Providência

Mestre pintor, no alto do andaime, terminou um grupo de figuras na abóbada da igreja. Distancia-se da pintura para ver o efeito e, mergulhado nos seus pensamentos, recua sobre uma tábua até o fim, sem o perceber. Seu auxiliar repara de repente no perigo: mais um passo para trás e ele cai no vazio. Gritar é perigoso, pois então ele se vira e tomba no abismo.

Com presença de espírito, o servente enche um pincel de tinta qualquer e arremessa-o em meio do quadro pintado. Furioso e desesperado o mestre corre para frente, a fim de salvar sua obra. Depois vira-se indignado para o auxiliar. Mas este aponta o lugar onde estava antes: “Era o único meio de salvar-te a vida.”

Eis o papel providencial que doença e sofrimento representam em nossa vida espiritual.

Padre Nadal pergunta a Sto. Inácio qual o meio mais rápido para atingir a perfeição e a santidade. E a resposta: “Mestre Nadal, pedi a Deus que vos faça a graça de sofrer muito por seu amor.”

Já conhecemos o parecer da mística medieval: “O cavalo mais rápido para carregar-vos à perfeição é o sofrimento” (Eckehart)

Sofrimento-amigo

Sua finalidade é podar os desvios e vícios. Os maus instintos do velho homem, como São Paulo chama o filho de Adão. São as marteladas do escultor para tirar do mármore bruto a imagem do Filho de Deus. E isso não se faz sem doer.

“O sofrimento é um bom mestre. Ele não é muito querido. É que suas maneiras são um tanto indelicadas.

Seu método de ensino é severo. Mas quem o suporta pacientemente, não se arrepende. Progride em horas e dias, mais que sem ele em meses e anos” (Kepler)

Remata a velha e amiga “Imitação de Cristo” (2,12):

“Se houvesse para nós caminho melhor e mais seguro de salvação do que o caminho da dor, Cristo de certo no-lo teria ensinado com palavra e exemplo”. Portanto, paciência e perseverança. De alunos e aprendizes mais ou menos pacientes, bem ou mal humorados, devemos tornarnos, pouco a pouco, sem pressa, em amigos da cruz.

Jesus

Interessa a opinião de Jesus a esse respeito. Jesus não dá nos Evangelhos uma resposta direta, uma explicação doutrinal. Procede por vias de fato. Ensina pela vida. Torna-se, morrendo na cruz, o homem das dores previsto pelo profeta. E com isso ficamos sabendo: dor e sofrimento não são um mal; senão, Jesus o teria recusado.

Não é necessariamente castigo: pois Jesus não tinha culpa. Não separa de Deus, ao contrário: embora sofrendo, nós nos sintamos mais dispostos à oração e a atos de amor. Assim, pois, o sofrimento não é escândalo, não é pedra de tropeço no caminho do céu.

Da atitude de Jesus concluímos que o sofrimento:

1. É um grande bem; já que Deus o escolheu para si.

2. Sofrer é imitar o Verbo Encarnado. É tomar Jesus Cristo em sua realidade total. Significa não escolher a nosso gosto, por assim dizer, uma antologia “ad usum delphini”, para jardim de infância. Aceitar Cristo significa marchar sobre a via real da cruz (Imitação 2,12).

3. Sofrimento é matéria do sacrifício litúrgico. Pela morte de Jesus na cruz, entrou definitivamente no culto, como elemento integrante da religião. Pelo sofrimento, somos colocados sobre o altar da cruz. Somos hóstias. Exercemos uma função litúrgica.

4. Sofrimento faz parte do mistério. Suposto que Jesus é Filho de Deus, o problema da dor está resolvido, visto que o próprio Deus assume e diviniza o sofrimento. Nossa incompreensão perante o sofrer é medida do grau de fraqueza da nossa fé.

 Teologia das Realidades Celestes

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