Archive for outubro, 2010


São Paulo

São Paulo entra nas pegadas do Mestre e explicanos:

1. Devemos viver a vida integral de Jesus Cristo (Gl 2,20): “Eu não vivo mais, vive em mim Cristo… com ele estou cravado na cruz”.

2. O cristão é membro vivo de Jesus Cristo, nele enxertado pelo batismo. Pois fomos batizados, isto é, mergulhados na sua morte (Rm 6,3). O batismo destina-nos à mesma sorte de Cristo. “O batismo é uma graça de martírio” (Eudes)

3. E isto até o fim. Como nos diz a fé pascal: “A morte de Cristo matou tão bem o pecado que o verdadeiro cristão deve crer, com a mesma força, tanto na ressurreição de Cristo como na sua própria libertação do pecado e ressurreição futura” (Combes)

4. Co-herdeiros que somos de Cristo, herdamos também o sofrimento. “Sofremos juntos e juntos seremos glorificados” (Rm 8,17). Mas é um sofrer que não se compara com a glória futura (Rm 8,18). Podemos gemer à vontade, mas na absoluta esperança da libertação (Rm 8,20).

5. E vivemos na esperança. Ainda não na plenitude. Segundo o modelo do apóstolo: “Atribulados, mas não em desespero; perseguidos e oprimidos, mas não aniquilados… A cada instante entregues à morte para que a vida de Jesus se faça patente também em nosso corpo mortal… O sofrimento é um tesouro que produz em nós um peso de eterna glória” (2 Cor 4, 7-18).

Loucura

É de São Bernardo a palavra. Mas já era praticada na Igreja de Cristo desde as origens. Pudera! Jesus deu o exemplo. Entrando no mundo já se ofereceu, logo de entrada, à cruz (Hb 9,13). E com ardor, como lemos em Lc 22,15: “Ansiosamente desejei comer esta ceia pascal antes de sofrer”.

São Pedro anima os fiéis: “Sendo que Cristo padeceu segundo a carne armai-vos também vós, do mesmo pensamento” (1Pd 4,1).

São Paulo, amante da cruz de Cristo, exclama: “Folgo de sofrer” (Cl 1,24). “Tenho prazer na minha fraqueza, nos ultrajes, privações, perseguições e angústias por amor a Cristo; porque quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10).

Completa a Imitação (3,56) a frase do apóstolo: “Não carregamos a cruz sozinhos; Jesus fica ao lado como nosso Cireneu”.

E ainda São Francisco de Sales: “O Calvário é a montanha dos amantes. Todo amor que não toma sua origem na paixão de Nosso Senhor é fútil e perigoso”.

Teologia das Realidades Celestes

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Mensagem Doutrinal
 A seguir, a mensagem doutrinal (cf. Combes, Dieu et souffrance, 1961, pág. 52-65) 

 

 1. O essencial no cristianismo é seguir a Cristo. Ora, ele nos garante: quem quer seguir após mim, deve tomar a cruz e renunciar a tudo. Leia: Jo 12,24; Mt 16,24; Lc 14,25.2. E Jesus se explica: se o grão de trigo não morrer na terra, não dará fruto (Jo 12,14). Quem ama a sua vida aqui na terra, vai perdê-la. Sofrimento é condição de fecundidade sobrenatural. Sofrer e morrer na seqüela de Cristo significa trazer como Ele, e com Ele, muito fruto.

3. Jesus se explica em Mt 5,10: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição pelo reino”. É a única bemaventurança repetida e ampliada em dupla via, e rematada por um júbilo incontido: pois alegrai-vos, vosso prêmio será grandioso. Ora, isto é o martírio, graça excepcional e rara. E as nossas dores, doenças, useiras e vezeiras?

Leia adiante:

4. Bem-aventurados os tristes, porque serão consolados.

Bem-aventurados os pacientes, pois possuirão a terra da promissão (Mt 5, 4.5).

5. A Eucaristia põe-nos em contato com a paixão e morte de Jesus; é seu memorial (1 Cor 11). Alimentados pela eucaristia, todo o nosso sofrer é co-redentor. Comungando, entramos em contato com Cristo-vítima, e participamos fatalmente dessa mesma tarefa, do mesmo destino.

Verdade é que, enquanto o cristão não chegou a ser santo, acha-se numa situação pouco confortável. Sente a dor e seus problemas filosófico-teológicos, sem participar da alegria de sofrer.

Conclusão
 
 1. Aceitar as cruzes que vêm por aí, com resignação e santa paciência. Diz São Francisco de Sales: “Não sabemos de que maneira foi a cruz de Cristo, por isso, amemos todas as cruzes que aparecem”.

E outra vez: “Em que caldo, doce ou azedo Deus nos meta, deve ser-nos igual”.

2. Fazer cara alegre. Tenta.

 3. Preferir as cruzes secretas e os sofrimentos ignorados.

4. Pedir mais? Não. Só se houver nítida inspiração por parte de Jesus.

5. Sofrer alegre na esperança.

6. Principalmente sofrer com amor. Por amor a Jesus. Talvez algum dia, quando menos esperas, terás.

Teologia das Realidades Celestes

Providência

Mestre pintor, no alto do andaime, terminou um grupo de figuras na abóbada da igreja. Distancia-se da pintura para ver o efeito e, mergulhado nos seus pensamentos, recua sobre uma tábua até o fim, sem o perceber. Seu auxiliar repara de repente no perigo: mais um passo para trás e ele cai no vazio. Gritar é perigoso, pois então ele se vira e tomba no abismo.

Com presença de espírito, o servente enche um pincel de tinta qualquer e arremessa-o em meio do quadro pintado. Furioso e desesperado o mestre corre para frente, a fim de salvar sua obra. Depois vira-se indignado para o auxiliar. Mas este aponta o lugar onde estava antes: “Era o único meio de salvar-te a vida.”

Eis o papel providencial que doença e sofrimento representam em nossa vida espiritual.

Padre Nadal pergunta a Sto. Inácio qual o meio mais rápido para atingir a perfeição e a santidade. E a resposta: “Mestre Nadal, pedi a Deus que vos faça a graça de sofrer muito por seu amor.”

Já conhecemos o parecer da mística medieval: “O cavalo mais rápido para carregar-vos à perfeição é o sofrimento” (Eckehart)

Sofrimento-amigo

Sua finalidade é podar os desvios e vícios. Os maus instintos do velho homem, como São Paulo chama o filho de Adão. São as marteladas do escultor para tirar do mármore bruto a imagem do Filho de Deus. E isso não se faz sem doer.

“O sofrimento é um bom mestre. Ele não é muito querido. É que suas maneiras são um tanto indelicadas.

Seu método de ensino é severo. Mas quem o suporta pacientemente, não se arrepende. Progride em horas e dias, mais que sem ele em meses e anos” (Kepler)

Remata a velha e amiga “Imitação de Cristo” (2,12):

“Se houvesse para nós caminho melhor e mais seguro de salvação do que o caminho da dor, Cristo de certo no-lo teria ensinado com palavra e exemplo”. Portanto, paciência e perseverança. De alunos e aprendizes mais ou menos pacientes, bem ou mal humorados, devemos tornarnos, pouco a pouco, sem pressa, em amigos da cruz.

Jesus

Interessa a opinião de Jesus a esse respeito. Jesus não dá nos Evangelhos uma resposta direta, uma explicação doutrinal. Procede por vias de fato. Ensina pela vida. Torna-se, morrendo na cruz, o homem das dores previsto pelo profeta. E com isso ficamos sabendo: dor e sofrimento não são um mal; senão, Jesus o teria recusado.

Não é necessariamente castigo: pois Jesus não tinha culpa. Não separa de Deus, ao contrário: embora sofrendo, nós nos sintamos mais dispostos à oração e a atos de amor. Assim, pois, o sofrimento não é escândalo, não é pedra de tropeço no caminho do céu.

Da atitude de Jesus concluímos que o sofrimento:

1. É um grande bem; já que Deus o escolheu para si.

2. Sofrer é imitar o Verbo Encarnado. É tomar Jesus Cristo em sua realidade total. Significa não escolher a nosso gosto, por assim dizer, uma antologia “ad usum delphini”, para jardim de infância. Aceitar Cristo significa marchar sobre a via real da cruz (Imitação 2,12).

3. Sofrimento é matéria do sacrifício litúrgico. Pela morte de Jesus na cruz, entrou definitivamente no culto, como elemento integrante da religião. Pelo sofrimento, somos colocados sobre o altar da cruz. Somos hóstias. Exercemos uma função litúrgica.

4. Sofrimento faz parte do mistério. Suposto que Jesus é Filho de Deus, o problema da dor está resolvido, visto que o próprio Deus assume e diviniza o sofrimento. Nossa incompreensão perante o sofrer é medida do grau de fraqueza da nossa fé.

 Teologia das Realidades Celestes

Problema

O problema da dor na existência humana é antiga preocupação, não somente dos médicos mas também dos filósofos e pensadores. Os poetas dedicaram-lhe os três grandes poemas da humanidade: Guilgamêsh de Assur-Babel, a Odisséia de Homero e o Livro de Jó, com suas paciências e impaciências.

Se há um Deus, então nenhum mal, nenhum sofrimento nos pode atingir sem que ele o saiba. E se esse Deus é bondoso, e ele é bondoso, ele não nos envia nenhum sofrimento somente para torturar. Sabemos que a primeira edição do mundo foi “indolor”.

Mensagem

Todo sofrimento é um apelo de Deus que nos diz: “Homem, teus caminhos não são bons; volta!” Ou o sofrimento é uma saudação de Deus que nos diz: “Quero tornar-te melhor do que és; quero transformar-te numa obra de arte, digna de enfeitar o paraíso celeste”. Ou é um convite a sofrer pelos outros; sofrer em substituição ou procuração por algum seu próximo ou remoto.

 LiberdadeMais uma vez L. Bloy, filosofando sobre a dor humana, com seu jeito peculiar: “Acredita-se comumente que Deus não necessita recorrer a toda a sua força para domar os homens. Ora, esta crença manifesta uma singular, profunda ignorância do que é o homem e do que é Deus em relação a Ele. A liberdade, este dom prodigioso, inqualificável, incompreensível, pelo qual nos é dado vencer o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pelo qual nos é dado matar o Verbo Encarnado, apunhalar sete vezes a Imaculada Conceição, numa palavra, trazer em reboliço todos os espíritos criados, nos céus e nos infernos… esse dom inefável nada mais é que o respeito que Deus tem por nós. O respeito de Deus vai tão longe que, no período da lei da graça, ele nunca tem falado aos homens com autoridade absoluta, mas ao contrário, com a timidez, a mansidão, até diria com a submissão de um pedinte indigente…

Entre o homem revestido involuntariamente de sua liberdade e Deus, despojado voluntariamente de sua força, o antagonismo é normal. Ataque e resistência equilibram-se razoavelmente. E este eterno combate da natureza humana contra Deus é a fonte borbulhante de perene sofrimento… Deus é o eterno mendigo do amor”.

Intervenção

A mortificação ativa, selfmade, autodeterminada, costuma não ser suficientemente eficaz. Há honrosas exceções.

De um lado, não queremos ter dó demais. Por outro lado, de fato, precisamos ser prudentes, tendo em vista a saúde; devemos temperar excessos nas penitências e mortificações corporais. Recorramos pois, a um interventor neutro.

As doenças e os sofrimentos que vêm de fora trabalham e atuam sem comiseração, e não oferecem perigo de nos esmagar ou de nos reduzir a zero (ou a pó do cemitério).

Também não são infeccionados pela vontade própria, ou seja, por aquela vaidade refinada que se infiltra por todos os poros, também na vida espiritual. Daí nos diz a Palavra de Deus: “Como eras grato a Deus, foi preciso que a tentação te provasse (Tb 12,13 e Hb 12,5 recorda aos cristãos antigo ditado da Velha Aliança: “Deus castiga a quem ama” (e quando não castiga?…).

E a prova experimental é a vida dos santos, sem exceção alguma. Provam as noites místicas de purificação, graças de escol, nas quais doença e sofrimento, físico ou moral, fazem parte do enxoval.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

SOFRIMENTO E FÉ

Deus tem servidores por toda a parte. Mas os maiores deles, ele os educa no mosteiro da santa cruz.

Batiza-se Clóvis, o primeiro rei cristão da França, em Reims. Ou realmente deslumbrado pelo brilho litúrgico da cerimônia, pelas centelhas de velas acesas etc., ou ironizando, Clóvis pergunta a São Remígio: “É este o céu que me prometestes?” “Não. É só uma pálida sombra da realidade. Mas o caminho para lá é esse”. E apontando um grande crucifixo: “E esta é a porta de entrada”.

A Parábola

P. Luís Coloma conta e garante que é verdade, não invenção dele, o seguinte:

“Era uma vez um homem chamado João. Tinha uma boa esposa, uma filha e seu pequeno sítio para sustentar a família. Vieram os gafanhotos devastando os campos.

João fez romaria ao Cristo de Mimbral rezando: “Senhor, guardai a colheita, conservai-me o pão, não deixeis faltar o pão na casa de nosso servo”.

Mas Deus não atendeu o pedido de João, e em vez da pobreza reinou a miséria em sua casa. “Não importa, disse João. Temos saúde e dois braços fortes. Nosso Senhor irá abençoar o nosso trabalho”.

Porém, não demorou que sua esposa caísse doente, doença grave que a levou à beira do túmulo. E João fez outra romaria pedindo saúde para a esposa: “Não deixeis minha filha sem mãe, e nossa pobre casa sem um raio de sol”. Três dias depois morreu a esposa, deixando um viúvo e uma órfã após si. “Devo suportá-lo, disse João, Deus tirou-me a mulher, mas deixou-me a criança”.

Não tardou e a doença da mãe manifestou-se também na filha. E João fez nova romaria ao santuário, apertando o rosto contra a grade de ferro. “Senhor, salva minha filha. Estou velho e abandonado. Que irei fazer só, no mundo, como árvore sem galhos e sem frutas?”.

Animado, retornou ao lar. Sua filha querida morrera.

Deus quis assim. João, gemendo, mas resignado: “Perdi a colheita, perdi a esposa, perdi a filha. Deus não quer que lhe peça tais coisas. Não irei pedir mais nada. E diariamente visitava a pequena capela, ajoelhava perante Nosso Senhor, juntava as mãos calosas e dizia humildemente:

“Senhor, aqui está o João. Seja sempre a vossa vontade. O Senhor sabe melhor o que faz”.

“Quando Deus descobre uma alma desejosa de se dar sem reserva, manda seu furriel de predileção; àquele que em menos tempo é capaz de fazer melhor trabalho, o sofrimento…” (PLUS, Consummata, 171)

L. Bloy

Ouçamos ainda outro “filósofo da dor”. O peregrino do absoluto exalta em sua conhecida linguagem, vigorosa e insolente, o amor à cruz e o valor do sofrimento. Escreveu no início deste século:

“Quando não se tem fé, não se pode saber o que é uma alma, porque se desconhece forçosamente o que ela custou; por preço elevado fostes resgatado, diz São Paulo.

Muitos me querem bem: isso é evidente para mim.

Até estão dispostos a privar-se de bens. Mas de que bens? Estão falando de melhorar a situação dos que sofrem.

Como podem crer que isto seja possível, tendo em vista somente o bem-estar material? E estão forçados a visar também só este, porque não têm absolutamente nada a dar às suas almas.

 Ninguém tem feito tanto pelos pobres, mesmo materialmente, como aqueles grandes homens de fé que a Igreja chama santos. Ora, os santos sabiam que o corpo humano é somente a aparência do homem; eles trabalhavam sobretudo pelas almas que não morrem.

Eles sabiam também que o sofrimento é bom, sobrenaturalmente, para todos. E que o homem que não sofre ou que não quer sofrer é filho deserdado do Filho de Deus, que esposou a dor. Pois só quem é capaz de vislumbrar o preço de sua alma, aceita sofrer.

Os santos, sem dúvida, não pretendem trabalhar, como fazem os socialistas, para que não haja mais pobres e que o sofrimento desapareça deste mundo. Pois, então, quem pagaria?

Seria uma sociedade de porcos insolventes, falidos, de uma feiura indizível”.

Teologia das Realidades Celestes

 

Alguns conselhos concretos

1. Nada de inútil e fútil em tua vida. Não pensar, falar, fazer coisa inútil. Quantas bagatelas e ninharias enchem horas e quiçá dias de nossa vida. Tempo precioso para o amor de Deus em nós.

2. Deus só basta. Gravar esse princípio em nossa mente: Deus só. Norma do nosso pensar, querer, falar, agir deve se Deus, Deus só. Desejar somente o que Deus quer. Alegrar-se somente por aquilo que alegra a Deus. Entristecer-se só por aquilo que entristece a Deus: pecado, perda das almas.

3. Radicalismo espiritual. “Deixa tudo e tudo acharás” (Imitação 3,32,1). “Meu filho, Eu devo ser teu supremo e último fim” (Imitação 3, 9,1) Abertura irrestrita ao amor total. É mister renunciar a todos os amores terrestres, principalmente ao amor próprio, em troca do amor de Deus.

A pequena Anita foi ensinada a oferecer seu coração ao bom Deus em sua oração da manhã. Certo dia omite as palavras da oferta. A mãe pergunta: “Hoje não dás o coração a Jesus?” E vem a resposta num sussurro misterioso: “Não posso, mamãe.” “Como é que não podes?” “Já dei ontem, e ainda está lá”… Ah! quem nos dera assim fosse; que bastasse dar uma vez para sempre. É que temos cuidado de perder o coraçãozinho para sempre e mandá-lo registrado, ou até por reembolso. Pudera! Assim retorna sempre de novo ao remetente. Deus quer doação total. Somente assim ele também nos pode dar seu amor total.

E é preciso repetir nossa doação. Repetir todos os dias. Até o coração não mais retornar. Pois é hábito nosso dar e retomar, ou melhor, surripiar pouco a pouco toda a nossa oferta generosa. O único remédio é repetir a doação sempre de novo. E martelar na cabeça e no coração: Deus só te basta e de sobra.

Impõe-se uma revisão de tempo em tempo. Revisão de todo o almoxarifado espiritual. Eliminem-se, sem dó, todos os fios de apego que prendem o grande Guliver prisioneiro dos Liliput…

A frase-chave: por que fazes isto? Por amor de Jesus.

Por que pensas, falas? Sempre por Jesus.

“Torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti mesmo e gozarás paz. Dá tudo por tudo.” (Imitação 3,37). O discípulo pergunta como São Pedro: quantas vezes devo renunciarme?

Resposta: “Sempre e a toda hora; no muito e no pouco” (Imitação 3,37)

“Por isto encontram-se tão poucos contemplativos, porque tão poucos sabem desapegar-se das criaturas mortais” (Imitação 3,31)

São Francisco de Sales: “Quando a casa pegou fogo, jogam-se todos os móveis pela janela. Quando o fogo do amor de Deus incendiou um coração, queima-se tudo o que não é Deus”. Deus quer ser amado com todas as forças do coração.

 

Teologia das Realidades Celestes

Séculos mais tarde recebemos a mesma mensagem. Sta. Teresa d’Ávila não se cansa de repetir que o empecilho principal para o progresso na vida mística é algum apego egoísta

. Aliás, o único obstáculo, pois se tomamos a sério a entrega total, Deus não falta com sua parte. “O ponto está em que lhe demos por seu (o palácio de nossa alma) com total determinação, e lho desembaracemos, para que nele possa pôr e tirar como em coisa própria…

Como não violenta nossa vontade, toma o que lhe oferecemos. Mas não se dá de todo enquanto não nos damos de todo…

Se atravancamos o palácio de gente baixa e de sevandijas, como há de caber nele, o Senhor com sua corte?” (Caminho 28,12)

“Temos demasiado amor a nós mesmos e extrema circunspecção para defender os nossos direitos. Oh! que grande engano” (Morada 5,4,6). Que fina ironia!…

“Mãos à obra, despojando-nos do nosso amor próprio e de nossa vontade, do apego por qualquer coisa da terra… Morra, morra este nosso verme, como o verme da seda, terminando a obra para a qual foi criado” (Morada 5,2,6).

São João da Cruz traçou o quadro perfeito dessa entrega total ao Absoluto. Quadro maravilhoso para o espírito, quadro horroroso para a natureza. Mas é tal a mensagem paulina: despojar o velho homem, crucificá-lo, enterrá- lo a fim de renascer e ressuscitar em Cristo Jesus.

 Eis o apelo à generosidade (Subida, I 13): “Procura sempre inclinar-te não ao mais fácil, senãoao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais gostoso, senão ao menos gostoso. Não ao que é consolo, senão ao desconsolo. Não ao que é descanso, senão ao trabalhoso. Não ao mais, … senão ao menos…

 Para chegar a gozar do tudo Não queiras ter gosto em nada. Para chegar a possuir tudo Não queiras possuir algo em nada. Para chegar a ser tudo Não queiras ser algo em nada”.

Em outras palavras: fazer em tudo e sempre a vontade de Deus e não a tua.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

Finalidade

Finalidade da mortificação:

1. Libertação dos pecados cometidos.

2. Preservação de novos pecados. As feras das paixões ainda uivam famintas em nosso coração. Não se deve perdê-las de vista.

3. Abertura à graça. Jesus a Benigna Consolata: “A mortificação é o canal da graça. Se o canal é estreito, passa pouco”. São Francisco de Sales: “Quem mais mortifica suas inclinações naturais, mais atrai sobre si as inspirações sobrenaturais”.

4. Imitação, seqüela de Cristo. O discípulo ardoroso não quer passar melhor do que o Mestre. Envergonha-se de viver na folga, quando Jesus passa mal. Deseja seguir-lhe as pegadas (1Pd 2,21). Só a vítima santa, o Cordeiro imolado consegue solver, desfazer os selos (Ap 5,1).

5. Finalmente, e principalmente, abertura ao amor de Deus. “Morrer a todo outro amor, a fim de viver só para o amor de Jesus” (São Francisco de Sales)

RENÚNCIA TOTAL PELO AMOR TOTAL

Reservas

Contam as crônicas antigas, do tempo em que a Irlanda se converteu à fé cristã, que de vez em quando um dos guerreiros, mergulhados na água batismal, erguia o braço direito para fora da água: este, com o qual brandia a arma na batalha, não devia pegar a água santa; devia continuar ao livre uso e dispor do cavalheiro.

Cristo

Jesus adverte no Evangelho: ninguém pode servir a dois senhores. “Os que vivem, já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Cor 5,15).

Jesus fez entrega total de tudo em nosso favor, e espera o mesmo de nós. Seu amor total espera, como resposta, amor também total. E este nosso coração humano a inventar mil pretextos para fazer restrições, pequenas e mesquinhas; para reservar-se algum apego aos bens da terra. “É avarento demais aquele a quem Deus não basta”, dizia Sto. Agostinho.

Ao novato, desejoso de afiliar-se, perguntavam os antigos monges do deserto: “Trazes um coração vazio?”

Num corpo cheio de terra não cabe mais nada. Nosso coração deve estar vazio de tudo para o Espírito Santo poder derramar nele seu amor divino (Rm 5,5).

O místico medieval Tauler, num sermão sobre o nascimento de Jesus em Belém, fala daquelas coisas terrenas que põem obstáculo à entrada de Deus em nós:

“Satisfação e gosto por criaturas vivas ou mortas… amizades, sociedade, roupas, comidas… tudo o que o homem aprecia. Cada um tem o seu gosto, apego, prazer. E essa coisinha pequena priva-te e rouba-te o teu grande Deus e o delicioso nascimento que ele quis fazer em ti. Tu ficas sem o desejo e o consolo que devias ter por Deus e por este nascimento. É esse pequeno gostinho que o impede e embarga. Vê, tu mesmo, o que é. Ninguém sabe melhor do que tu. Não perguntes a mim, pergunta a ti, que não tens amor nem fervor. Queres sempre Deus e a criatura juntos.

E isto é impossível. Quanto mais de um, tanto menos do outro. Quanto frio sai, tanto calor entra. Enquanto tens voluntário apego e afeição à criatura, pessoa ou coisa, não podes sentir a morada de Deus em tua alma.

Deus deu todas as coisas a fim de que sejam caminho para ele. Mas a meta final é ele só, e mais ninguém, nem isto nem aquilo”.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

Tradição

A tradição cristã é fiel à mensagem evangélica. Mortificação é caminho necessário para a perfeição: mão única.

“Devemos tomar a terra como caminho, não como pátria” (São Gregório Magno)

“Deus te criou; examina-te e destrói em ti, tudo o que não saiu de sua oficina” (Sto. Agostinho)

Eckehart, grande mestre espiritual da Idade Média, escreve: “Prestai atenção, ó vós, espíritos intelectuais! O corcel mais rápido para conduzir-vos à perfeição é o sofrimento”.

Sta. Teresa d’Ávila: “Os dois pés com os quais caminhamos na vida da perfeição são: mortificação e amor de Deus. Aquele é o pé esquerdo; este é o direito”.

São Francisco de Sales: “Os verdadeiros devotos são os verdadeiros mortificados. Sofrer é quase o único bem que somos capazes de realizar na terra. Uma onça de paciência vale mais do que um quilo de ação”. E insiste o santo, em seu modo gracioso; “A festa da Purificação não tem oitava, o que quer dizer que até o nosso último suspiro temos de purificar-nos. Portanto, é preciso termos duas resoluções iguais. Uma, de ver crescer sempre as ervas más em nosso jardim. A outra, de ter coragem de arrancá-las”.

São Vicente de Paulo: “Se alguém acredita que já está com um pé no céu e omite a mortificação, este está no supremo perigo de despencar logo que puxar o outro pé”.

F. W. Faber: “Vede a fileira dos santos. Para a maioria deles foi a dor que lhes abriu os tesouros do amor divino.

A dor conduziu-os àquela paragem venturosa.

A dor formou as coroas que ornam suas cabeças. A dor profunda, prolongada, fá-los contemplar, agora, a glória”.

“O ponto em que os nossos contemporâneos ficam evidentemente atrás dos antigos, é o apreço e a prática da mortificação” (Saudreau)

Escritor ascético, moderno, criterioso, Zimmermann SJ, escreve: “Não há dúvida que dentro de nós há forças contrárias à perfeição. Se nós não as impedimos, elas é que impedem a perfeição, e isto em todos os seus degraus, desde o simples estado da graça até o mais alto vôo do amor… Ou mortificação ou perda da perfeição, e com isso perda de maior felicidade aqui e acolá… E não valem escusas. A natureza defende-se e esconde-se atrás de mil pretextos corriqueiros. Quando não prefere contestar a submissão e obediência abertamente. Mas não há como fugir…”

“Ao céu, via-se com um pequeno pedregulho no sapato” (L. Veuillot)

Teologia das Realidades Celestes

Vamos nos colocar em orações pedindo pelo nosso amado País, que nosso povo peça ao Espírito Santo luz para votar nestas eleições.

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