Sangue a gotejar

Comovedor, constrangedor nas primeiras páginas da Bíblia, o sacrifício de Caim e Abel. Que oferta pobre. Alguns produtos da roça e um carneiro do rebanho. Destroem pelo fogo objetos que lhe são necessários para a existência na terra, querendo significar que estão devendo a Deus propriamente sua vida. A humanidade sentia-se culpada

Sua vida não era mais como devia ser pelo plano de Deus. Deus quis os homens, seres nobres, sem sofrimento, sem pecado, sem morte, felizes e imortais. Não mais o eram, por própria culpa. Tornaram-se fracos, inermes, expostos aos mil terrores de um mundo ainda desconhecido, pobres, forçados a reconhecer humildemente a própria miséria. Tornaram-se culpados, impelidos a invocar o Criador: Senhor, não merecemos mais o dom da vida; pois tornamo-nos incapazes de realizar teus desígnios.

Em vez da própria vida, a humanidade oferece o que a represente simbolicamente: alimentos, fruto da lavoura e carne dos animais. E ao derramar o sangue da vítima, o homem levanta os braços para o alto: ó Senhor, é minha vida que devia ser destruída; meu sangue é que devia ser derramado; já que serviu para te ofender. E no correr dos séculos, os homens, sentindo o pouco valor da expiação, multiplicaram as ofertas, matando centenas de animais num só dia. Até julgaram dever oferecer vida humana, sangue inocente de crianças e virgens, uma aberração pagã que continha um núcleo de verdade: só o sangue humano é digno.

Mas sangue inocente? Até a criança é culpada perante Deus (Rm 5,14). Todo este rio de sangue dos sacrifícios, através da história humana, foi uma súplica vã, até ser derramado o sangue do Filho de Deus.

Jesus satisfez plenamente ao amor e santidade divina ofendidos. Mas na cruz, Jesus fez o trabalho sozinho (“pisei o lagar sozinho e nenhum homem me ajudou”, Is 63,3), auxiliado pela Co-Redentora. Ora, na aplicação e distribuição dos frutos da redenção, os teólogos usam o termo técnico de redenção subjetiva, aí Jesus conta com a nossa colaboração.

Uma vez, na história da salvação, Deus exigiu justiça plena e Jesus “pagou”. E agora é a nossa vez. Não digo de tornar-nos co-redentores: nossa contribuição é tão insignificante!

Deixemos este título à Mãe do Redentor: ela o merece. Ela contribuiu realmente à redenção objetiva, à aquisição dos méritos no Calvário, onde nós brilhamos pela ausência, e, aliás, também como réus e culpados pela incapacidade de satisfazer. Somos muito honrados por podermos ser auxiliados na segunda redenção, servidores na distribuição das graças da salvação. Podemos, por mercê de Deus, oferecer-lhe nossos sofrimentos em prol do próximo e de sua salvação espiritual, numa expiação substituinte e suplementar.

A primeira tentativa de Jesus de procurar apoio humano na obra da salvação falhou. Na agonia do horto pediu duas vezes consolo humano aos apóstolos. Por fim, Deus mandou-lhe um anjo (Lc 22,43).

Teologia das realidades Celestes

Anúncios