Em Cristo

Amor ao próximo. É mandamento antigo. Já figura no código mosaico (Lv 19; Dt 6).

Mas Jesus deu-lhe novo vigor, uma nova motivação.

Na perspectiva ascética, espiritual, é mister acentuar que a perfeição, a santidade, consiste basicamente na união de cada um com o Cristo místico, na intensidade desta ligação de cada indivíduo com o Cristo-cabeça. Neste organismo circula a seiva vital, e é transmitida a cada um diretamente por Jesus-Homem. Assim, no nível ontológico.

Membros doentes não transmitem o vírus do contágio neste nível teológico, mas só na linha externa, moral. Mas no foco central deste organismo místico arde em labaredas o amor de Jesus por todos os seus irmãos. Por todos morreu. A todos quer salvos e santos. Nesta perspectiva cristológica une-se a nós com um novo laço. Ele não é somente criatura do mesmo Pai; Ele, tornou-se pelo Batismo, parte de nós, parcela do Corpo Místico. E aí entra em função outro ordenamento de Jesus, que vai bem além do “Lava-pés”: “Este é meu novo mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). A caridade fraterna de Jesus é medida, modelo e motivo da nossa caridade fraterna. Como Jesus, por sua vez, imita o amor do Pai.

Todos têm um lugar, afeição e carinho no coração de Deus. Tenham-no, também no nosso. Deus quer que partilhemos deste seu amor pelas suas criaturas. Quer que façamos todo o empenho a fim de impedir que elas recusem o amor de Deus. Amor que quer abraçar eternamente todos os seus filhos, bons ou pródigos… É este o valor do ser humano: sua capacidade de ser amado por Deus. É o que a criatura tem de “amável” aos olhos de Deus. É o que possuímos em valores reais para sermos amados; tudo o mais é de somenos importância.

 
Trampolim

 “O mundo de hoje protesta: não quer ser trampolim para o cristão ganhar o céu. Não quer ser uma ocasião para amar a Deus, um pretexto para o amor a Deus e um degrau para nos elevar até Deus. Parece evidente que assim o homem não é amado por si mesmo, no seu valor concreto. Quer dizer, que não é amado absolutamente” (SALET, 138).Mas é difícil a Lua suplantar o Sol. Sua luz é emprestada do sol. Mas outro valor o homem não possui que ser filho de Deus, ou ter a possibilidade de vir a sê-lo.

Com exatidão e nitidez expressa-se o teólogo: “A razão de amar o próximo é Deus; pois, o que devemos amar no próximo é que ele esteja em Deus” (II 25,1); “Deus é amado em razão da bem-aventurança eterna; e o próximo como participante conosco” (II II 26,2). É a doutrina que encontramos na Escritura do N.T.

Escalas
Numa fase preliminar, a caridade induz a dar abundantes esmolas, a fim de granjear com esta riqueza material, tentação perene de injustiças, bons amigos no além, que nos acolham em suas casas. Trata-se, pois, de comprar casa no céu. A esmola é pagamento, a prestações, do loteamento. Quem não tem dinheiro supérfluo para dar esmola, dê caridade-bondade (Mt 7,1).

Creio que devemos ver na parábola de Lc 16 mais que um bom chiste.

Numa linha superior, São Tiago (5,20) salienta uma recompensa especial para quem trabalha pela conversão dos pecadores: o perdão dos próprios pecados.

No sermão da montanha, lemos: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).

Mas tudo isto é trampolim; pertence ao campo da virtude moral humana. Não é a virtude teologal. Ainda não é a irmã gêmea da caridade divina. Devemos subir mais alto. No “Lava-pés”, encontramos exemplo e doutrina:

“Dou-vos um novo mandamento: Que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13,34). E Jesus não se contentou em lavar os pés de seus discípulos. O amor de Jesus é medida, modelo e motivo, razão de ser do nosso amor pelo próximo. No A.T., a medida da caridade para com o próximo foi a amá-lo como a si mesmo. No Reino de Deus, a medida é o amor de Jesus, que morreu na cruz por amor do próximo. Jesus mesmo declarou que é o maior amor que se pode ter para com o outro (Jo 15,13).

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR