Problema

O problema da dor na existência humana é antiga preocupação, não somente dos médicos mas também dos filósofos e pensadores. Os poetas dedicaram-lhe os três grandes poemas da humanidade: Guilgamêsh de Assur-Babel, a Odisséia de Homero e o Livro de Jó, com suas paciências e impaciências.

Se há um Deus, então nenhum mal, nenhum sofrimento nos pode atingir sem que ele o saiba. E se esse Deus é bondoso, e ele é bondoso, ele não nos envia nenhum sofrimento somente para torturar. Sabemos que a primeira edição do mundo foi “indolor”.

Mensagem

Todo sofrimento é um apelo de Deus que nos diz: “Homem, teus caminhos não são bons; volta!” Ou o sofrimento é uma saudação de Deus que nos diz: “Quero tornar-te melhor do que és; quero transformar-te numa obra de arte, digna de enfeitar o paraíso celeste”. Ou é um convite a sofrer pelos outros; sofrer em substituição ou procuração por algum seu próximo ou remoto.

 LiberdadeMais uma vez L. Bloy, filosofando sobre a dor humana, com seu jeito peculiar: “Acredita-se comumente que Deus não necessita recorrer a toda a sua força para domar os homens. Ora, esta crença manifesta uma singular, profunda ignorância do que é o homem e do que é Deus em relação a Ele. A liberdade, este dom prodigioso, inqualificável, incompreensível, pelo qual nos é dado vencer o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pelo qual nos é dado matar o Verbo Encarnado, apunhalar sete vezes a Imaculada Conceição, numa palavra, trazer em reboliço todos os espíritos criados, nos céus e nos infernos… esse dom inefável nada mais é que o respeito que Deus tem por nós. O respeito de Deus vai tão longe que, no período da lei da graça, ele nunca tem falado aos homens com autoridade absoluta, mas ao contrário, com a timidez, a mansidão, até diria com a submissão de um pedinte indigente…

Entre o homem revestido involuntariamente de sua liberdade e Deus, despojado voluntariamente de sua força, o antagonismo é normal. Ataque e resistência equilibram-se razoavelmente. E este eterno combate da natureza humana contra Deus é a fonte borbulhante de perene sofrimento… Deus é o eterno mendigo do amor”.

Intervenção

A mortificação ativa, selfmade, autodeterminada, costuma não ser suficientemente eficaz. Há honrosas exceções.

De um lado, não queremos ter dó demais. Por outro lado, de fato, precisamos ser prudentes, tendo em vista a saúde; devemos temperar excessos nas penitências e mortificações corporais. Recorramos pois, a um interventor neutro.

As doenças e os sofrimentos que vêm de fora trabalham e atuam sem comiseração, e não oferecem perigo de nos esmagar ou de nos reduzir a zero (ou a pó do cemitério).

Também não são infeccionados pela vontade própria, ou seja, por aquela vaidade refinada que se infiltra por todos os poros, também na vida espiritual. Daí nos diz a Palavra de Deus: “Como eras grato a Deus, foi preciso que a tentação te provasse (Tb 12,13 e Hb 12,5 recorda aos cristãos antigo ditado da Velha Aliança: “Deus castiga a quem ama” (e quando não castiga?…).

E a prova experimental é a vida dos santos, sem exceção alguma. Provam as noites místicas de purificação, graças de escol, nas quais doença e sofrimento, físico ou moral, fazem parte do enxoval.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

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