Progressos

Vêm depois os graus iniciais da contemplação infusa como Sta. Teresa d’Ávila os descreve: recolhimento infuso, quietude, união conformativa, simples ou extática. E passam-se anos nestas fases iniciais, com grandes consolações.

A alma sente-se unida a Deus, aumentando sempre mais a sua semelhança com ele. Mas requer ainda uma transformação total, uma identificação com Deus.

Segunda noite

Para realizar essa transformação total e definitiva, a alma deve submeter-se a uma nova purificação, mais rigorosa e talvez mais longa do que a noite dos sentidos. É a noite espírito, tão magistralmente descrita por São João da Cruz. A parte sensitiva da alma deve ser sujeita ao espírito, e esse por sua vez deve ser purificado de todo e qualquer apego a criaturas, vivas ou mortas, pessoas ou objetos. A alma humana vai ser fundida totalmente em Deus Uno e Trino, a ponto de se realizar a palavra paulina ao pé da letra: “Já não vivo eu, mas Deus vive em mim” (Gl 2,20).

Transformação que se estende a todas as partes e funções da alma humana. De tal maneira que até os movimentos espontâneos procedem de Deus. De tal maneira que o Espírito Santo dirige a alma em tudo, segundo a outra palavra paulina: “Os que são guiados pelo Espírito, esses são os filhos de Deus” (Rm 8,14).

Resultado final: a alma humana, a criatura, é transformada num ser divino, participando da vida de Deus, sentindo-se mergulhada dentro do abismo da imensidade divina. Sente-se não só unida a Deus: sente-se vivendo dentro de Deus.

Penas e Dores

As provações principais são cinco: 1. A alma recebe um conhecimento de si própria como nunca dantes. Vê e descobre faltas como nunca dantes. Descobre-se em si tal feiura que fica horrorizada consigo mesma.

2. A alma sente pesar sobre si a ira de Deus, aliás, bem merecida, encontrando-se em tal estado. Sente-se estar perante “a Justiça divina”, não perante o Deus de misericórdia.

3. A ira de Deus parece-lhe ser perene, sem fim. Sente-se sem esperança de tornar a ser agradável a Deus. Sente-se condenada merecidamente ao inferno.

4. A alma recebe agora um conhecimento novo e profundo da grandeza de Deus, do Ser Infinito, o unicamente digno de ser amado. Sente um desejo ardente de amar essa bondade e beleza infinitas. E sente-se repelida por Deus como indigna; repelida aparentemente para sempre.

5. Sua maior aflição é sentir quanto esse Deus merece ser amado. Sente ânsia insaciável de amá-lo, e por outro lado sente sua incapacidade de amá-lo. Sem falar da sua incapacidade de amá-lo quanto merece.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR