O GRANDE MANDAMENTO

 

Foi Ele o primeiro a amar-nos (1Jo 4,19). E desde toda a eternidade (Jr 31,3). Criou a fim de derramar nas criaturas sua própria felicidade. Derramar nas almas seu amor incontido, infinito. Daí o grande preceito que incumbe à humanidade qual servidão inata, herdada: amar a Deus.

 

Antiga Aliança

Aliás, o preceito é antigo. Já é da Antiga Lei (Dt 6,5).

E no Novo Testamento, Jesus o repete na mesma formulação tão expressiva: “Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, com todas as forças, com todo o espírito”.

A repetição mostra que Deus quer amor total. Base e razão: é o absoluto, é o Ser Absoluto… “Eu sou aquele que existe, e tu és aquele que não existe.” Amamos a Deus por ser Deus, o Ser infinito? e porque, tudo o mais, fora dele, não passa de sombra? É o mandamento principal da Revelação. Ele não deixa dúvida sobre a sua extensão.

Judeu, cristão e pagão devem cumpri-lo. “Escuta, ó Israel: o Senhor teu Deus é o único Deus. Tu o amarás de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças”.

 

Nova aliança

 

 O N.T. aperta mais os laços de amor que unem Deus e as criaturas. Manda amar a Deus como autor da vida sobrenatural. Deus comunicou-nos e fez-nos participar da sua vida íntima, da vida das Três Pessoas da Santíssima Trindade. Não somos mais servos, mas amigos (Jo 15,15), filhos da casa. Fez-nos partícipes da sabedoria eterna. Infundiu-nos o amor infinito do Espírito Santo.

Mandou seu próprio Filho, a fim de que tenhamos a vida eterna (Jo 3,16), a vida de Deus.

Paulo tem razão ao falar de um excesso de amor (Ef 2,4) com que Deus nos ama. Chega a falar de loucura, estultícia, pensando na morte de Jesus na Cruz, como condição prévia para podermos participar da vida eterna (1Cor 1,18): “A palavra da cruz é estultícia para os que se perdem, mas para os remidos, para nós, é poder de Deus e sabedoria celestial”. O amor transborda. O amor infinito transbordou, terra adentro, invadindo a história humana…

E qual é a nossa resposta a esse Deus amoroso?

Se todo o mundo amasse a Deus, que paraíso na terra! Mas quão pequeno o número de santos, santos anônimos: multiplique-os por cem, por mil. De outro lado, sobra uma multidão de bilhões, de trilhões de indiferentes ou ateus, ou meio-devotos, a amar a Deus com grande moderação e comedimento.

 A medida de amar a Deus é amá-lo sem medida (São Bernardo). Eis a vontade de Deus a nosso respeito, enquanto andamos nesta terra no clarão bruxuleante da fé. Depois, na luz de Deus, veremos pessoalmente que Deus é o único amor possível no universo. Veremos, não precisaremos mais de provas para nos convencer.

Moisés ficou durante quarenta dias diante da face de Deus. Retornou depois para junto dos homens. Mas o seu rosto tornara-se radioso. Os israelitas pediram que velasse o rosto. É que não podemos olhar para o sol, sem que a vista nos doa.

 Sta. Teresa d’Ávila viu a Deus, e depois sentia tal aversão a se ocupar com as coisas da terra que padeceu real martírio.

Sto. Tomás de Aquino estava escrevendo o último volume da Suma Teológica. Acontece que vê a Deus numa visão, e não escreve mais nenhuma linha sequer, apesar da insistência dos confrades para terminar a grandiosa obra. “Não; é só palha, perante a realidade”.

São Paulo subiu até o terceiro céu. Viu o que o olhar humano jamais viu . Sentiu o que o coração humano jamais sentiu; impossível narrar o inefável.

Ver a Deus neste mundo mata, diz um provérbio popular do A.T. A saudade que a alma sente de Deus fá-la arrancar-se para fora do corpo. O corpo desfalece, esfria como cadáver. E quando a alma retorna ao corpo, sentese como numa prisão, ansiosa por voltar ao céu.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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