filho, ama-o, e o Filho ama o Pai, e esse olhar de amor que eles trocam condensa-se, por assim dizer, numa terceira Pessoa, o Espírito Santo, o amor feito pessoa.

E essa vida divina está dentro de nós, realizando-se em nós neste momento, e envolvendo-nos também nesse intercâmbio: o Pai gerando o Verbo e ambos produzindo em nós a cada instante o Espírito de amor.

“Usamos sobre nós escapulários, medalhas, relíquias e consideramo-los como tesouro. Mas temos em nós o Deus vivo do céu, e nem pensamos nisso. Somos portadores de Deus, no sentido estrito do termo. Cabe de novo a advertência de São Leão Magno: reconhece, ó cristão, tua dignidade”! (No silêncio de Deus, 54).

Oportuno, sempre oportuno, o recado-aviso de Tauler: “apressa-te de voltar para a casa: há visitas”.

 

INVADIDA PELOS TRÊS

 

 

Isabel da Trindade, nascida em 1880, teve infância piedosa. Fez a primeira comunhão em 1891; retiro espiritual em 1899. Entrada no Carmelo de Dijon, agosto 1901.

Vestidura, 8.12.1901. Votos, 6.1.1903. Março de 1906,enfermaria. Morte, 9.11.1906

“Cinco anos no Carmelo: aqui o pessoal se santifica depressa”, comentou um eclesiástico.

 

No céu dos três

 

Parece que desde a primeira comunhão sentia, muitas vezes, a presença de Deus, especialmente nas festas e bailes. Desde o grande retiro de 1899 sentia-se “habitada”.

Seu lema na vestição foi: Deus em mim e eu Nele.

“Você deve apaixonar-se por Jesus”, diz a uma amiga.

Coopera com ardor na missão paroquial dos redentoristas, em 1899. “Ó Jesus, peço o sofrimento em altas vozes. Estou pronta a tudo sofrer, mas dai-me almas”.

“Meu coração anseia pela conversão dos pecadores. A idéia persegue-me, mesmo durante o sono”.

Ainda em 1900: “Jesus, quero não só salvar a minha alma; desejo dar-te também outras”. Pediu sofrimentos.

Renunciou as consolações. “Sou tua vitimazinha; disponha”!

“Deixemo-nos transportar para aquelas regiões onde não há senão Ele, Deus só… Trazemos o céu em nós.

Parece-me ter encontrado o céu na terra; pois o céu é Deus e Deus está em minha alma” (Carta, 1902).

“Ao pegar a caçarola (ajudando na cozinha por um dia), não entrei em êxtase como Sta. Teresa, mas senti sua presença e meu coração o adorava em seu íntimo”.

“Ele mora no centro da alma como um sacrário onde quer ser adorado” (Carta, 1905).

Conversando com uma carmelita amiga, exclama:”Mas não sente os três? Eu os sinto”.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting