Cristãos vítimas

São Paulo não somente se consagra a si próprio como vítima de expiação, mas anda à procura de outras vítimas, e faz um convite geral a todos os cristãos. Assim, a exclamação patética de Rm 12,1: “Rogo-vos, pela misericórdia de Deus, que oferteis os vossos corpos em holocausto a Deus”. Novamente em Ef 5,2: “Sigamos o exemplo de Cristo, que nos amou e se entregou a Deus por nós, como oblação e sacrifício de suave odor”. Está aqui a vocação universal e o convite a todos.

Lástima que a grande maioria se contente em usufruir os labores de Jesus Cristo. Cristianismo animal. São Paulo julga até que o fim de sua vocação apostólica e do seu ministério sacerdotal é buscar outras vítimas para Deus “para que os pagãos se tornem holocaustos de Deus” (Rm 15,16).

Aliás, está implícito na teologia paulina: imitar a Cristo, e isto num sentido total, isto é, também como vítima.

Não só a sua vida contemplativa em Nazaré. Não só a sua vida apostólica nos três anos de sua vida pública.

Mas também sua vida (e morte) de vítima expiatória da redenção, seu múnus supremo. Devemos seguir suas pegadas até o calvário, pois devemos crescer Cristo adentro (Ef 4,15).

Devemos deambular nele (Cl 2,6). Compenetrar-nos dos mesmos sentimentos de Cristo (Fl 2,5). Ele deve viver em nós e em nosso lugar (Gl 2,20).

Em Gl 6,2, manda cada um carregar o peso do outro.

Estaria excluído deste auxílio fraterno justamente o peso mais pesado, culpa e castigo perante Deus? Pois é, todavia, mais importante do que suportar o mau humor mútuo.

Assim também Jo 3,16 ganha outra perspectiva: “Nisto conhecemos o amor (de Deus) em que deu a vida por nós. Assim devemos também nós dar a vida por nossos irmãos”. Interpretar este texto no sentido do serviço militar, como foi feito, é chiste de mau gosto.

Nossa união com Jesus realiza-se pelo batismo. Ele nos torna carne de sua carne e osso de seus ossos, diz Ef 5,30. Ora, submersos na água batismal fomos “submersos na sua morte” (Rm 6,3); enxertados na sua paixão e morte de vítima de expiação. Cabe-nos portanto, nossa parte.

Seqüela de Cristo

São Pedro continua e até mesmo reforça a teologia paulina (I Pd 2, 5-9) ao dizer aos cristãos: “Vós sois sacerdotes… e vítimas de sacrifício”. E logo mais exorta os escravos cristãos mostrando que:

1. “Sofrer é graça de Deus” (2, 20 texto grego).

2. Faz parte da vocação do cristão: “A isto é que fostes chamados” (2,21). Vale para todos. Não somente para os escravos, grupo humano em que sofrer injustiça faz parte da profissão e das bem-aventuranças evangélicas de Lc 6,20-24.

3. É o exemplo de Cristo: “Porque Cristo também padeceu por vós, deixando-vos exemplo para que lhe sigais as pegadas” (2,21).

a) Jesus deixou “o modelo para copiar”; assim o texto grego: hypógrammos.

b) Deixou suas pegadas para o povo cristão segui-las.

E segue-as carregando a cruz de cada dia. Seguir, pois, o Cristo na totalidade de sua vocação, isto é, principalmente como vítima redentora, carregando junto com

Ele sua cruz, em expiação por nós e por nosso irmão. Imitação de Cristo perfeita é seqüela de Cristo até ao Calvário.

É convite para todos. É compromisso formal para o discípulo.

Teologia das Realidades Celestes

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