6. Diz São Francisco de Sales: “Todas as virtudes juntas, sem o amor divino, não passam de um montão de pedregulho… A balança de Deus, tem outro calibrador.

Uma pequena obra feita com um grande amor pesa mais que uma grande obra feita com pouco amor”.

Ainda de uma forma mais rude: Tamerlan é o chefe inconteste dos tártaros. Um camponês, indica-lhe um tesouro no campo. “As moedas levam meu retrato?” “Não, mas o ouro é legítimo”. “Sem meu retrato não tem valor”.

Arrogância infantil. Mas assim é perante Deus, valor infinito e único: somente as obras carimbadas pelo amor têm valor.

Duas irmãs são religiosas no mesmo convento. Morre a mais nova a 15 e outubro, e no dia 2 de novembro aparece: “Já estou no céu. Mas não subi muito alto, porque não pratiquei muito o amor de Deus. Fiz meus deveres cotidianos mais por dever ou por hábito. Só o amor por Jesus é que vale, recebe o prêmio.”

Segue-se daí: a perfeição espiritual, a santidade cristã identifica-se com o amor a Deus. Por isto Sta. Teresinha pôde dizer: “Desejais um meio para conseguir a perfeição?

Só conheço um: amar”. A santidade não é um conjunto de virtudes, nem de atos de culto e de piedade externa e interna, nem de austeridades e penitências.

Nem a vida do deserto. Nem a morte de martírio. Nem mesmo a contemplação, como ato do intelecto. Tudo isto entra na contagem enquanto é expressão do amor a transbordar em nós. Nem mesmo os três conselhos evangélicos.

São meios, instrumentos para fomentar o império do amor de Deus. Nem mesmo a mais ilibada virgindade conta perante Deus sem o amor. A glória do céu, a visão beatífica não dependem da virgindade, mas do grau de amor.

Diz a revelação que o amor é o caminho mais excelente para se chegar a Deus (1Cor 13). Jesus Cristo afirmou que o amor de Deus é o grande mandamento e que “resume toda a Lei de Moisés e os profetas”, isto é, é a  quintessência da Revelação.

São Paulo acentua: “A finalidade da exortação é o amor em coração puro” (1Tm 1,5). Ele é o vínculo da perfeição (Cl 3,14).

A própria fé recebe dele sua eficiência (Gl 5,6). Sem ele as virtudes nada são (1Cor 13).

São João remata: “O amor é de Deus… e Deus é amor” (1Jo 4,7.8).

E qual é o papel das outras virtudes em relação com a perfeição? A moral cristã não é um conjunto de prescrições virtuosas, um código de boa conduta cívica. Santidade é amor de Deus. As virtudes são subestruturadas.

Como a vida vegetal e animal do ser humano é dirigida e absorvida pela vida intelectual, própria do homem, assim as virtudes morais devem ser movidas pelo amor de Deus. E nenhuma delas entra na glória do céu: somente o amor de Deus. Razão: nosso destino sobrenatural de filhos de Deus.

Fé e esperança abrem caminho. E na porta do céu somem. As virtudes morais: justiça, fortaleza, temperança e afins, entram no quadro da santidade cristã:

a) Como deveres de estado, diferentes de pessoa para pessoa. Supõem, de cada vez, um quadro especial

de deveres e virtudes. Foulcauld, eremita entre os tuareg, tinha outro conjunto de virtudes a cultivar que seu contemporâneo São Pio X.

b) Entram como partes integrantes aquelas virtudes morais que facilitam, fomentam, aperfeiçoam a prática do amor de Deus, como por exemplo: a humildade, a oração.

c) A caridade para com o próximo, praticada por amor a Deus e não por filantropia, destaca-se de um modo peculiar nas duas categorias acima indicadas. Além disso é ela, tanto para Deus como para nós e perante o mundo, o teste, o campo de provas de amor divino. Dos frutos do amor concluímos que ele ficou não só no afetivo, mas é efetivo e autêntico. E ainda mais: o amor do próximo entra no quadro do amor de Deus, porque no próximo amamos Cristo, de quem é parcela.

A título de ilustração, duas anedotas hagiográficas:

São José de Cupertino foi consultado a respeito de uma religiosa de São Cesário, com fama de santidade. Respondeu:

“Sim, vocês têm lá uma santa verdadeira. Uma pobre viúva que luta penosamente para vencer na vida com suas filhas, e que faz tudo por amor a Deus.

São Macário ficou sabendo, por uma visão, que em Alexandria moravam duas senhoras mais santas do que ele. Foi lá para aprender. Eram duas pessoas simples que, havia quinze anos, viviam na mesma casa, em contínua concórdia, e agindo sempre por amor.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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