Clarões

Às vezes, um clarão rápido, fugaz, atravessa a noite e o coração humano sente de um modo novo, diferente, a presença de Deus e do seu amor . Momentos fugazes, seguidos novamente pela ausência aparente de Deus; seguidos pelo fastio da oração, misturados todavia com um desejo de rezar, com uma atração misteriosa pela solidão em Deus. Mas a aridez contínua.

Purificação

Ficou noite onde antes parecia brilhar para sempre o sol do meio-dia, luminoso e caloroso. É a noite dos sentidos, segundo São João da Cruz. É um processo de purificação espiritual, um processo de espiritualização do nosso amor por Deus. Principalmente é purificação, pois nossa alma, mesmo no estado da graça santificante, está manchada pelas marcas que deixaram os pecados e imperfeições.

Escreveu Antonieta de Geuser: “Jesus revelou-me um pouco a ofensa que eu lhe fiz com meus pecados. Fiquei horrorizada de mim mesma. O dia todo tentei amar-me por amor de Deus, por caridade, mas não consegui.

Amar gente antipática, amar o inimigo, sim, com todo prazer.

Mas amar uma coisa tão suja, é difícil.” E Jesus a responder: “E eu irei fazer aí minha morada”.

Até aqui passaram anos. Excetuando-se os casos a prazo curto que a hagiografia narra, numerosos mas milagrosos, em vista força instintiva do nosso amor próprio que requer logo tratamento de saneamento.

Sinais

Está na hora de ler os três sinais de São João da Cruz (Subida 1,13 e Noite 1,9) que mandam a pessoa renunciar à meditação metódica, renunciar a fazer afetos e reflexões; mandam contentar-se com uma “atenção amorosa à sua presença”.

Primeiro sinal: Uma indiferença geral a respeito de tudo quanto existe neste mundo. Tanto lhe faz lugar, ocupação, ambiente em que tem de viver. Mesmo a atividade profissional, que antes lhe dava satisfação e estímulo, perdeu todo o interesse natural. Cumpre suas obrigações por dever perante Deus. Sente só o desejo de estar tranqüilamente na presença de Deus. E, encontrando em tudo só aridez, sente-se um tanto desesperada por essa impossibilidade (aparente) de progredir na união com Deus.

Segundo sinal: É a alma viver na aflição de estar volvendo para trás no serviço de Deus, “por causa do desgosto que sente nas coisas espirituais”. Aflição de estar em tibieza, por causa dessa aridez espiritual.

Terceiro sinal: É a impossibilidade, por mais esforço que empregue, de meditar com a mente e ajudando-se

com a fantasia, para fazer algum raciocínio ou afeto. Contente-se com um olhar amoroso em Deus.

Contente-se com um vago pensamento, com “uma atenção amorosa a Deus”. Contente-se com “uma amorosa e tranqüila advertência em Deus”, sem outra solicitude, sem esforços (Noite 1, 10,5)

Tentar meditar como antes, com raciocínios e afetos, só atrapalha a obra de Deus. Como pessoa que se mexe continuamente ao ser retratada por um pintor. É a obra purificadora de Deus para a alma receber a contemplação infusa.

A noite dos sentidos “é uma desconcertantes mistura de escuridão e luz, de secura e amor, amor de Deus em estado latente, de impotência real e surda energia” (Tanquerey).

De fato, já é a contemplação infusa em estado de aridez, com numerosas distrações, deixando na alma um desejo doloroso de Deus. O fogo do amor divino está aceso, mas encoberto como brasa sob cinza.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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