4. AMOR DE DEUS

PREFÁCIOS

Seguem-se três realidades celestes do alto do céu, mas que brotam no chão desta terra. Três pérolas do Reino de Deus, brancas e rosadas: amor de Deus, prece e dor.

1. “Como meu Pai me amou, assim eu vos amei.

Permanecei no meu amor! Guardando meus mandamentos, permanecereis no meu amor. Como eu permaneço no amor do Pai, guardando seus mandamentos” (Jo 15,9).

2. “Sabeis, meu Deus, que não desejei jamais, senão, amar-vos. Não ambiciono outra glória. Vosso amor me acompanha desde a infância” (STA. TERESINHA, MSCR322).

 3. Eterno amor de Cristo. “A primeira condição para vencer a atual crise na Igreja, é o amor por Jesus Cristo.

É esse amor que “faz” o cristão. E ele não muda. Conforme os séculos e segundo os indivíduos, o amor se reveste de várias formas e muda de matizes, mas nunca poderá faltar. Ora, hoje em dia ele é atacado; é declarado caduco, ilusório ou ridicularizado… A propósito: “Quem não ama o Senhor Jesus Cristo, seja anátema” (1Cor 16,22)…

Opor o amor do próximo ao amor de Cristo, que é a sua fonte, é um puro engano, como não cessam de provar os exemplos daqueles que há vinte séculos se abeberaram neste fonte… Como ainda ontem um Charles de Foucauld e um Júlio Monchamin e quantos outros. Enfim, para julgar o que é ou não é verdadeiro cristianismo, prefiro sempre, ainda ater-me aos santos, que vivem hoje como outrora.. não aos filósofos que o pretendem ultrapassar” (HENRI DE LUBAC, SJ, NRT 1969, 592)

 

A melodia misteriosa

Foi um desses trovadores, desses músicos andarilhos da epopéia romântica, que se meteu na cabeça querer tocar com seu violino a mais bela melodia que há neste mundo de Deus. E ele foi ter com os passarinhos da mata, escutando e imitando seu gorjeio. E as cordas do violino vibraram como canários, pintassilgos, sabiás, um chilrear estonteante, feliz.

Mas o músico não se sentia satisfeito. E pôs-se a escutar o vento e sua canção. Ora, o zéfiro suave agitando-se na folhagem verde ou sussurrando nas ondulações do trigal dourado. Ora o fragor do vendaval vergando, torcendo e fazendo gemer a floresta.

E foi um concerto, uma orquestra, como som de órgãos escondidos na penumbra verde… Mas o artista, ainda insatisfeito; faltava algo… E lá se foi a imitar, em sons e música, o marulho das águas, o rumorejar do regato serpenteando sonolento pela campina. Ou o bramido da cascata, lançando-se através das gargantas da serra para o abismo. Ou, enfim, o rugir das vagas do mar em revolta.

Que sinfonia a empolgar o coração humano. E ainda o maestro a sentir saudade daquela melodia misteriosa que estava procurando em vão.

Finalmente foi ter com os seres humanos a tocar todas aquelas melodias, alegres ou tristes, que fazem vibrar o coração humano, canções de dança e de festa de casamento ou graves corais de igreja. E, de vez em quando, sentiu algumas notas a vibrar e feri-lo… pedacinhos de melodia misteriosa… mas foi um só rápido compasso que passou.

E de tanto cismar e sonhar ficou velho, grisalho, e estava a morrer sozinho, como sempre passara a vida toda, na solidão de sua arte e de seu mistério.

Deitado sobre pobre enxerga, ouviu de repente uma melodia na sua mente, e soube que era enfim a melodia misteriosa, a mais bela que há. E, com mãos trêmulas, pegou do violino, e pela primeira e última vez tocou a sua canção. A sua. Conseguiu tocar até o compasso final. Então a corda arrebentou-se, como que emocionada pelos sons e vibrações misteriosas. E o músico andarilho morreu.

Chegara à meta final.

Desde os albores da vida humana sussurra uma voz, uma melodia na cabecinha encrespada e cismadora. O pequeno coração fica horas a sonhar, a escutar, e tenta juntar as notas. Idade feliz dos sonhos e ideais Oxalá durasse para sempre. Com o correr dos anos, muitos desistem desanimados, desiludidos. Mas fica-lhes, no íntimo da alma, esse fundo musical de nostalgia, de saudade, saudade de algo “diferente”, a melodia misteriosa a flutuar no ar.

Deus pôs, em cada coração humano, uma melodia misteriosa para cantar. E temos uma vida toda para ensaiar, para descobrir a nossa melodia, eco longínquo do paraíso que se foi, eco distante do paraíso por vir. Saudade de algo indefinido, misterioso, grande, belo, ideal. E essa melodia acompanha-nos por toda parte, por todos os anos, soando, ora suave como harpa, ora forte e fortíssimo na orquestra, conforme o compasso. A nossa tarefa é acertar o tom. A nossa tarefa é aprender essa melodia, a fim de entrarmos harmoniosamente, não em dissonância, no coral da comunidade humana. A fim de podermos cantar a nossa parte, um dia, no conjunto do céu, na grandiosa sinfonia mundial, perante o trono de Deus.

Já conhece a sua melodia? A sua canção? Já sabe cantá-la? Ou ao menos solfejá-la? Cada um tem a sua própria melodia, que lhe cabe descobrir. Descobrir, não nos cinco minutos antes de morrer.

Por isso, haja ensaio de canto, todos os dias. De madrugada com os passarinhos. Na prece matinal. Peça a um anjo que lhe ensine a cantar a melodia, bem afinada.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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