Concluindo

A idéia da expiação substituinte está em estado embrionário. A teoria, entenda-se. A prática espiritual deve ter agido por intuição e carisma.

A semente evangélica e paulina por fim germina, brota e torna-se árvore frondosa e florida no segundo milênio cristão, progredindo até seu auge na devoção ao Sagrado Coração. E por fim, a evolução espiritual dos séculos recebe a aprovação oficial do magistério, por Pio XI, em 1928.

Talvez tenha contribuído, para retardar esse desenvolvimento doutrinal, a reflexão de humildade mais que justificada: mesmo sendo pecador, como interceder perante Deus pelos semelhantes? Até que (a meu ver) Deus mesmo sugeriu aos carismáticos a expiação suplementar, convidando-os a colaborar, isto é, no caso, a “consofrer”…

Como desagravar e consolar Jesus na sua paixão, se nós todos pecadores somos a causa de seus males?…

Até que o amor sobrepuja os receios da própria indignidade.

Assim o segundo milênio, suscitando a devoção à Paixão, às Cinco Chagas, ao Coração de Jesus, abriu caminho. Quero crer que esse embaraço doutrinal se deva atribuir também à falta de literatura mais autobiográfica.

Falta a literatura espiritual introspectiva até o início da Idade Média. Antes temos quase só alguns poucos tratados teológicos e a grande massa de sermões populares, sermões paroquiais, que não perdem tempo com alta mística.

Os sermonários populares dos Santos Padres preferem ser realistas e cuidar dos fundamentos da vida espiritual.

Logo que surge uma literatura eclesial mais introspectiva, aparecem informações abundantes sobre expiação e almas vítimas. Haja vista, Inês de Viterbo, +1252, a francesa Lidwina, a beata Alpais, +1211.

Um texto casual de São Gregório Mago, +604, (Cartas 26): Roma conta com três mil religiosos “e sua vida é tal que às suas lágrimas e abstinências rigorosas” devemos a graça de Roma não ter sido invadida pelos longobardos.

Se Deus atualmente recorre ao regime de vítimas convocadas por ele, tal deve ter sido a economia de salvação também no primeiro milênio, mas ficou tudo encerrado no segredo do coração das almas santas e eleitas.

Tem a feliz idéia de aproveitar o trabalho já feito… e feito por quem pode… isto é, de aproveitar a paixão de Jesus. Antecipou mesmo o elevador de Sta. Teresinha.

Escreve: “Desde o início da minha conversão, irmãos, em vez de méritos que, eu o sabia, me faltavam, recolhi e segurei sobre meu coração este buquê de mirra formado pelas angústias e amarguras de meu Senhor. Eu pus ali primeiro as privações de sua infância. Depois, os labores de suas pregações, as canseiras de suas caminhadas, as suas vigílias noturnas em oração, suas tentações e jejuns no deserto, suas lágrimas de compaixão, as traições das disputas, os perigos de falsos irmãos, os insultos, cuspidas, bofetadas, caçoadas, batidas e tudo quanto sofreu, na floresta das suas dores, pela salvação do gênero humano.

Julguei não dever esquecer a mirra que bebeu na cruz… a amargura dos meus pecados…

Por toda a minha vida lembrar-me-ei da sua abundância e suavidade, e não esquecerei jamais seus gestos de misericórdia que me deram a vida”

São Bernardo dá-nos a primeira referência clara do valor redentor do sofrimento. Exorta seus monges: “Deveis molhar, com vossas lágrimas, todo bocado de pão que tomais. Entramos neste mosteiro para chorar as nossas culpas e as do povo. Comendo o pão que os fiéis nos dão, nós comemos seus pecados para chorá-los como se fossem nossos”. Assim São Bernardo ressuscitou o texto de São Jerônimo, dando-lhe um sentido inequívoco de penitência expiatória suplente; só falta a referência à Paixão.

Esta ligação fez, no século seguinte, uma sua discípula,

Sta. Lutgarda, Ord. Cist., 1182-1246.

, que não perdem tempo com alta mística.

São Bernardo

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