Finalidade

Finalidade da mortificação:

1. Libertação dos pecados cometidos.

2. Preservação de novos pecados. As feras das paixões ainda uivam famintas em nosso coração. Não se deve perdê-las de vista.

3. Abertura à graça. Jesus a Benigna Consolata: “A mortificação é o canal da graça. Se o canal é estreito, passa pouco”. São Francisco de Sales: “Quem mais mortifica suas inclinações naturais, mais atrai sobre si as inspirações sobrenaturais”.

4. Imitação, seqüela de Cristo. O discípulo ardoroso não quer passar melhor do que o Mestre. Envergonha-se de viver na folga, quando Jesus passa mal. Deseja seguir-lhe as pegadas (1Pd 2,21). Só a vítima santa, o Cordeiro imolado consegue solver, desfazer os selos (Ap 5,1).

5. Finalmente, e principalmente, abertura ao amor de Deus. “Morrer a todo outro amor, a fim de viver só para o amor de Jesus” (São Francisco de Sales)

RENÚNCIA TOTAL PELO AMOR TOTAL

Reservas

Contam as crônicas antigas, do tempo em que a Irlanda se converteu à fé cristã, que de vez em quando um dos guerreiros, mergulhados na água batismal, erguia o braço direito para fora da água: este, com o qual brandia a arma na batalha, não devia pegar a água santa; devia continuar ao livre uso e dispor do cavalheiro.

Cristo

Jesus adverte no Evangelho: ninguém pode servir a dois senhores. “Os que vivem, já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Cor 5,15).

Jesus fez entrega total de tudo em nosso favor, e espera o mesmo de nós. Seu amor total espera, como resposta, amor também total. E este nosso coração humano a inventar mil pretextos para fazer restrições, pequenas e mesquinhas; para reservar-se algum apego aos bens da terra. “É avarento demais aquele a quem Deus não basta”, dizia Sto. Agostinho.

Ao novato, desejoso de afiliar-se, perguntavam os antigos monges do deserto: “Trazes um coração vazio?”

Num corpo cheio de terra não cabe mais nada. Nosso coração deve estar vazio de tudo para o Espírito Santo poder derramar nele seu amor divino (Rm 5,5).

O místico medieval Tauler, num sermão sobre o nascimento de Jesus em Belém, fala daquelas coisas terrenas que põem obstáculo à entrada de Deus em nós:

“Satisfação e gosto por criaturas vivas ou mortas… amizades, sociedade, roupas, comidas… tudo o que o homem aprecia. Cada um tem o seu gosto, apego, prazer. E essa coisinha pequena priva-te e rouba-te o teu grande Deus e o delicioso nascimento que ele quis fazer em ti. Tu ficas sem o desejo e o consolo que devias ter por Deus e por este nascimento. É esse pequeno gostinho que o impede e embarga. Vê, tu mesmo, o que é. Ninguém sabe melhor do que tu. Não perguntes a mim, pergunta a ti, que não tens amor nem fervor. Queres sempre Deus e a criatura juntos.

E isto é impossível. Quanto mais de um, tanto menos do outro. Quanto frio sai, tanto calor entra. Enquanto tens voluntário apego e afeição à criatura, pessoa ou coisa, não podes sentir a morada de Deus em tua alma.

Deus deu todas as coisas a fim de que sejam caminho para ele. Mas a meta final é ele só, e mais ninguém, nem isto nem aquilo”.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR