A partir do século XI, as ordens contemplativas tomaram consciência de sua missão de orantes, escreve Vandenbroucke. Quer dizer: desse tempo abundam as notícias, mas das épocas anteriores falta documentação.

O elemento formal da vida do monge é a prece. Prece pelo reino. Prece pelos inimigos de Deus. Enfim, há o ro teiro de praxe para a oração, indicado no Pai-nosso. A austeridade da regra, considerada pelo monacato ocidental como martírio vitalício, a fogo lento, é complemento e sobremesa.

Aliás, os monges e a cristandade antiga nada perderam ao fixar, de preferência, como meta aquela oraçãode-fogo (do amor), que Cassiano preconiza como meta final do monaquismo. Dom e dádiva de Deus, diz ele, e a descrição quadra perfeitamente com o que hoje chamamos de contemplação mística. Ora, este amor abrange também os demais membros do Cristo místico, transmitindo seu calor aos frios e mornos. São João da Cruz fala deste amor de fogo e de seu imenso valor na Igreja, no Cântico 29. Antigos e modernos encontram-se.

Vem a propósito uma frase de São Tomás, raramente citada: “Quem vive na caridade, tem parte em todas as boas obras que se fazem no mundo inteiro” (Expositio in10).

Symbolum

Ainda da Idade Média uma página luminosa de Tauler:

“Todos os bons cristãos são co-redentores, pois rezam pela Igreja e sofrem as calamidades públicas e as doenças pessoais por amor de Deus. Mas de um modo insigne, colaboram os “amigos de Deus”. Deus se apraz tanto neles… Meus filhos, se não tivéssemos estes homens, estaríamos em má situação. Sobre eles apoia-se a santa Igreja. E se eles não existissem na cristandade, a cristandade não sobreviveria nem uma hora. A sua simples existência é mais preciosa e mais útil que toda a atividade do mundo. São vasos transbordantes que oferecem tudo pela Igreja”.

 Um contemporâneo anônimo, inglês, místico de profunda espiritualidade, escreve sobre a prece do monge e eremita: “Os demônios se enfurecem quando te aplicas à oração e fazem todos os esforços para impedi-la… Os homens, que vivem ainda na terra, tiram dela grande proveito, embora não saibas como. Sua força alivia as almas do purgatório em sua padecimento. E, quanto a ti, nenhum outro exercício contribui tanto para purificar-te e tornar-te virtuoso” (Nuvem da ignorância)

Sta. Teresa d’Ávila afirma que suas carmelitas contemplativas são os anjos de Deus na terra, assim como os anjos no céu constituem a corte de louvor a Deus. Como nos diz o Concílio (PC 7): “Os contemplativos oferecem a Deus o exímio sacrifício de louvor”. Depois Sta. Teresa acentua e ressalta que a finalidade de seus mosteiros é a de rezar pela Igreja, rezar pela conversão dos hereges e rezar pelos sacerdotes. “Parte-me o coração ver como se perdem tantas almas… Ó irmãs minhas, ajudai-me a suplicar ao Senhor que elas se salvem, pois para este fim vos chamou ele aqui. Esta é a vossa vocação. Estes devem ser vossos negócios. Estes os vossos desejos. Aqui se empreguem vossas lágrimas. Estas sejam vossas petições, e não as súplicas pelos negócios do mundo… Aflijo-me por ver as coisas que nos pedem… rendas, dinheiro…

O mundo está pegando fogo: querem condenar novamente a Cristo e lançar por terra sua Igreja… Irmãs, não é tempo de tratar com Deus negócios de pouca importância” (Caminho 1,5)

 Teologia das Realidades celestes: Padre João Beting CSsR

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