Escândalo da Cruz: Gl 5,11

Dou a palavra à exegese moderna: Ortkemper (A cruz na pregação paulina, 1968): “A cruz é o centro determinante do pensamento paulino, ao redor do qual gira todo o cosmos da teologia paulina. O Evangelho de Jesus Cristo é a palavra da cruz” (1 Cor 1,18). (88)

“Para Paulo, a cruz é o critério e o medidor do pensamento cristão autêntico e da vida cristã autêntica” (90).

Pois diz A. Schweizer: justificação é “inserção no acontecimento salvífico da cruz e da ressurreição”.

Também a eucaristia paulinha deve-se entender “na moldura de uma teologia Crucis” (KAESEMANN, 95)

Como o escândalo da cruz acompanhou o apóstolo na sua carreira missionária “sem atenuações” assim, “a cruz é indiscutivelmente e sem compromisso o mediador da experiência cristã neste mundo” (98)

Conseqüência: o cristão, crucificado com Cristo no batismo, é chamado a sofrer com Cristo a fim de chegar assim à glória (Rm 8,17). (99) O mundo para São Paulo é esse mundo “perturbado”, no qual penetraram o pecado e a morte (Rm 5, 12.21). Daí, o aviso de não nos conformar com ele (Rm 12,12). (99)

“Sofrer, a fim de ser glorificado, eis a regra básica da existência cristã neste éon” (100)

“A pregação hodierna deve, com toda seriedade, colocar-se perante a pergunta se hoje a cruz não se reduz a um simples emblema externo, em vez de ser fator decisivo de nossa existência cristã. Todo o otimismo mundial, por justo que seja, encontra seu limite na cruz “pela qual o mundo para mim está crucificado e eu para o mundo (Gl 6,14)… Não haveria em nossa mentalidade atual (e talvez, mesmo na teologia) com toda a abertura otimista ao mundo, o perigo de esquecer a cruz?… Uma ruptura atravessa o mundo. Redenção não é possível sem cruz, isto é, sem a prontidão de con-sofrer” (100)

Amor da Cruz

Para São Paulo, a “cruz da existência humana” é solidarismo com Cristo. Ele quer ter os mesmos sentimentos que seu Mestre, inclusive seu entusiasmo pela cruz, no qual se tornou obediente até à morte (Fl 2,8).

Paixão e sofrimento são as raízes das quais brota o Corpo Místico. Os membros deste organismo espiritual são pregados com Cristo na cruz (Gl 2,19), estão enterrados com Cristo (Rm 6, 4-5).

Daí se segue que Paulo considera tudo quanto é fora de Cristo como perda, como lixo (Fl 3,7), e deseja “ter parte nos seus sofrimentos e ser configurado com sua morte” (Fl 3,10). Deseja ter o estigma de Cristo (Gl 6,17).

A marca de pertencer a Cristo é o sofrimento. Deseja imitar o Cristo pobre, humilde, sofredor. Os valores da cultura humana não interessam; não quer “ostentar outra ciência a não ser a de Jesus Cristo, e do Jesus crucificado” (1 Cor 2,2).

Sofre com alegria. Pois é graça “não só crer em Cristo, mas sofrer também por ele” (Fl 1.29). É sua única ambição: “Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de N. S. Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). Sua ambição é ser colega do Cristo sofredor: “Ufano-me na tribulação” (Rm 5,3; 2 Cor 12, 10; Fl 1,20).

Sua ambição é completar a paixão de Cristo: “Folgo de sofrer completando em minha carne… o que falta ainda na paixão de Cristo” (Cl 1,24).

Teologia das Realidades Celestes

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