“Foram para o Nada; é a casa deles”

“Os sentidos internos entraram também em agonia, por sete anos. Os sentidos externos também, por sua vez, foram para sua casa, e se perderam no mar infinito da divindade”. E no final, Jesus mesmo aponta Gl 2,20 (“não vivo mais…”), visto que São Paulo também sentiu em si essa dupla personalidade: a sua antiga, humana, embora só restassem dela sombras e contornos emaciados, e a nova realidade, o Cristo e sua presença.

Quando o espírito ia partir, Jesus perguntou-lhe se não queria dizer adeus. “Só faltava essa”, respondeu o espírito: “Meu adeus será: factus obediens usque ad mortem.

Aliás, só faço o que o Senhor já fez primeiro”. “Teu espírito sou eu, lhe diz Jesus. Ou ele é minha veste. Pois estou revestido do teu espírito, que morreu, como de uma roupa que não tem sentimento. Teus sentidos também já estão mortos e os meus sentidos vestiramse com eles”.

Outra vez: “Eu sou tudo, e tu nada mais és que a roupa que uso. A roupa não tem nenhum movimento afora do que lhe dá a pessoa que a veste”.

Certa vez Jesus pergunta: “Se teu espírito voltasse, gostarias dele?” “Não”. “E por que não?” “Porque não consigo mais amá-lo.” E donde lhe vem isso? “Porque amo só a Deus”.

Mas certo dia o espírito voltou para uma visita rápida, e ela gostou dele. Jesus estranhou. “É que ele veio de todo mudado: tem voz tão agradável. Jesus interrompeu: “Essa voz não é dele, é minha. E tudo o mais que ele tem, é meu. Teu espírito é somente meu revestimento externo.”

Festa de todos os Santos de 1649. Assistimos ao diálogo extático:

Jesus: “Quem és tu?”

Maria, “Não sei nada”.

Jesus: “Mas fala, fala”

— “Sou a mais miserável das criaturas”.

Jesus: “Não é bem assim…”

E houve uma reviravolta atrás dos bastidores e ei-la a gritar: “Verbum caro factum est”.

Jesus: “Dize-o em francês!”

Maria: O Verbo revestiu-se da minha carne e é ele que sofre nela.

Jesus insiste: “Dize a esses santos convidados da festa: Em que estado te achas?

— “Não sei”.

— Dize-o comigo. Eloi, Eloi lama sabactani (Meu Deus, por que me abandonaste?).

 Eis o estado em que te encontras.

Tempos depois lhe diz Nosso Senhor: “As almas devem ser aniquiladas, a tal ponto que nada mais reste delas.

Tão pouco quanto resta do pão numa hóstia consagrada”.

Certo dia, Jesus perguntou: “O que minha esposa me dá de presente?” “Meu coração”. Responde Jesus:

“Nem tens mais; pois é o meu. Tu te pareces a um camponês a dizer ao rei: Majestade, ofereço-lhe seu palácio”.

Maria guardou a lição. Outro dia, Jesus pergunta:

“Onde está teu coração?” “Não sei de nada; nem sei se tenho um”.

Jesus: “Vou te mostrar”. E tira seu próprio coração do peito: “Eis o teu coração. É também da minha Mãe. É também o teu. Eu, minha Mãe e tu temos um só coração: é este”.

Uma parábola pós-evangélica, de Jesus: “Um camponês vende sua cabana a um rei, e este faz construir no lugar um castelo esplêndido. E o camponês procura em vão, sua antiga palhoça. E dizem-lhe: ela virou castelo.

Certo dia, Jesus explica: “Os santos, estando todos deificados, não são senão amor divino, de modo que seu nome é amor divino, e não Pedro e Paulo. É este o nome que eu lhes dou.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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