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Se participamos da vida divina, é mister participarmos também da atividade divina, enquanto compatível com o estado de fé e com a condição de criatura. Já que temos a vida eterna precisamos também produzir frutos da vida eterna.

E a bondade de Deus aparelhou-nos de uma maneira generosa e maravilhosa. Enxertou dentro de nossa psiqué três novas forças sobrenaturais que nos põem em condições de operarmos à altura de Deus, com permissão da hipérbole. São elas a fé, a esperança e o amor. Juntamente com um complexo de dons celestes, os sete dons do Espírito Santo, já previstos para o reino messiânico pelos profetas (Joel, Isaías), encarregados de elevar o aparato de nossas virtudes naturais (na nomenclatura usual: prudência, justiça, temperança, fortaleza e respectivas virtudes subalternas) a um nível mais alto de operações, conformes a esta vida nova que invadiu a humanidade.

Aliás, estas virtudes parecem mais ter uma tarefa negativa, a de desimpedir a estrada de árvores caídas, de rochas despencadas do barranco e outros obstáculos na rodovia. A pista tríplice de asfalto são as virtudes teológicas: fé, esperança e amor. E o motor que movimenta a viatura, é o Espírito Santo, através dos setes dons. Sempre presente, age, inspira, puxa e empurra, arrasta às alturas.

A graça santificante elevou-nos à altura da divindade.

Os dons do Espírito fazem-nos agir nesta altura. Agir, não à maneira humana, mas à maneira divina (1Cor 2,15).

Eles é que fazem maravilhas em nossa alma tão chã, pedante e comodista. Maravilhas que espantam a nós mesmos.

O Espírito fortalece nossa fé sugerindo tudo quanto Jesus tem dito (Jo 14,26). Reza, em nosso lugar, ao Pai, numa confiança inabalável. E principalmente ele ama a Deus dentro de nosso coração. Nosso amor de Deus é e deve ser um eflúvio do Espírito, da Terceira Pessoa divina (Rm 5,5).

Uma parábola. Um moleque de rua foi levado ao castelo para ser príncipe e filho do rei. Banho. Roupa nova.

Modo de se comportar nesse novo ambiente, tarefa particularmente difícil.

É o que Deus fez com os filhos de Adão. Deu-lhes a graça santificante, i.é., o mesmo sangue real do Pai. Deu-lhes auxiliares-camareiros: os sete dons do Espírito. E as três virtudes teológicas: virtudes, forças sobrenaturais que nos põem em condições de agir como filhos de Deus. Um encargo difícil, tendo em vista a distância entre o mundo divino e esse mundo terreno, distância maior do que a do barro da rua ao palácio de mármore. Promovido, transferido da vida humana para a vida divina, que mudança inaudita!

E, atrás de tudo, ergue-se o grande amigo da humanidade, amigo íntimo de cada alma, que entra neste mundo (Jo 1,9), sempre pronto a ajudar seus irmãos menores.

Compreende-se o otimismo de São Paulo, baseado nesta amizade divina (Fl 4,13): “Tudo posso naquele que me fortifica”. Ou, ainda com toda franqueza (2Cor 12,9): “Prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas para que habite em mim a força de Cristo”. Rematando com 1Cor 15,10: “Pela graça de Deus sou o que sou. E sua graça não tem sido estéril em mim; ao contrário, trabalhei mais que todos, i.é., não eu, mas a graça de Deus comigo”.

 

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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