2. “INFÂNCIA ESPIRITUAL”

Esta nossa situação, no plano salvífico, denominou-se,“Infância Espiritual”, atribuindo-se o vocábulo a Sta.Teresinha. Mas o certo é que ela nunca usou esse termo; ele é de Madre Inês (mesmo na edição de Novíssima Verba), ele não é original. Teresinha fala de “seu método”, de “seu pequeno caminho”. Mas a mensagem doutrinal fica igual. Criança pequena, esforça-se em vão, com suas perninhas curtas, por subir a escada do céu. E todo seu esforço será inútil, até Cristo descer do alto da escada, tomá-la em seus braços e carregá-la até em cima. É o caso de todos. Não é apenas um dos vários métodos de
santificação. É válido para todos. É a impossibilidade metafísica.

Meses antes de morrer, a santa resumiu sua “mensagem” (NV 6-8-1897): “Permanecer pequeno é reconhecer o seu nada e esperar tudo de Deus. É não se afligir demais com as próprias faltas. Enfim, não pretender fazer fortuna (espiritual: acumular méritos). Não se inquietar por coisa alguma”.
“Mesmo na casa do pobre, a criança enquanto é pequena, recebe tudo o que necessita. Mas logo que chega
à maioridade, seu pai lhe diz: “agora, vai trabalhar; já podes cuidar de ti”. Precisamente a fim de jamais ouvir isto eu não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar minha vida, a vida eterna do céu. Permaneci sempre pequena, sem outra preocupação, que a de recolher flores de amor e de sacrifícios e oferecê-las a Deus para lhe dar prazer”.

“Ser pequeno, significa também, não atribuir a si mesmo as virtudes que se praticam, julgando-se capaz de
algo, mas sim reconhecer que Deus coloca este tesouro de virtudes na mão do filhinho, para dele se servir quando precisar. Mas o tesouro sempre pertence a Deus”.
 

“Ser pequeno, consiste, enfim, em não desanimar com as próprias faltas, pois as crianças caem muito; são
porém pequenas demais para se machucar”.

Resumindo o conteúdo teológico:
1. Somos incapazes de santificar-nos com os recursos naturais: boa vontade e esforço.

2. As virtudes que temos são dons de Deus e não conquista nossa.

3. Nem as nossas fraquezas, nem as nossas faltas nos devem desanimar, pois sabemos, e Jesus sabe melhor
que nós, que sem Ele, “não vai”. Mas sabemos também que a bondade, a liberalidade, a misericórdia de
Deus não tem limites; são infinitas com Ele mesmo. E assim, toda honra e toda glória cabe a Deus. Mentirosa a criatura que se julga algo. Autenticidade em tudo e honra a quem de direito.

Eis o segredo do sucesso espiritual. A essa criatura Deus pode dar de olhos fechados suas graças em profusão.
E Deus sente-se impelido a dar-se de todo, pela confiança, pela fé em seu amor e em sua bondade. É, como
foi dito, pegar a Deus pelo seu lado fraco, pelo carinho confiante. E o amor infinito faz descer sobre esta criatura um oceano que inunda e afoga. Afoga toda a nossa miséria.

Purifica toda a nossa impureza. Inflama o nosso coração.
Assim, “Deus é tudo em todos” ( 1Cor 15,29).
Sobre esta base do primado da graça de Deus devese construir a espiritualidade cristã. Daí sua definição geral de santidade: “Santidade não consiste em tal ou tal prática. Santidade consiste numa disposição de coração, que nos faz humildes e pequenos nos braços de Deus, conscientes de nossa fraqueza, mas confiantes até à audácia na sua bondade de Pai” (NV. 3-8-1897)
 

Não se trata de um quietismo barato, “de um dolce far niente” na vida espiritual. Não, explica a santa à Ir.
Genoveva (Celina): “É preciso fazer tudo o que está em nosso poder. Dar sem medida, renunciar-nos constantemente; numa palavra, provar nosso amor por todas as boas obras ao nosso alcance. Mas na verdade, como tudo isso é pouca coisa!… e quando tivermos feito tudo quanto cremos dever fazer, é necessário confessar que somos “servos inúteis” (Lc 17,10), esperando, entretanto, que Deus nos dê de graça tudo o que desejamos. Eis a esperança de todas as pequenas almas que “correm” na vida
da infância; digo que correm, e não que “repousam” (Conselhos 63)

Teologia das Realidades Celestes: padre João Beting CSsR

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