Gertrudes Maria

 

 

Jesus: “Não quero mais que te ocupes contigo. Quero que te esqueças, por completo. Deves ter um só pensamento: Deus e as almas. Deves ser como cera mole em minhas mãos. Não quero mais que procures consolação. Nem que a desejes. Darei consolo quando bem me parecer. Como na Eucaristia de pão e vinho só ficam as aparências, assim é preciso que em ti nada mais sobre do que é natural; que tudo seja divino.”

“É a presença de meu Filho que me atrai para ti.”

“Nosso Senhor dilatou minha alma para poder passear dentro, à vontade. Minha alma, de repente, de pequenina tornou-se grande, larga. Vi-a como um espaço imenso no qual Nosso Senhor caminhava. Ele, o Infinito, parecia estar à vontade naquele canto estreito, pobre e escuro.”

Jesus: “Devemos ser como dois gêmeos tão parecidos que se julgue sempre ver a mim, ouvir falar a mim…

Quando tiver tristezas, tu as terás também. Quando tiver alegrias, tu as sentirás também.

Como prenda de nossa união (transformante) dou-te meu coração e minha cruz. Meu coração representa a união da tua alma com minha natureza divina, com o Verbo Eterno. Minha cruz representa a união de tua alma com minha natureza humana, com o Verbo Encarnado.

Todos os meus bens são teus. Minha pessoa é tua.

Somos uma coisa só. Não temos mais que uma vontade.

Somos proprietários um do outro. Não temos mais que um coração para amar o Pai e o Espírito Santo. Um só coração para amar Maria. Um só coração para amar os anjos, os santos. Um só coração para amar as almas do purgatório.

Um só coração para amar as almas que estão sobre a terra e todas que ainda virão. Nós daremos a vida às almas.”

“A imensidade de Deus é aquele palácio vasto, do qual não se consegue sair. Viro-me para todos os lados, e encontro por toda parte Deus. Ele me envolve de todos os lados.

O Espírito Santo vai encher todos os vazios de tua vida.

O Espírito Santo vai fazer crescer Jesus em ti”.

 

MARIE DES VALLÉES

 

O processo de divinização foi ilustrado em Marie des Vallées (1590-1656) numa série de visões, através de figuras e símbolos significativos, que se destacam na hagiografia usual por sua originalidade digna dos Fioretti; notável também o bom humor de Jesus.

E tudo numa linguagem pitoresca, volta e meia linguagem santamente maliciosa, de subentendidos saborosos. Espírito fino, pensadora original, esta mulher do povo. “Águia” foi seu apelido popular. Esse processo divinizante pertence à segunda metade de sua vida; levou anos, culminou na morte mística em 1649, mas só terminou em 1654, com a “morte” dos sentidos.

“Procurando-vos, Senhor, eu me perdi a mim”, queixa-se. Jesus responde. “Ora, e perdeu vantagens na troca, se eu estou em teu lugar?”

Outro dia, Maria não se achando bem, N. Senhor lhe diz: “Vou ajudar a te achar. Vamos ter com Sto. Agostinho.

Ele te mostrará o caminho. Escuta, ele diz: se amardes a terra, sereis terra; se amardes o céu, sereis céu, se amardes Deus…” Jesus não terminou, mas saiu rindo, dizendo: “Alô, te encontraste?”

Num excesso extático ela apostrofa os quatro elementos que (segundo a medicina da época) compõem o corpo humano.

“Retira-se, ó terra porque nós não queremos outra terra que a santa humanidade de Nosso Senhor. Retira-te, ó água, só queremos as águas da sabedoria eterna.

Retira-te ó ar, só queremos o doce zéfiro do Espírito Santo.

Retira-se também, ó fogo, pois só queremos os fogos do Espírito Santo e do amor divino”.

Mas, antes de os quatro elementos da física desocuparem a área, já havia começado o êxodo de dentro. As faculdades mentais, narra ela, uma por uma caíram doentes, agonizaram e morreram.

“Primeiro o espírito, depois a memória, depois o intelecto.

Antes de ir embora vieram dizer adeus à vontade que é a sua rainha (e patroa) dizendo que iriam ver o Esposo.

Depois partiu também a vontade. E não os vi mais; nem sei onde estão”.

“Querendo lembrar-me de alguma coisa, é Nosso Senhor que responde: pois a memória se transformou nele”.

Essas parábolas e simbolismos lembram curiosamente Hb 4,12: o Verbo de Deus, mais cortantes que espada de dois gumes, penetra até a medula e divide alma e espírito. A teologia, ao interpretar, vai pensar Hb 4,12 como a misteriosa ação dos sete dons do Espírito Santo, os quais, a partir de certo grau de fervor, “suplantam” as virtudes e tomam a iniciativa na ação espiritual. Ultrapassando a razão, iluminada pela fé, as almas agem sob impulso superior.

 Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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