VÍTIMAS DO AMOR

“Agora, não tenho mais nenhum desejo, a não ser, o de amar Jesus até à loucura” (Sta. Teresinha)

 Pertence a este capítulo o oferecimento de Sta. Teresinha como vítima do amor de Deus, e sua súplica a Jesus para suscitar “uma legião de pequenas vítimas dignas de seu amor”. Ela mesma explica-nos a idéia: “Pensava nas almas que se oferecem como vítimas à justiça de Deus, a fim de desviar e atrair sobre si os castigos reservados aos culpados.

 Esse oferecimento parecia-me grande e generoso, mas sentia-me longe de ser levada a fazê-lo. Ó meu Deus, exclamei no fundo do meu coração: não haverá senão vossa justiça a receber almas imolando-se como vítimas? Vosso amor misericordioso não precisa delas também? De todas as partes ele é desconhecido, rejeitado.

 Os corações, aos quais desejais prodigalizálo, voltam-se para as criaturas, mendigando-lhes a felicidade com sua mísera afeição, em vez de se lançarem em vossos braços, aceitando vosso amor infinito. Ó meu Deus! Vosso amor desprezado ficará em vosso coração?

Parece-me que, se encontrásseis almas oferecendo-se como vítimas de holocausto ao vosso amor, consumi-las-íeis rapidamente. Parece-me que vos sentiríeis feliz por não comprimir as ondas de ternura infinita que estão em Vós.

 Se vossa justiça compraz-se em se desarmar, ela que se estende só sobre a terra, quanto mais vosso amor misericordioso desejaria abrasar as almas; pois a vossa misericórdia eleva-se até aos céus.

Ó meu Jesus, seja eu esta feliz vítima. Consumi vosso holocausto no fogo de vosso divino amor” (Manuscrito A 226 s)

Feito o oferecimento, escreve: “Rios, ou antes, oceanos de graças vieram inundar minha alma. Desde este dia feliz, parece-me que o Amor me penetra e me envolve.

A cada instante, este amor misericordioso renova-me e purifica-me. O fogo do amor é mais santificante que o purgatório… Quanto deseja fazer sempre a vontade de Deus” (Vida 227).

Teresinha fez propaganda. Celina faz, juntamente com ela. Maria do Sagrado Coração, franca como sempre, recusa: “Mas certamente que não! O bom Deus toma a gente pela palavra, e o sofrimento me dá medo demais.

Aliás, a palavra “vítima”, me desagrada muito”. Teresinha defende-se: “Não é para pedir sofrimento; é para amar mais a Deus, por aqueles que não querem”.

 “Ela foi tão eloqüente, que me deixei conquistar e não me arrependo”, declarou Maria, em 1940, ano de sua morte (Conselhos 82).

As vítimas do amor divino têm em comum com as vítimas de expiação e de desagravo, pelos pecadores, somente o nome. Ambas são holocaustos queimados; umas, no fogo da dor amorosa; outros, no fogo do amor doloroso

. São diferentes na finalidade e nos meios. A vítima de expiação só quer resgatar pecadores, oferecer-se a sofrer por eles. A vítima do amor de Deus oferece-se para receber em seu coração todo aquele amor divino que foi rejeitado e ficou “represado” no coração de Deus.

 A vítima oferece-se para Deus “desabafar”, desagravar todo este amor retido. Seu meio é a entrega total à vontade divina. “A palavra vítima era a única a se empregar na circunstância

. Porque é um tormento para o pequeno copinho, para o dedal, ver o oceano precipitar-se sobre sua pequenez, para enchê-la de amor infinito. Mas é delicioso tormento, ó martírio inefável” (Conselhos 228)

Sta. Teresinha foi vítima nos dois modos. Pouco depois de sua oferta amorosa, desceram sobre ela as trevas, a provação dolorosa, moral e física. “Sentou-se à mesa dos pecadores”, padecendo a noite da falta de fé até a morte, acompanhada no último ano pelas dores físicas da tuberculose óssea.

Nunca pediu sofrimentos. Almas pequenas não fazem isso. Pouco antes de morrer, ainda diz: “Felizmente, não pedi o sofrimento, pois se o tivesse pedido, o sofrimento seria meu. E eu tenho medo de não poder suportá-lo” (Conselho 220)

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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