Evoluindo a tradição eclesial, mais por intuição carismática do que especulação teológica, aprofundou o problema. Distinguiu entre redenção objetiva e redenção subjetiva, sendo a primeira realizada por Jesus sozinho, em super-abundância.

 Na segunda, na distribuição da graça, Jesus pode admitir e de fato pede colaboradores.

A idéia da expiação suplementar pelos pecadores, em união com Cristo padecente, progride e recebe cada vez mais colaboradores voluntários e generosos. O clarão fugaz bernardino que iluminou o horizonte por um momento (Vandenbroucke) a partir do século XIII, faz-se arco-íris da paz. Chegou seu kairós.

Sta. Lutgarda penitencia-se pelos pecadores e propaga a devoção ao Sagrado Coração. Ângela de Foligno, +1309, preconiza a devoção ao sofrimento, seguindo as pegadas de São Francisco. Aliás, já meio século antes, sua patrícia e irmã terceira, Sta. Inês de Viterbo, +1252, reconhece-se vítima expiatória pela Igreja ameaçada pelo imperador gibelino Frederico II.

Alma vítima em sentido formal é Sta. Catarina de Sena. Diálogo, Cartas e vida dão testemunho. Aos sete anos começa por tomar três disciplinas por dia; a primeira por si, a segunda pelos pecadores, a terceira, pelas almas do Purgatório. Ainda na última carta a Raimundo escreve: “Ó Deus eterno, aceita o sacrifício da minha vida pelo corpo místico da santa Igreja”.

Também no norte europeu desse século, estão a florir as rosas da paixão: Henrique Suso, OP, e se saboroso livrinho da Eterna Sabedoria, e Tauler, em seus sermões da mais sublime espiritualidade.

E começou a procissão dos estigmatizados: visíveis e invisíveis. Sta. Catarina traz as marcas de Jesus. O Crucificado torna-se o grande modelo a meditar e a copiar.

Sto. Inácio de Loiola coloca o pecador perante o crucifixo: “Que fiz eu por ele? Que farei?”

Pascal presenteianos com a famosa sentença: “Jesus está em agonia até ao fim do mundo? Não se deve dormir durante este tempo”.

Embora desagravo e reparação expiatória não lhe pudessem interessar, como jansenista que era; estava predestinado, e bastava agradecer a Deus.

É lei da economia salvífica da Redenção que “Jesus, por não poder mais sofrer, se faz substituir por seus amigos” (MATILDE DE HELFTA, Obras, 36).

Como remate final, o texto grandioso e gracioso de Sta. Gertrudes de Helfta: “Metade do Corpo Místico de Cristo Jesus está coberta de vestidos ricos, com todo o luxo; a outra metade está nua, coberta de feridas e escaras, representando os imperfeitos. E Nosso Senhor deseja que suas feridas sejam tratadas e curadas. E curadas com mãos macias e suaves, não à ferro e fogo” (3, 69).

As graças do corpo místico de Jesus são bens comuns, intercomunicáveis (3, 69).

Ampliando a alegoria, veremos na visão que a maior parte do Cristo místico só veste chita barata. É raro o vestido de púrpura, do flamejante amor de Deus.

Teologia das Realidades Celestes

Anúncios