Aflições

Algumas provações colaterais acompanham e reforçam o martírio da alma:

1. A recordação da felicidade anterior, com Jesus, deixa um sabor amargo. A alma sente-se incapaz de jamais tornar-se digna da aceitação divina.

2. Sente-se incapaz de rezar. Durante o tempo da oração jaz diante de Deus prostrada, inerte, gemendo sob a desgraça que lhe parece sem remédio e sem fim… E isso não é só uma ficção mental. É a realidade de nossa posição no mundo sem a graça de Deus, preveniente e cooperante.

3. Impossível receber apoio ou conforto da parte do confessor, ou diretor espiritual, imaginando a alma que eles não a compreendem, julgando-a com excessiva bondade que ela não merece.

4. A esses males internos juntam-se tentações contra as três virtudes teologais, dúvidas contra a fé, dúvidas contra a esperança, desespero da salvação e finalmente tentações contra o amor de Deus, sentindo ódio contra Deus, impulsos de blasfêmias. É tudo uma confusão psicológica indescritível.

A purificação dura meses e anos, felizmente entrecortada por tempos de intensa união com Deus, até por êxtases que ajudam a alma a superar a provação. Aliás, durante todo esse tempo de desespero, sente-se a alma fortalecida por uma misteriosa atração para com Deus, um desejo incontido de amá-lo. Assim, Deus a sustenta, sem todavia deixar de fazê-la sofrer.

Atitude a ser assumida: renovar sua fé, sua confiança, seu amor a Deus. E suportar tudo com resignação à vontade de Deus (Não deve tentar fazer meditação: é inútil e só faz sofrer mais). No fundo, não há remédio humano.

A alma tem de passar por esse crivo purificador.

Da hagiografia hodierna, duas amostras.

Antonieta de Geuser

Antonieta relata assim sua experiência espiritual: “Aquilo não é só purgatório. Aquilo é inferno. E não sei, em absoluto, se correspondo às graças de Deus. Não vejo absolutamente nada… Não consigo nem rezar, nem pensar, nem querer. Não compreendo nada. Tudo é obscuro demais, é ardente demais Tudo está morrendo em mim: e numa morte sem consolo…”

“Sofrimento, dor, angústia, desprazer, desgosto, tortura, martírio, tentação, agonia, morte, um arrasamento total. Todas as palavras são incapazes de descrever o estado de minha alma. Essa tentação só pode ser traduzida por um página em branco…”

E todavia escreve: “Meu cálice está cheio, mas eu o queria maior… O bom Deus é bom demais para comigo.

Quanto mais eu lhe agradeço pelo sofrimento, mais ele manda. Estou no fim das forças”.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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