SOFRIMENTO E FÉ

Deus tem servidores por toda a parte. Mas os maiores deles, ele os educa no mosteiro da santa cruz.

Batiza-se Clóvis, o primeiro rei cristão da França, em Reims. Ou realmente deslumbrado pelo brilho litúrgico da cerimônia, pelas centelhas de velas acesas etc., ou ironizando, Clóvis pergunta a São Remígio: “É este o céu que me prometestes?” “Não. É só uma pálida sombra da realidade. Mas o caminho para lá é esse”. E apontando um grande crucifixo: “E esta é a porta de entrada”.

A Parábola

P. Luís Coloma conta e garante que é verdade, não invenção dele, o seguinte:

“Era uma vez um homem chamado João. Tinha uma boa esposa, uma filha e seu pequeno sítio para sustentar a família. Vieram os gafanhotos devastando os campos.

João fez romaria ao Cristo de Mimbral rezando: “Senhor, guardai a colheita, conservai-me o pão, não deixeis faltar o pão na casa de nosso servo”.

Mas Deus não atendeu o pedido de João, e em vez da pobreza reinou a miséria em sua casa. “Não importa, disse João. Temos saúde e dois braços fortes. Nosso Senhor irá abençoar o nosso trabalho”.

Porém, não demorou que sua esposa caísse doente, doença grave que a levou à beira do túmulo. E João fez outra romaria pedindo saúde para a esposa: “Não deixeis minha filha sem mãe, e nossa pobre casa sem um raio de sol”. Três dias depois morreu a esposa, deixando um viúvo e uma órfã após si. “Devo suportá-lo, disse João, Deus tirou-me a mulher, mas deixou-me a criança”.

Não tardou e a doença da mãe manifestou-se também na filha. E João fez nova romaria ao santuário, apertando o rosto contra a grade de ferro. “Senhor, salva minha filha. Estou velho e abandonado. Que irei fazer só, no mundo, como árvore sem galhos e sem frutas?”.

Animado, retornou ao lar. Sua filha querida morrera.

Deus quis assim. João, gemendo, mas resignado: “Perdi a colheita, perdi a esposa, perdi a filha. Deus não quer que lhe peça tais coisas. Não irei pedir mais nada. E diariamente visitava a pequena capela, ajoelhava perante Nosso Senhor, juntava as mãos calosas e dizia humildemente:

“Senhor, aqui está o João. Seja sempre a vossa vontade. O Senhor sabe melhor o que faz”.

“Quando Deus descobre uma alma desejosa de se dar sem reserva, manda seu furriel de predileção; àquele que em menos tempo é capaz de fazer melhor trabalho, o sofrimento…” (PLUS, Consummata, 171)

L. Bloy

Ouçamos ainda outro “filósofo da dor”. O peregrino do absoluto exalta em sua conhecida linguagem, vigorosa e insolente, o amor à cruz e o valor do sofrimento. Escreveu no início deste século:

“Quando não se tem fé, não se pode saber o que é uma alma, porque se desconhece forçosamente o que ela custou; por preço elevado fostes resgatado, diz São Paulo.

Muitos me querem bem: isso é evidente para mim.

Até estão dispostos a privar-se de bens. Mas de que bens? Estão falando de melhorar a situação dos que sofrem.

Como podem crer que isto seja possível, tendo em vista somente o bem-estar material? E estão forçados a visar também só este, porque não têm absolutamente nada a dar às suas almas.

 Ninguém tem feito tanto pelos pobres, mesmo materialmente, como aqueles grandes homens de fé que a Igreja chama santos. Ora, os santos sabiam que o corpo humano é somente a aparência do homem; eles trabalhavam sobretudo pelas almas que não morrem.

Eles sabiam também que o sofrimento é bom, sobrenaturalmente, para todos. E que o homem que não sofre ou que não quer sofrer é filho deserdado do Filho de Deus, que esposou a dor. Pois só quem é capaz de vislumbrar o preço de sua alma, aceita sofrer.

Os santos, sem dúvida, não pretendem trabalhar, como fazem os socialistas, para que não haja mais pobres e que o sofrimento desapareça deste mundo. Pois, então, quem pagaria?

Seria uma sociedade de porcos insolventes, falidos, de uma feiura indizível”.

Teologia das Realidades Celestes

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