1.Nossa santidade é Deus, sua vida divina. É a única santidade que interessa. Essa nossa vida, apesar de nos ser tão íntima, é mistério que só a revelação da Nova Aliança, o Filho Unigênito nos contou (Jo 1,18). Ele nos ofereceu um segundo nascimento (Jo 1,13), um renascimento do alto, pelo Espírito (Jo 3,3). A contrapartida é a árvore genealógica da humanidade adamítica carregando taras de milênios. Opte pelo renascimento, pelo enxerto da graça. Portanto, impossível conquistar essa santidade, à força de virtudes, Deus quer nô-la dar de presente, gratuitamente.

É só pedir com fé e perseverança (Tg 1,17; 4,6; Mt 7,7). É só jogar fora do coração tudo quanto ponha obstáculos à entrada de Deus.

2. Agir nesse nível superior. Agir como filhos de Deus. Porque “o homem natural não compreende o que é do Espírito de Deus. Julga-o como estultícia” (1Cor 2,14); enquanto o homem espiritual julga tudo segundo o Espírito de Deus (2,16). Quer nos parecer que todos os conflitos, divergências e problemas da humanidade se originam dessa diferença, desse ponto de vista divergente. Cristo é feito marco divisor. Uns querem continuar a linha adamítica.

Outros querem seguir o Homem Novo.

Um acordo, um compromisso, é impossível. Porque essa divergência de motivação tem sua repercussão em cada ato, em cada manifestação do espírito e da vida humana.

No entanto, deve valer a Escritura: “Com efeito, todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus” (Rm 8,14).

Quanto mais fiel for a alma à voz do Espírito de Deus, tanto mais ela se aproxima de Deus, até que se realize em verdade a palavra paulina: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

A vida divina é conhecer e amar. A graça santificante nos faz conhecer e amar a Deus. Conhecer, por enquanto, pela fé que não atinge seu objetivo diretamente, mas “representando-o” em si próprio. O amor, porém, lança-se fora de si, ao encontro do Amado: assim, pelo amor, atingimos Deus diretamente, desde agora.

E vale vice-versa. Um ser criado é bom na medida em que é amado por Deus, e isso porque, nosso amor por Deus participa do amor divino. É parte, parcela, faísca do Amor eterno. Este amor é atuante, operante, transformante.

Vem como um incêndio, como labaredas de fogo. As suas exigências na vida dos santos dão testemunho.

As ações de um filho de Deus têm o apreço e o agrado de Deus.

A teologia diz: tem um mérito. Duas pessoas que praticam a mesma virtude, por exemplo a de dar esmola, estando uma em estado de graça e a outra em estado de pecado, praticam duas ações bem diferentes; apenas a aparência externa é igual.

3. Princípio: Somos incapazes de adquirir essa santidade.

Seria enganar as almas deixá-las crer que somente a boa vontade e a energia bastam para torná-las santas.

A nossa concupiscência dura até o último suspiro, e está sempre alerta para combater, para recusar o nosso amor ao Infinito. Amar o infinito é para ela o absurdo. Só nos resta repetir o que Jesus nos ensinou: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,1ss); “Ninguém pode vir a Mim, se o Pai não o atrair” (Jo 6,44).

Nossa santificação é obra de Deus. A nossa colaboração não é à meia, nem à terça. Talvez seja um 0,0001; Deus sabe. Talvez, nossa única contribuição seja a de aceitar e deixar Deus agir em nós, à vontade. Talvez, seja tudo, fruto da oração: pedir e bater à porta (Mt 7,7). E tudo o mais, é dom e obra de Deus. Mistério da sabedoria eterna, da bondade imensa, da misericórdia sem limites do Amor infinito. Convém reconhecer que somos “nulidades”.

Convém concordar com o Cura d’Ars em nos figurarmos como um “zero” depois do número “um”. Só este dá valor.

Tendo o “um” na frente, é até vantagem possuir numerosas nulidades a acrescentar.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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