Revesti-vos

Revesti-vos de Cristo (Ef 4, 24). Revesti-vos do novo homem (Cl 3,10). Não, porém, com um manto que só envolva e encubra a natureza humana, mas sim numa comunicação vital de infiltração, de absorção pela vida divina.

O invólucro deve absorver todo o miolo, com licença da expressão. “Somos uma nova criatura em Cristo” (2Cor. 5,17). É melhor a outra metáfora de São Paulo.

 

Enxertados

 

 

 

Enxertados em Cristo (Rm 11,17). São Paulo aplica essa figura à mútua relação entre Israel e os gentios. A comparação, talvez inspirada na parábola da videira, expressa e bem a nossa incorporação em Cristo. Somos ramos bravios e selvagens enxertados na árvore de cultivo; e ao invés do que sucede com a lei da natureza, é o tronco que deve cultivar os galhos selvagens. O enxerto deve assimilar-se à árvore, i.é., nós a Cristo. Como os enxertos biológicos da medicina moderna devem ser assimilados pelo organismo. A ciência médica diz que se processa uma lenta substituição do corpo enxertado. É nosso caso com relação a Cristo.

Eis o mistério do pequeno planeta azul perdido no espaço: seus habitantes são filhos de Deus, ou antes são um filho de Deus. Um Mega-filho-de-Deus. Embora o valor esteja todo na cabeça, e o acréscimo seja apenas de volume e de uma boa porcentagem de escória.

 

Cristo Místico nos Santos

 

Essa nossa união com Jesus Cristo foi para os santos não apenas uma metáfora bonita, uma figura poética, mas rigorosa realidade.

São Paulo, prostrado no caminho de Damasco, ouve a reclamação: “Saulo, por quê me persegues?” (At 9,4).

Sta. Gertrudes e Sta. Matilde escutam as batidas do coração de Jesus.

Camila Varani vê como o pecado arranca pedaços de carne viva do corpo de Jesus.

Ida de Lovaina sente-se incorporada a Cristo de tal maneira que não sabe mais onde Jesus acaba e onde ela começa. Às vezes, seus membros se transformam em outros tantos corações, todos cheios de Deus.

Sta. Gertrudes sente-se como uma árvore que sai da ferida do coração salvador, florida e oloroza.

Sta. Matilde sente que Cristo é a voz que em seu íntimo louva Deus e adora. Cristo vive nela de um modo tão real que ele lhe diz: “Meu coração é o teu e o teu é meu”.

“Jesus deves viver para mim tão plenamente que possa atribuir a mim todas as tuas ações… numa palavra: sejas um manto debaixo do qual eu me escondo e sob o qual eu posso agir”.

Freqüentemente na literatura mística, há a troca do coração por Cristo. Tudo isso são figuras simbólicas de uma realidade espiritual.

Maria Cecília de Roma, da Congregação de Jesus, morta em 1929, em Casa (Quebec), aos trinta e três anos de vida terrestre e nove anos de vida religiosa, escreve na sua Autobiografia Espiritual, pg. 126: “Jesus mostrou-me um altar bastante alto, sobre o qual se erguiam chamas luminosas: era o altar de seu amor. Eu vi em sua mão meu coração, aquele meu coração que ele tinha tirado no retiro do postulantado (dois anos antes). Ele o mostrou longamente, a fim de dar-me a oportunidade de me entregar mais uma vez inteiramente e livremente a Ele. Depois colocou-o sobre o altar. O fogo envolveu-o, eu o vi queimar até a última fibra. Não restou nada, absolutamente nada.

Em seguida Jesus me convidou a subir eu mesma ao altar. Havia cinco degraus em honra das cinco santas chagas. Impossível dizer o que se passou em meu íntimo.

Eu senti como que uma repulsa, uma revolta da minha natureza; mas a alma estava na paz e na felicidade. Pus o pé sobre o primeiro degrau, o segundo, e continuando com abandono cheguei rapidamente ao centro do altar.

As chamas ficaram afastadas e não me tocaram. O bom Mestre, sempre com seu olhar sobre mim, me fez abrir os braços em forma de cruz. E imediatamente precipitaramse as chamas sobre mim. Com uma intensidade violenta e todavia com certa lentidão em sua ação, consumiram todo o meu ser. Durante o incêndio divino parecia-me que minha natureza fremia e gemia, e enfim parecia estar morta no momento da destruição completa… Quando o braseiro não encontrou mais alimento, o fogo abaixou-se e extinguiu-se. No centro sobrou só cinza. Jesus aproximou-se e soprou sobre as cinzas e aniquilou-as. E não sobrou mais nada de mim.

Eu estava morta… mas como vivia ainda na terra?

Sim, mas Jesus tomará meu lugar. Ele substituíra-se a mim. Ele me fez desaparecer. O campo estava livre. Ele podia agir com liberdade. Ele me mostrou que minhas aparências exteriores não eram nada mais que um manto de que ele era obrigado a se servir. Um manto que o ocultava aos olhos humanos e que lhe permitia continuar sua vida na terra.”

Visão e figura simbólicas e todavia uma realidade espiritual, uma mudança espiritual mas real que se operou na alma…

Às vezes, até a aparência externa assemelha-se a Jesus, fenômeno freqüente nos estigmatizados.

 Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR