Mas naturalmente aceitou “com prazer” tudo quanto Deus lhe enviou, consolo ou desconsolo. Desde os catorze anos, reza pelos pecadores. Com redobrado fervor, quando carmelita. E se Deus acha que o resgate dos pecadores requer expiação dolorosa, a resposta de Teresinha é o “sim”.

 Alguém lhe diz na última doença: “É horroroso o que estás sofrendo. Responde: “Não, não é horroroso. Uma pequena vítima não pode achar horroroso o que seu esposo envia” (NV 26-IX)

No dia de sua morte, confessa: “Nunca teria julgado fosse possível sofrer tanto. Jamais, jamais. Só posso explicá-lo pelos desejos ardentes que tive de salvar almas” (NV 30-IX)

As vítimas do amor sofrem também: mas de um modo bem diverso (A legião das almas pequeninas não precisam amar o sofrimento; basta suportá-lo).

 O texto do oferecimento indica-o bem no tópico central: “A fim de viver num ato de perfeito amor, ofereço-me como vitima de holocausto a vosso amor, ofereço-me como vítima de holocausto a vosso amor misericordioso, suplicando-vos me consumais sem cessar, deixando transbordar em minha alma, ondas de ternura infinita que estão encerradas em vós e que assim eu me torne mártir de vosso amor, ó meu Deus”.

Esse martírio de amor é um fenômeno bem conhecidos da teologia mística. Deus faz ver à alma o amor infinito que ele merece e a incapacidade da criatura finita de amar um Deus infinito a contento. Este contraste, este abismo causa uma ânsia, um mal-estar, real tortura.

 Paralelo ou idêntico é o fenômeno das “feridas de amor” descritas por Sta. Teresa (Vida, 29; Moradas, 6); e por São João da Cruz, (Cântico e Chama de amor).

Ruysbroeck escreve: “A ferida do amor é o que há de mais terrível”. Celina comenta o pensamento de Sta. Teresinha citando suas palavras: “O que satisfaz o amor é abaixar-se até o nada, a fim de transformar este nada em fogo” (Vida, 248)

Este oferecimento teresiano ao amor de Deus não visa reparar culpas ou expiar ofensas a Deus, mas convida Deus a desabafar e derramar seu incontido, infinito amor nos corações humanos. A resposta de Deus não tardou. Três dias depois, recitando a Via-Sacra, “fui presa de repente por tão violento amor de Deus! Era como se estivesse mergulhada toda inteira em fogo.

 Que fogo e que doçura ao mesmo tempo! Eu ardia de amor e sentia que um minuto, um segundo a mais, não poderia suportar o ardor sem morrer. Compreendi então o que os santos dizem destes estados que experimentaram tantas vezes.

Para mim foi só uma vez e só por um instante: pois recaí logo na minha aridez habitual” (NV VII)

Resposta de Deus a esta oblação foi a graça da intuição de sua vocação, de sua missão espiritual descrita em Vida elevação vertical; profundíssimas pela intuição das graças do Reino de Deus. Citamos os textos mais marcantes:

“Hoje é o sexto aniversário de nossa união (profissão).

Ser tua esposa, ó Jesus, ser carmelita, ser mãe das almas, isto deveria bastar-me. Mas não é assim. Estes três privilégios: carmelita, esposa, mãe, são sem dúvida minha vocação. Entretanto, sinto em mim ainda outras vocações. Sinto-me com a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de doutor, de mártir. Enfim, sinto a necessidade, o desejo de realizar por Ti, ó Jesus, todas as obras mais heróicas.”

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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