A VIA DE DEUS

Quatro reflexões complementares sobre a Via de Deus. Meditações de ordem prática sobre o encontro com Deus.

1. SANTIDADE CRISTÃ

“O que faz o fundo da minha tristeza – creio que ninguém o suspeita – é que eu queria ser santo. É tudo…

Sinto, de verdade, que eu passo sem cessar à margem daquele que eu queria ser.

Aquele, que eu queria ser, continua existindo. Está lá e era triste, a sua tristeza é minha” (JULIEN GREEN, Diário, I, 390)

Só Deus é santo. E a nossa santidade é imitação da sua, ou melhor: é participação, mais ou menos bem sucedida.

A santidade, a nossa, é dom de Deus, fruto da bondade divina e de nossa prece.

A criatura deve tornar-se santa pela santidade de Jesus.

Sta. Gertrudes, a santa litúrgica e do mistério pascal, julgando-se mal preparada para a banquete divino, vê o Filho de Deus aproximar-se. Ele lava-lhe as mãos, em remissão dos pecados. Depois tira todo o seu ornato, colares, braceletes, anéis e enfeita com eles sua esposa.

Revestida assim, com os méritos do Filho de Deus, Jesus ordena-lhe andar com garbo, com elegância, como compete a uma princesa do céu, i.é., com plena confiança nos méritos do divino Salvador.

Diz a Escritura: “De sua plenitude recebemos todos nós, graça sobre graça” (Jo 1,16).

Há a tendência de acentuar o lado moral: de se considerar a perfeição uma soma de virtudes, um conjunto de atos e afetos. É o lado humano. Constitui as primeiras letras no campo espiritual. É o andar térreo. A escolástica, inspirada pela filosofia, sintetizou tudo nas quatro virtudes cardeais: prudência, justiça e caridade social, fortaleza e temperança.

Mas a santidade é teológica. Não consiste em primeira linha em atos e afetos, mas é existência vital. É união com Deus, é participação vital da santidade divina.

Impõe-se, portanto, uma metodologia própria. Daí as sugestões que seguem.

Deus é santidade substancial. E santo é o ser humano que mais participa desta santidade de Deus. Importa pois abrirmos nossa alma, de par em par, a fim de que a santidade possa invadir-nos, penetrar-nos. É mister criar espaço onde a vida divina possa domiciliar-se na nossa alma. É o amor que faz nosso coração derreter-se, e liquefeito ele se esvazia e deixa derramar-se nele a santidade divina. Desocupa, também tu, o lugar para Deus encher o vazio. O amor faz cumprir os mandamentos do Pai, segundo Jo 15,9. E não apenas os dez, mas também os mínimos desejos e vontades.

A propósito, a pitoresca frase de Tauler, traduzida em bom português: “O teu tu está demais. Desocupa, dá lugar a Deus”.

Pois aí deve começar o trabalho ascético: criar espaço vazio para Deus entrar. E, mais uma vez, projeta-se o papel primordial do amor de Deus, na vida do cristão. O amor divino substitue-se pouco a pouco à vontade humana, ao afeto humano e às demais peças do inventário.

“Até que Cristo se forme em nós” (Gl 4.19). Até que se veja “Cristo em tudo e em todos” (Cl 3,11). E Cristo nos conduz ao Pai “para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,29).

Jesus dera a Sta. Gertrudes a graça da união mística e Deus Pai confirma: “Agora posso dizer de ti como no monte Tabor: Este é meu filho bem-amado em quem pus a minha complacência”.

Cristo enche com sua santidade toda a Igreja. “Nossas boas obras são dons de Deus e não produto do mero esforço humano… Porque somos obra sua, criados em Jesus Cristo para realizar obras boas que Deus preparou de antemão, segundo Ef 2,10 (VONIER, Nova e eterna aliança, 51)

“No cristianismo, toda a perfeição moral consiste na perfeita união do homem com Deus e, em Deus, com seu próximo. Realizada esta união, atingiu a perfeição. Cumprindo todos os deveres, mas negligenciando o amor de Deus, passamos vida inútil, estéril” (VONIER, 107)

“Toda a nossa vida moral deve ser fruto da árvore divina que é Cristo… uvas da videira divina (Jo 15,1). As boas obras da nossa vida cotidiana são operações formais do Corpo místico de Cristo” (Daí a necessidade da motivação sobrenatural. VONIER 190)

O mesmo vale para toda oração, não só para a liturgia.

Ela é um dom de Deus. É o Espírito Santo que reza na Igreja, no coração dos fiéis (Rm 8,26).

A graça não destrói a natureza. Não destrói a obra de Deus. Mas Jesus nos insinua como dela tirar o máximo proveito, usando-a como ele a usou na cruz.

“A graça não destrói a natureza, escreve Carré OP, mas muitas vezes esquece-se até que ponto ela a transforma, retifica, modifica, alarga, até achar-se à vontade”

No rosto de todos os santos, desde Sto. Inácio mártir até Vianey e Sta. Teresinha, “atrás de seus rostos sempre aparece, em filigrana, o mesmo rosto” (Carré).

Feliz a sentença de uma jovem carmelita: “Não desejo ser pobre, mas desejo ser Ele”.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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