Frei Lourenço, soldado, eremita, carmelita, morto em 1693, afirma que ao dirigir sua numerosa equipe auxiliar na cozinha conventual de Paris, fica mais recolhido do que na meditação na capela. Ficamos admirados ao ouvir tal coisa. Mas isso, também está acima do natural.

Disse Sta. Teresinha: “Li, há tempo, que os israelitas construíram as muralhas de Jerusalém trabalhando com uma mão e segurando na outra a espada. É bem a imagem do que devemos fazer: trabalhar só com uma mão e com a outra, defender a alma da dissipação que a impede de se unir a Deus” (Conselhos 88)

E, logo mais, a confidência à Celina: “Creio que nunca fiquei três minutos sem pensar em Deus”. “Mostrei-me admirada por ser possível uma tal aplicação”. “Pensa-se naturalmente em quem se ama, replicou” (Conselhos 90)

Por numerosas vezes repetimos que santidade cristã não é força de vontade, treino, método, mas dom, fruto da prece. Aqui, tocamos num ponto onde Deus espera que façamos uma forcinha, no exercício da presença de Deus; não precisa ser ininterrupto, mas freqüente. Com uma insistência suave e perseverante. Creio que é o caminho.

Se quiser, pode-se dizer que é um atalho para subir a montanha. Creio que Deus espera por essa nossa cooperação.

Pois é o amor.

Outro exercício ascético que deve complementar o primeiro: o desapego. Indiferença, diz Sto. Inácio. “Distaco”, Sto. Afonso. Abandono, a escola francesa. Desapego, a escola carmelita. Renunciar a todas as satisfações, visando em tudo só a vontade de Deus, e exclusivamente o seu gosto e contentamento. Não, a nossa vida não pode desmentir o pensamento-amor. E neste exercício não precisamos ser suaves, mas rudes até, porque se trata do nosso amor próprio, não dos nervos. Não rebenta nada.

Pode puxar.

Haja, pois, em nossa vida nada de inútil para a vida eterna; nada de inútil para o reino. Nada para contentar nosso gostinho, mas só para satisfazer os gostos e interesses de Jesus. Alegrar-nos, entristecer-nos só por coisas que alegram, entristecem a Deus. Dupla é a tarefa: apegar-se a Deus pelo pensamento-amor. E desapegar-te de si e demais criaturas.

Por sua importância, voltaremos ao assunto.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR