Archive for dezembro, 2010


Matilde de Magdeburgo

“Deus mostrou-me a chaga do seu coração dizendo: vê o mal que me fizeram”.

Matilde de Helfta

Jesus aparece-lhe no altar, de braços estendidos, jorrando sangue por todas as chagas, para aplacar. Maria Santíssima chama a monja: “Aproxima-te e saúda a chaga do coração amantíssimo”.

“Ao abrir-se o costado pela lança, brindei refresco de vida de meu próprio coração a todos aqueles que, pelo pecado de Adão, tragaram o porção de morte, para que se tornem filhos da vida eterna”.

“Deposita todas as tuas penas em meu coração. Eu lhes darei a perfeição mais elevada possível. Eu as unirei à minha Paixão e participarão da minha glória…”

“Confia cada uma de tuas penas ao Amor’.

“Para reparar tuas negligência e reaver o tempo perdido, saúda meu coração, fonte de todas as graças”.

Matilde viu o coração de N. Senhor qual uma chama de fogo. E Jesus lhe diz: “Assim queria que todos os corações ardessem em chamas de amor”.

“Oferece-me, cada manhã, o teu coração para que eu derrame nele meu divino amor”. “Minha bem-amada, por que estás triste? Tudo o que é meu, é teu”. “Ah, se é assim, de verdade, então teu amor é meu… ofereço-te este amor para suprir minha falta”.

E Jesus ensina a dizer: “Jesus, eu te amo; completa por favor o que falta…”. “E se mo disser mil vezes por dia não ficaria aborrecido ou cansado”.

Gertrudes de Helfta

Recebeu a ferida do amor. Recebeu a troco de corações.

Recebeu estigmas invisíveis Jesus prende sua mão direita à chaga do seu coração.

“Eis, aqui tens o meu coração, a lira da Santíssima Trindade… Podes pedir-lhe com confiança que supra por ti… meu coração está sempre diante de ti, à tua disposição, para suprir a qualquer hora tuas negligências”.

Estando impedida pela doença de cantar no coro, Jesus a substitui: “Tu cantaste muitas vezes por meio do meu coração. Por isso vou pagar-te com a mesma moeda; cantarei por ti”.

Século XV

No século XV o culto ao Sagrado Coração de Jesus é devoção popular. Mas sobreveio a revolução religiosa, qual uma geada. Sobreveio o tenebroso jansenismo. Jesus julgou necessário revelar de novo à cristandade a sua bondade, sua misericórdia, seu amor que vence de longe a justiça e a santidade tétrica do jansenismo.

E Jesus escolheu Sta. Margarida Alacoque.

Teologia das Realidades Celestes

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SAGRADO CORAÇÃO

“Abriu-lhe o lado com uma lança” (Jo 19,34)

A chaga do Coração de Jesus, da qual nasceu a Igreja e os seus sacramentos, da qual jorram todas as graças da salvação, simbolizada pela costela de Adão, da qual saiu a mãe de todos os viventes, sempre teve seus devotos.

Figure aqui o mais belo texto (de Sto. Agostinho, in Joannem , 120): “O evangelista serviu-se de uma palavra atenciosa. A fim de não dizer: transpassou ou feriu, escreveu “abriu o seu lado” (Fazendo ver que) aí se descerrou como que a porta da vida, da qual jorraram os sacramentos da Igreja, sem os quais não há acesso àquela vida que é a verdadeira.

Aquele sangue foi derramado pela remissão dos pecados, e aquela água mistura-se ao cálice da salvação. É lavacro e bebida. Foi pré-figurado pela porta que Noé foi mandado fazer no lado da arca, pela qual entraram os seres que não deveriam perecer pelo dilúvio, figurando a Igreja.

 Por isso, a primeira mulher foi feita do lado do homem adormecido, e foi ela chamada vida e mãe de todos os viventes… O segundo Adão adormeceu de cabeça inclinada, a fim de criar-se uma esposa (aIgreja) que jorrou do costado do adormecido. Ó morte que faz reviver os mortos! Que sangue é mais imaculado que este? Que chaga mais salutar que esta?” 

No segundo milênio São Bernardo, penetrando, encontrou o Coração de Jesus visível e acessível, através da chaga aberta. Seus filhos, os teólogos de Cister, inauguraram o culto do Coração de Jesus. Os místicos seguiram-nos de perto (Guerricus, Drogo).

Sta. Lutgarda, +1245, ainda jovem colegial e interna na abadia, aguarda a visita de um pretendente, quando surge de repente ao seu lado Jesus Cristo, mostrando-lhe a chaga do lado e dizendo-lhe: “Não procures mais os devaneios da afeição de uma criatura; eis aqui o que deves amar e como deves amar”.

Anos depois, já consagrada a Deus pelos votos solenes, receberá de Deus o dom de curar doenças. A afluência de doentes causara-lhe numerosas distrações na oração. Queixou-se a N. Senhor; “Para que serve esta graça que me atrapalha tantas vezes de unir-me a Ti?”

“Teu coração, Senhor, eu quero teu coração”. “E eu também, responde Cristo, eu quero o teu”. “Assim seja, Senhor!”.

Tiveram papel importante na propagação do culto ao Sagrado Coração de Jesus as monjas de Helfta, as duas Matildes, a de Magdeburgo e a de Helfta, e Gertrudes.

Para elas o Coração de Jesus é sede do amor divino, é fonte de graças de redenção, é suplente de todas as nossas deficiências, é expiação de nossas faltas, dá valor às nossas obras É centro ao redor do qual gira a vida espiritual, e oferecimento ao Pai do coração do Filho predileto.

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Sta. Teresinha

Sta. Teresinha foi inscrita na confraria aos doze anos. Viveu sua vida conventual sob a égide da Santa Face. É seu segundo nome adotivo. “Tua face é minha única pátria”. Introduziu suas noviças nesta devoção. Levou consigo até à morte uma foto e uma mecha de cabelos da irmã Maria de São Paulo.

Maria Pierina de Micheli, 1890 – 1945

Deus dignou-se mandar, neste século, mais uma apóstola da Santa Face: talvez numa reposta antecipada à teologia da morte de Deus. Aos doze anos, esperando na fila do beijamento da cruz, na sexta-feira santa, Pierina ouve a voz de Jesus: “Ninguém se lembra de dar-me um beijo na face para reparar o beijo de Judas”.

“Custe o que custar: nem uma só gota de sangue de Jesus deve ser inutilmente derramado”. Rezando no noviciado, perante um crucifixo, Jesus lhe diz: “Beija-me”. E ao beijá-lo, em vez do gesso, sente o rosto de Jesus.

“Desejo que a minha Face seja mais honrada…

Quem me contempla, me consola”. “Por meio da minha Face as almas participam dos meus sofrimentos, sentem a necessidade de amor e de reparar. E não é isto a verdadeira devoção ao meu coração?” “Minha filha dileta, renovo-te a oferta da minha Face, para que incessantemente a ofereças ao Eterno Pai. Com esta oferta obterás a salvação e a santificação de muitas almas. E quando a ofereceres pelos meus sacerdotes, operar-se-ão maravilhas”.

“Contempla minha sagrada Face e penetrarás nos abismos de dor de meu coração. Consola-me, e procura almas que se imolam comigo pela salvação do mundo”.

Maria Santíssima: “O mal está propagando-se. Os verdadeiros apóstolos são poucos. É necessário um remédio divino, e esse remédio é a Santa Face de Jesus.

Visita o Santíssimo Sacramento todas as terças-feiras para desagravar”. Jesus: “Vês como sofro. E são pouquíssimas as almas que me compreendem. Quanta ingratidão recebo daqueles mesmos que dizem me amar. Dei ao mundo meu coração como figura visível do meu amor pelos homens.

Agora dou minha Face como figura visível da minha dor pelos pecados da humanidade… quero a comunhão reparadora na terça-feira do carnaval”.

“Quero que minha Face seja honrada de modo especial às terças-feiras”.

“Queres participar da agonia do meu espírito no Getsêmani, por causa dos pecados dos meus filhos mais queridos, pelas recusas que recebo de tantas almas religiosas?”

Meditando sobre Jesus coroado de espinhos: “Queres participar de minha dor para reparar os pecados de soberba das almas que me são consagradas? Se soubesses quantas são e como elas me ferem! ‘Desejo-o tanto’.

Jesus respondeu: ‘Isto me basta’, e deixou-me o céu no coração”.

Teologia das Realidades Celestes

6. “Pela Santa Face obtereis a salvação de muitos pecadores”.

“Cada vez que ofereceis minha face ao meu Pai, minha boca pede misericórdia”. Salvar a própria alma é fácil.

E vai num instante. Um ato de amor e a graça divina já invade e inunda a nossa alma.

Salvar os outros é um caso diferente. Custa. Mas por quê? Deus não é Onipotente? Sim, mas ele não quer escravos forçados em seu reino. E se a graça de Deus convida cada dia dez, vinte ou cem vezes, o homem é capaz de responder cem vezes não. Até o raio quente do sol divino derreter o gelo de um coração humano, demora, demora. Há corações supergelados.

Cabe aos devotos da Santa Face dirigir os raios da face luminosa do Salvador até o coraçãozinho começar a esquentar devagar e se entregar cativo ao amor divino.

A conversão de um pecador é obra maior que a criação do mundo inteiro (F. W. Faber)

Ouçamos o repicar dos sinos e o júbilo festivo dos anjos e bem-aventurados com a conversão de um pecador.

7. “Por esta oferta nada vos será recusado. Se soubésseis quão grata é ao Pai a vista da Santa Face do seu Filho!”

Portanto, peçamos o dom de crescer sempre mais, Deus adentro, no amor, na entrega total, na disponibilidade completa à vontade de Deus. Renovemos e repitamos sempre o Fiat: Eis a tua serva; faça-se a tua vontade em tudo e sempre.

8. A Santa Face é a moeda do reino do céu. Com a moeda gravada com a efígie do príncipe pode-se comprar tudo: assim também com aquela moeda celeste.

Tratemos pois, de encher a carteira com as moedas do reino, e poderemos comprar tudo. Tudo mesmo? Riquezas?

Não, Deus te livre! É um perigo. Saúde? Mas para que? Sofrer é mais útil para os dois, para Deus e para você. Pede graças do céu. Pede para degelar o coração tão frio, tão egoísta e enchê-lo com o fogo do amor de Deus. Pede coisas que duram para sempre. Pede graças que te acompanharão até o além, na vida eterna.

9. “Quanto mais cuidado tiverdes em consolar e desagravar o rosto insultado do Salvador, tanto mais ele restituirá à nossa alma, desfigurada pelo pecado, a beleza primitiva, a inocência batismal”.

Que consolo! Que gentileza da misericórdia divina esta oferta generosa do Redentor! Corramos a essa oficina de conserto, a esse salão de beleza, segurando na mão o bilhete premiado: a imagem do Cristo insultado, coroado de espinhos.

10. “Os que contemplam as feridas da minha Face, um dia irão vê-la radiante de glória”. “Os que defendem a minha causa, defenderei também a sua perante o Pai e dar-lhes-ei o reino. Não morrerão da morte eterna. Enxugarei a face de suas almas, apagando as manchas do pecado, restituindo-lhes a pureza batismal”.

Eis, pois, uma regeneração perfeita e um sólido passaporte para a viagem do tempo para a eternidade.

A devoção à Santa Face consiste, em primeiro lugar, em consolar a Jesus pelas injúrias sofridas manifestando nossa compaixão. Em segundo lugar, consiste em louvar, abençoar, santificar o nome sagrado de Deus e do seu Unigênito, em desagravo das blasfêmias que os ímpios lhe lançam em rosto.

Consiste, em terceiro lugar, em oferecer a Sagrada Face ao Pai Eterno. Entende-se oferecer os sofrimentos do Salvador, infligidos durante a paixão ao seu rosto, sofrimentos físicos e morais, ferimentos, insultos e tudo sobre o fundo da coroa de espinhos.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting

 A Sagrada Face

Convidamos as criaturas humanas a prestar o tributo de admiração ao mais belo dos homens, o Filho da Virgem Maria. Convidamos todo o orbe e expiar os insultos que o rosto sagrado do Filho de Deus teve de suportar, da sexta-feira santa até aos dias de hoje, insultos cuja crueldade está estampada no rosto do Santo Sudário de Turim.

O convite para expiar parte de Jesus em pessoa, e traz consigo gratas promessas de amor e gratidão de graça e de glória.

1. Sta. Gertrudes de Helfta ouviu da boca de Jesus: “Os devotos da Santa Face serão transformados numa imagem viva da minha Divindade”. “Quando dois rostos se defrontam, surge um silêncio, porque duas eternidades se antolham” (Piccard).

Quanto mais se estamos diante da Face de Cristo. Os olhos são reflexos, revérberos do mistério da existência, do mistério do destino. E os olhos do Salvador refletem os fulgores da visão eterna. No fundo da alma, dizem os místicos medievais, tremeluz uma centelha divina; está gravada desde o batismo a semelhança divina, a face da eterna divindade.

No rosto de todos os santos brilha a face de Jesus, seja luminosa como o Tabor, seja purpurada como o horto das Oliveiras.

2. Sta. Matilde, a grande amiga de Sta. Gertrudes, pediu, num arroubo espiritual, por todos aqueles que adoram o doce semblante do Salvador, e Jesus afirma: “Nenhum deles ficará separado de mim”. Terá, portanto, a graça de contemplar, na glória, a Face Sagrada, por toda a eternidade.

3. Maria de São Pedro: “Nosso Senhor prometeu, aos que venerarem a Santa Face, imprimir-lhes na alma a face de sua divindade”, diz irmã Maria de São Pedro, 1844.

Como Verônica, ao enxugar o rosto de Jesus, recebeu impressa a imagem de Cristo, assim Jesus gravará em nossa alma sua Santa Face, tornando-nos semelhantes a ele.

4. “Meu rosto é como a marca, o selo da divindade, que transforma as almas cada vez e de novo na imagem de Deus”. Felizes, pois, as almas que se fazem carimbar,

impregnar sempre mais, da divindade.

5. “Por minha Santa Face fareis milagres? Para quê?

Mais vale cumprir a vontade de Deus”. “Não interessa?”

“Oh!, interessa, sim!” Veja o ponto seguinte: milagres para

converter os pecadores.

 Dois anos depois, em 1845, Jesus empenha-se mais a fundo e revela sua face, alvo das blasfêmias; pede-lhe que seja uma Verônica amorosa a enxugar-lhe a face ensangüentada e insultada.

“Estou procurando Verônicas para enxugar e adorar minha face divina”. A visão não foi imaginativa. Tendo visto pinturas, também do quadro (dito) de Sta. Verônica, não soube dizer se era semelhante ou não.

Os blasfemadores foram mordidos pela serpente e pegaram a raiva; o remédio, a vacina, é olhar a face de Cristo Jesus.

A humilde porteira do Carmelo oferece, inúmeras vezes, sua humilde homenagem à santa face de Jesus e exclama num arroubo; “Apertemos estas feridas divinas, e o sangue precioso correrá em abundância sobre os pecadores”.

 Jesus reafirma-lhe sempre de novo: “Pela santa face conseguireis a salvação de muitos pecadores”. Ela nos conta um segredo: “Eu acompanho a Santíssima Virgem, como sua empregadinha, junto àqueles que viajam do tempo para a eternidade”. Jesus; “Eu te seguro nas minhas mãos como uma flecha. Agora vou lançar essa flecha contra os meus inimigos. Para combatê-los dou-te como armas a minha paixão, os instrumentos do meu suplício.

As armas dos meus inimigos causam a morte; as minhas, dão a vida”.

“Se tu soubesses a vantagem para tua alma de sofrer estas penas, agradecer-me-ias por tê-las dado. Bem mereceste estas penas, por tuas infidelidades. Mas não é para castigar, é por bondade que te dou estes sofrimentos”.

“Estes blasfemadores cortaram-lhe o coração, e fizeram dele um segundo Lázaro coberto de chagas. Jesus convidou-me a imitar os cães que consolavam o pobre, lambendo-lhe as feridas. Render-lhe-ia um grande serviço empregando minha língua a glorificar todos os dias o santo Nome de Deus desprezado e blasfemado”.

“Nosso Senhor fez-me ver a multidão de almas que caem continuamente no inferno, convidando-me a socorrê-las… é obrigação de toda alma religiosa. Sua misericórdia abriria os olhos destes pobres cegos, se almas caridosas pedissem por elas graça e misericórdia. Disse-me N. Senhor que, assim como Ele vai pedir conta aos ricos pelos bens temporais que lhes confiou para socorrer aos  pobres, com maior severidade pedirá contas a uma carmelita, a uma alma religiosa, rica de todos os bens de seu esposo, possuindo os tesouros dos méritos de sua vida e de sua Paixão, pelo uso que deles fez; verificará se soube haurir nestes tesouros para os pobres pecadores”.

Jesus: “Enquanto o homem está na terra, está num estado de infância. Por esta razão deve, como criança pequena, recorrer sem cessar à mãe”.

Os últimos dois anos introduzem a irmãzinha no mistério da maternidade espiritual, como colaboradora, associada da Mãe dos homens, que é a Co-redentora das almas pecadoras, justamente com seu divino Filho. A última intervenção de Jesus é um apelo angustiante, em 1848:

“A Igreja está ameaçada por terríveis tempestades… reza… reza… Ensinou-me a rezar aquela prece que ele rezara na quinta-feira santa: “Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me destes” (Jo 17,11).

O fim de 1847 e o ano de 1848 passa em purificação e provações místicas e expiatórias. Em março de 1848 ouve Jesus dizer-lhe: “Logo verás minha face no céu”. A 8 de julho de 1848 morre feita imagem do Crucificado, do seu amor, uma chama só, o corpo inteiro.

Teologia das Realidades Celestes

Palavras finais

“A ciência do amor é dada à alma que contempla o crucificado… É mister copiar-me. Todos os pintores fazem retratos mais ou menos conformes o original. Mas aqui sou eu o pintor, e faço minha imagem em vós, se ficais olhando para mim… Queria ver todas as minhas esposas transformadas em crucifixos”.

“Minha filha, tenho milhares de almas favoritas. E sou único para cada uma delas. É um segredo de amor que ficará unicamente entre esposo e esposa durante a eternidade”.

“Bom Mestre, o que vais encontrar em meu miserável coração?”

“Encontrarei tudo o que eu coloquei lá dentro; e encontrarei também tuas faltas para destrui-las”.

Tendo visto seu lugar no céu, Marta pergunta: “Bom Mestre, mas não há nada em mim que me impeça de chegar ali?” Jesus: “Ora, se há! Mas o amor apaga tudo”.

Deseja morrer: “Jesus, aqui na terra a gente está sempre exposto a ofender-te”. “Minha filha, o amor apaga tudo.

Quando vindes ter comigo com amor, não reparo mais em vossas faltas. O amor apaga tudo”.

“O amor purifica tudo. Bom Mestre, é só por hoje que estarei purificada?” “Não filha, a alma é purificada toda vez que ela ama com amor forte. Mas deve ser amor verdadeiro, puro e desapegado de tudo”.

“Minha união contigo é teu único bem”.

 2. A SANTA FACE

“Sua face resplandecia como o sol” (Mt 17,2).

“Cuspiram nele, cobriram-lhe o rosto, deram-lhe bofetadas” (Mc 14,65).

“Veremos face a face” (1 Cor 13,12).

Irmã Maria de São Pedro: 1816 – 1848 Nove anos de vida conventual. Morre, aos 32 anos, no Carmelo de Tours. Costureira de Rennes, aborreceu-se de passar a vida fazendo roupas para sustentar vaidades.

Foi recebida no Carmelo de Tours como irmã leiga. Terminando o noviciado, ficou porteira até a morte. Quis ser a empregadinha, ou melhor, o burrinho da Sagrada Família, lastimando que Jesus tivesse tido necessidade de pedir emprestado o burrinho até para a sua procissão de ramos. Mas de agora em diante teria sempre um ao seu dispor. Conta que no noviciado os seus dias eram “uma só peça de oração”: sucesso que tentou manter também na portaria e parece que com sucesso.

Ainda postulante, Jesus vem pedir os serviços do seu burrinho. Mostrou-lhe a multidão de almas que caem no inferno, e pediu-lhe que lhe cedesse, em favor dos pecadores, todos os seus méritos. Em troca, ele mesmo iria ter cuidado dela, e a faria participar dos seus méritos.

 A superiora, porém, não quis dar autorização para esta oblação total; só emprestaria a Jesus o seu burrinho. Mas quatro anos depois, quando a irmã já era professa, concordou em vender o burrinho em troca de terreno e capital para a necessidade de transferência e reconstrução do Carmelo.

Uma vez feito vítima, Jesus encarregou-a de fundar uma arquiconfraria de orantes em desagravo às blasfêmias contra o santo nome de Deus. Fundada com aprovação pontifícia de 1847.

Lúcifer em pessoa, diz-lhe Cristo, guia os blasfemadores; são seus prediletos. As blasfêmias ferem o coração de Jesus como flechas douradas [?] que o ferem com prazer.

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2. A SANTA FACE

Cumpre tua missão

Irmã Marta foi nomeada missionária e seu campo de ação abrangeu o orbe, desceu até o Purgatório. Freqüentemente insistia Jesus que ela cumprisse bem fielmente sua missão. “Minha filha, deves cumprir a tua missão, que consiste em oferecer ao Pai do céu as minhas chagas, porque a vitória final da Igreja será realizada através desta prática e por intermédio da Imaculada”…

“Tira, tira sem cessar destas fontes a fim de que a Igreja alcance plena vitória… A Igreja nunca terá um triunfo visível. Sabe: a vitória final da Igreja consiste na salvação das almas”.

Numa visão panorâmica do mundo, vê a multidão dos pecadores: “Eu te os mostro a fim de que não percas teu tempo”…

“As santas chagas: eis com que pagar por todos que têm dívidas”…

Jesus insiste no apostolado: “Vamos dois a dois. Vem, ajuda-me a colher muitas almas. Vamos sempre lado a lado. Vem com um coração vazio, eu saberei enchê-lo. Vem, para ganhar almas. A grande miséria do século é que há tão poucos que se salvam. Deveis pedir pelos pecadores sem cessar…

A justiça divina está prestes a castigar o mundo pecador. Para o mundo ser regenerado seria necessária uma segunda redenção.” Mas intervêm o Pai Eterno: “Não posso crucificar meu Filho mais uma vez”.

Irmã Marta sentia que através das santas chagas podemos realizar esta segunda redenção.

A comunidade de suas irmãs começara a rezar o terço das chagas pelos pecadores, e Jesus mostrou-se agradecido. “A cada palavra que as Irmãs pronunciam no terço da misericórdia, deixo cair uma gota do meu sangue sobre uma alma pecadora. Cada vez que vós apagais pecados por meio das minhas chagas, estais fazendo obra maior que Verônica: enxugar e limpar meu rosto foi fácil; tirar os pecados é bem mais difícil”.

“É dever dos religiosos, de um modo especial, salvar almas por suas orações, sacrifícios e pela observância regular”.

Jesus ensina uma oração forte: “Se um pecador recitar com humildade: ‘Pai Eterno, ofereço as chagas de N. Senhor Jesus Cristo para curar as chagas da minha alma’, ele se converterá”.

Hora decisiva é a hora da morte. Para tantos é a graça da salvação. Jesus pede: “Deves oferecer, muitas vezes ao dia, o mérito de minhas chagas por aqueles que morrem naquela noite ou no decorrer daquele dia… Para a alma que morre nas minhas chagas, não há morte. Minhas chagas dão vida eterna… O caminho das minhas chagas é caminho tão simples e tão fácil para o céu”.

Também as almas do purgatório se beneficiam com as chagas de Jesus. Ele muitas vezes mandou almas do Purgatório para junto da Irmã Marta, a fim de lhe pedir o oferecimento das chagas. E depois retomaram agradecidas o caminho para a glória. Certa vez, doente, de cama, Marta viu que a cada oferecimento, uma alma subia ao céu. Na Via-Sacra recebeu a mesma graça, uma alma libertada em cada estação. Diz-lhe Jesus: “Cada olhar compassivo sobre minha paixão liberta cinco almas do purgatório”.

Teologia das Realidades Celestes

Aula Celeste

“Bom Mestre, diz Marta com simplicidade, ensina-me o catecismo”. E Jesus aceita: “Vai à tua casa (o Coração de Jesus) e serei teu Mestre, ensinando-te como te sacrificar por mim e pelo próximo”. Depois entregou-lhe o manual de aula explicando; “O crucifixo é teu livro. Toda a ciência está encerrada no estudo e na meditação deste livro. Os meus santos lêem neste livro por toda a eternidade”.

Uma aula em resumo:

1. “Considera minha coroa e verás a mortificação.

2. Considera como estou desnudo na cruz e aprenda a pobreza e a pureza do coração.

3. Considera a chaga do meu coração e aprende de mim, e encontrarás a mansidão e humildade.

4. Considera meus braços abertos e aprenda a obediência.

5. Vê-me todo coberto de feridas. Na cruz fixei minha atenção não nos algozes, nem em suas blasfêmias, mas só em meu Pai. Assim, vós também deveis cumprir o vosso dever, e fazer o que eu quero, sem respeito humano, olhando para meu Pai.

6. A única ciência é a ciência do amor. Esta não se tira dos livros. Somente a recebe a alma que medita sobre o crucifixo e com ele conversa”.

Maria Santíssima também dignou-se ser sua professora: “Filha, tenho tanta fome de almas. Se soubesses, quanto eu e meu Filho desejamos a sua salvação! Por isso, reza, reza muito pelos pecadores. Assim alivias e consolas meu coração de mãe”…

“Se quereis dar-me alegria, deveis colocar-vos aos pés da cruz de meu Filho, e humildes oferecer ao Pai os seus méritos, em satisfação dos pecados dos homens”.

E ainda uma breve aula do Pai do céu: “Filha, deves humilhar-te muito no trabalho; e pelo

oferecimento contínuo das santas chagas do meu Filho, deves completar o que falta na reparação e desagravo da justiça”.

A aluna interrompeu a lição exclamando: “Ó meu bom Pai, se pudesse, ficaria já convosco”. E a resposta consoladora também para nós: “O que farias no céu, senão oferecer continuamente as chagas do meu Filho? É a tarefa dos santos na glória. Eis que é também a vossa na terra”.

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“Por voto obrigou-se Marta a oferecer as chagas a Deus Pai, ao menos de dez em dez minutos, pela conversão dos pecadores, pelo triunfo da Igreja, pelas almas do Purgatório. De fato, foi sua prece, interrompida apenas pelos êxtases. Inúmeras vezes subiu ao céu a prece ardente:

“Pai eterno, eu te ofereço as chagas de N. Senhor Jesus Cristo para curar as chagas das almas. Perdão e misericórdia pelos méritos das santas chagas”. Se o seu fervor arrefecia um pouco, Jesus em pessoa encarregava-se de reclamar, em queixa amorosa: “As minhas chagas estão sempre olhando para ti, mesmo que tu as esqueças…

Estão sempre frescas; é preciso oferecê-las como da primeira vez. Já tas mostrei tantas vezes. Devia ser o suficiente. Mas não, tenho de inflamar o teu zelo sempre de novo”. E apresentou-se no lastimável estado a que o reduziram os pecados.

Certa vez, Jesus mostrou-se com uma coroa de três fileiras de espinhos grossos, espetáculo tão doloroso, que Marta não pôde conter-se e exclamou: “Jesus, deixa-me ter parte também”. Imediatamente, foi atendida.

Outra vez, Jesus apresentou-se novamente na sua vestimenta de dor e repetiu: “É preciso copiar-me”. Pouco depois, Jesus como que pede licença: “Minha filha, queres ser crucificada ou preferes ser glorificada?” A resposta generosa do amor; “Jesus, prefiro ser crucificada”.

No retiro de 1868, Jesus lhe diz: “Retira-te para o interior de teu coração e fecha a porta. Queremos estar sozinhos”.

Ao deitar-se de noite sobre o chão, com os braços em cruz, ouve Jesus dizer-lhe: “Dize-me agora: Jesus, eis a tua vítima”. Mas diante da cruz oferecida, a natureza humana se revolta. Até meia-noite durou a luta.

Jesus insiste fazendo ver as torturas de sua paixão até ouvir o fiat. “Filha, tua superiora te deu como livro de retiro o crucifixo, eis-me aqui”. Marta passou a noite toda nesta visão dolorosa. “Tu és mártir. Prepara-te para receber todas as minhas chagas, uma após outra”.

Irradiando

Jesus escolhera sua comunidade para irradiar e iniciar a devoção às cinco chagas. “Filha, não penses que posso ficar surdo às almas que invocam minhas chagas.

Não tenho o coração ingrato das criaturas humanas. Meu coração é grande. Meu coração é sensível. A chaga do meu coração abre-se em toda sua largura para bastar a todas as vossas necessidades”.

“Para contemplar bem as chagas de Jesus, diz-lhe Maria Santíssima “é mister não ter nenhum apego no coração”.

Premidas pelas instâncias de Jesus e por suas promessas, as superioras introduzirem a Hora Santa em louvor das cinco chagas, feitas todas as sextas-feiras por cinco voluntárias, e a recitação diária do terço das chagas.

Houve oposição; e se soubessem que na origem de tudo estava a Irmã Maria Marta, irmã leiga e analfabeta, teria havido ainda mais. Jesus mandou perseverar no empenho. “Mas se quiserem, posso escolher outro mosteiro”.

Uma irmã, cuja inteligência fazia autoridade, liderava a oposição. Então Marta, em nome de Jesus, transmitiu-lhe um segredo entre Jesus e ela, que somente ela podia saber. Surpresa, convenceu-se da origem divina e tornou-se defensora infatigável e propagandista das chagas de Jesus.

E Jesus a renovar suas promessas: “Minhas chagas são vossas… Quanto mais e maior a contradição, quando mais numerosas os empecilhos, tanto mais ricas correrão minhas graças”.

E as almas das religiosas tornaram-se conchas abertas de incenso. Jesus aprova o louvor: “Alegra-me ver como estais venerando as minhas chagas. Agora, posso repartir com mais abundância as graças da redenção”…

“Vossos mosteiros atraem as misericórdias de Deus sobre as dioceses em que se encontram. Quando ofereceis minhas chagas ao meu Pai, eu contemplo com satisfação vossas mãos levantadas ao céu… E alcançais tudo aos necessitados da graça… Senti-vos felizes; pois eu vos ensinei uma oração que me desarma e vence: ‘Meu Jesus, perdão e misericórdia pelos méritos das vossas santas chagas’. As graças que estais recebendo, por esta prece, são graças de fogo; vêm do céu e retornam ao céu”.

Teologia das Realidades Celestes

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