3. HUMILDADE

 

O que Sta. Teresinha ensinou, sob a figura alegórica da Infância Espiritual, “meu pequeno caminho”, ensina-o a teologia técnica no tratado da humildade.

Sua importância fundamental é inconteste entre os teólogos espirituais. E, dizem, será mister retornar sempre a este assunto, pois a humildade é o alicerce da perfeição e da santidade. A propósito o aviso chistoso de Sta. Teresa d’Ávila: “Se o nosso alicerce é fraco, Jesus então não poderá erguer um edifício muito alto; senão, dá tudo no chão” (Morada 7,4,8)

Há duas humildades. A primeira é psicológica e refere-se à nossa ambientação social. Não há razão alguma para a criatura humana fazer pouco caso de seu próximo, ou até mesmo desprezá-lo, por ter recebido dez talentos enquanto ele apenas dois. “Porque, quem é que distingue (declarando-te superior aos outros)? E que tens tu, que não recebeste? Mas, se o recebeste, porque te vanglorias como se o não tivesse recebido?” (1Cor 4,7). Se o homúnculo abusa dos talentos que recebeu emprestado para desprezar ou desestimar seu irmão, é o cúmulo do absurdo.

E todas as torneiras de graças do alto fecham-se automaticamente, segundo a parábola evangélica (Mt 18,32).

O segundo grau da humildade é o mais importante.

Queria chamá-lo de humildade ontológica. Ou com a palavra da moda: “existencial”. Refere-se à nossa situação perante Deus. Como chegar a Deus, nosso destino eterno?

Temos força e capacidade? A humildade existencial responde com um não. Humildade que é expressão da verdade, diz Sta. Teresa. Não, porque o destino sobrenatural, que a bondade de Deus nos deu, transcende as forças naturais de modo absoluto.

Também não por termos, na opinião de escolas teológicas, sofrido com pecado original um enfraquecimento e debilitação das forças naturais da vontade. Mas simplesmente pelo fato de sermos criaturas. Vale o mesmo para os anjos. A primeira opção por Deus e sua renovação durante os anos da vida humana, a quem cabe sua realização? A heresia responde: Deus marca, escolhe quem ele quer, e abandona os demais ao adversário. A Escritura diz que Deus quer a salvação de todos, sem exceção; que Deus inflige a condenação eterna, a contragosto, àqueles que não querem optar por ele. A responsabilidade final cabe, portanto, à criatura. E, portanto, ela tem força suficiente para realizar a opção por Deus. Se não a realiza, é porque não quer. É o mistério. Combinar duas verdades opostas e aparentemente contraditórias: a força do homem e sua miséria. Sua capacidade e sua insuficiência.

A teologia tentou explicar e entender o processo da nossa adesão a Deus. Não o conseguiu. Em Rm 9,11ss, o apóstolo Paulo tentou explicar a apostasia de Israel negando o Messias, e resume tudo em Rm 9,16.

Não depende de querer ou de correr, mas depende da misericórdia de Deus. Pode-se entender que o texto se refere à graça externa de pertencer ao povo eleito ou não.

Mas a opção individual por Deus, dependeria bem de correr também um pouco.

A solução é a humildade. Não temos forças suficientes para praticar o bem, principalmente a longo prazo, para aderir a Deus sempre e a todo o transe.

Temos, sim, “força” ilimitada para recusar, para dizer não, para não aceitar. Incapazes todavia de agir. Mas, afinal, temos forças de sobra ao nosso dispor: é só pedir o auxílio de Deus. E, como diz Sto. Afonso para consolo nosso: Deus dá a todos, em superabundância a graça da oração, a graça de pedir. “Pedi e recebereis”. É bem verdade: não adianta correr, mas adianta recorrer à misericórdia de Deus.

Possuir Deus na eternidade é dom da Misericórdia.

Deus quer nossas virtudes, nossa fé, nossa opção por Deus sempre renovada até morrer. Deus quer dar-nos tudo isto de presente, de graça: é só pedir. Humilhar-se, reconhecer a fraqueza e pedir, rezar.

A solução do mistério está, portanto, em Mt 7,7-10. e em Jo 14;16,23. Está na humildade de coração.

Para terminar, o testemunho carismático.

“A pobrezinha (da alma), por muito que se esforce, não consegue fazer tudo como quisera. Nada pode sem que lhe dêem. E sua maior riqueza é ficar cada vez mais devedora, quanto mais serve a Deus. Quisera amortizar um pouco a sua dívida. Mas, façamos todo o possível.

Não temos a oferecer senão o que recebemos. Resta reconhecer nosso nada, e fazer o que está em nossas mãos: dar a nossa vontade… Só tem algum poder a humildade, não a adquirida pelo entendimento, mas a infusa por Deus” (STA. TERESA, Caminho, 32,13)

Passando por forte prova de aridez, aparece-lhe Jesus:

“Estou sempre aqui perto. Mas quis que tu visses o pouco que vales sem mim” (Relationes (BAC) 26).

“Uma vez, estava considerando qual seria a razão de Nosso Senhor ser tão amigo desta virtude da humildade.

E veio-me, de repente, esta resposta: Deus é a Verdade suma, e ser humilde é andar na verdade. Por nós mesmos não temos bem algum. Somos miséria e nada.

Quem não compreende isto, anda na mentira” (Moradas 6,10,7)

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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