Archive for janeiro, 2011


Jesus nasceu para ser sacerdote (Hb 10,5). Por ser sacerdote é que nos redime, nos santifica, nos merece a graça e a salvação. Cristo é sacerdote substancialmente; sua ação suprema é sacerdotal: o holocausto no Calvário.

Toda graça de Cristo implica numa consagração sacerdotal.

Não há graça cristã que não seja sacerdotal.

Cristo está rezando missa durante o dia todo, oferecendo-se.

A vítima imita-o. Almas vítimas e sacerdotes, vivam em missa perene com Jesus, numa oblação sempre renovada, doação total, heróica, sem cessar e sem retomar o presente dado. Até ao “aniquilou-se” (Fl 2,7).

O sacerdote não se deve contentar em ser funcionário litúrgico. O Concílio, PO 13, convida-o a um new look de sua missão. “Os presbíteros representam a pessoa de Cristo que se ofereceu com vítima pela santificação dos homens; por isso eles são convidados a “imitar o que fazem”; e, como celebram o mistério da morte do Senhor, procurem mortificar seu corpo abstendo-se dos vícios e concupiscências”. Se todo o povo de Deus é co-vítima na Santa Missa, com maior razão o sacerdote, que é “outro Cristo”.

O sacerdote deve assumir e continuar a missão de Cristo em sua totalidade, sacerdote e vítima da Nova Aliança.

“Os mensageiros de Cristo devem seguir o mesmo caminho de seu Mestre” (Charmot)

Trabalhando na salvação das almas devem usar os mesmos meios que Jesus usou. E entre estes meios, e não em último lugar, encontra-se a cruz.

Jesus ensinou várias vezes que deseja sejam seus apóstolos e discípulos vítimas, holocaustos da redenção.

Convida os filhos de Zebedeu a beber o cálice “que eu vou beber” (Mt 20,22).

No domingo de Ramos declara: “O servidor deve acompanhar o amo” (Jo 12,26), quando o Calvário já estava à vista. Na oração sacerdotal da Quinta-Feira Santa, Jesus reza por eles, “para que sejam santificados, como eu me santifico por eles” (Jo 17,19), alusão a Jo 15,13: “Quem dá a sua vida…”

Santificar

, isto é, consagrar ao culto como holocausto.

O grande teólogo da carta aos Hebreus viu bem o nexo entre as grandes e as pequenas vítimas no culto da Nova Aliança. Entrando no mundo, Cristo oferece seu corpo à disposição da vontade divina (Hb 10,5). “E pela mesma vontade somos nós também santificados, consagrados ao culto pela imolação do Corpo de Jesus Cristo” (Hb 10,10).

Missão sublime. Missão sublime demais para a criatura mortal. Mas o pequeno servidor mantenha-se sempre na sombra do chefe, “porque dele sai um poder” (Lc 6,19).

Somos vítimas por profissão. Sejamos sacerdotes fulltime.

Não esqueças, Jesus rezou por ti (Jo 17).

Ele quer que o sacerdote católico ajude a salvar almas.

Ora, Jesus salva a humanidade, não pelo serviço da Palavra, mas pela morte expiatória na cruz. O sacerdote é vítima de expiação. Deve morrer como o grão de trigo. É consagrado somente ao serviço de Deus. Um objeto consagrado a Deus, fica consagrado para sempre. Por toda a eternidade continua doado ao serviço de Deus. É impossível tornar-se “leigo”. Abandonando sua carreira, ele abandona Cristo.

Teologia das Realidades Celestes

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Vítimas em Cristo

Todo o povo de Deus, todos os cristãos são almas vítimas por força da ceia pascal. Cada um na intensidade que desejar. Material não nos falta neste vale de lágrimas.

Todas estas bagatelas, miúdas ou grandes, da nossa existência cotidiana, anexadas à vítima divina. Bagatelas valorizadas por mercê de Deus, pela união com Jesus, e valorizadas na proporção de nossa união com o Salvador.

“Quantas almas piedosas imaginam erroneamente que suas mortificações, privações e sofrimentos têm valor em si… E até pensam, talvez, que Deus lhe deva ser reconhecido” (GRIMAND, Missa, Ed. Vozes, 50). “Têm valor somente se incorporados em Cristo, o único com direito de apresentação ante o Pai Celeste.

Fique gravado: o grande meio de reparação, desagravo, expiação, não são nossas misérias, nossas virtudes, sacrifícios e penitências tão mesquinhas, mas o sacrifício do Filho de Deus”.

É mister recordar sempre que todo valor de expiação depende unicamente do sacrifício cruento de Cristo, ininterruptamente renovado sobre nossos altares” (Pio XI, 1928)

Importa, pois, unir-nos com Jesus na Santa Missa. E assistamos à Santa Missa unidos e juntos com Maria Santíssima, co-redentora e medianeira.

6. SACERDOTE DE CRISTO

 

O sacerdote é um real portador da redenção da cruz, e ele renova-a cada dia, para e em favor do povo de Deus. É o ato mais redentor, mais salvífico; mais que estigmas, dores e crucifixões místicas. Tua missa, ó sacerdote, salva o mundo!

 

Santidade

 

Tão sublime tarefa requer santos. Requer santidade superior a de qualquer religioso, santidade superior a toda a vida monástica.

Diz o Papa João XXIII (1959): “Pio XII declarou que o clero não está vinculado, por lei divina, aos conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência… Todavia está errado dizer que o clérigo seja menos adstrito a tender à perfeição evangélica do que os religiosos…

 A situação é totalmente diferente, pois para o devido desempenho das funções sacerdotais requer-se uma maior santidade interior do que a que se exige para o estado religioso” (Sto. Tomás, III 14,8).

 Os conselhos evangélicos abrem-lhe caminho mais seguro para a desejada meta da perfeição cristã (Vaticano II, PO 12)

Sal da Terra

 

Jesus mesmo chama seus discípulos e apóstolos, cujos sucessores são os sacerdotes, “de sal da terra”. Se o sal perde a força, é inútil (Mt 5,13).

Mais enérgico em Lc 14,35: sal insosso não serve nem para estrume, mas é jogado na rua. Frase que remata as exigências do discipulado cristão e evangélico.

“Podem alguns ter dúvidas sobre o grau de renúncias exigido dos simples fiéis? Mas, palavras tão inequívocas como estas (Lc 14,27-33) não deixam margem alguma a uma escapatória diante da obrigação de sacerdotes e religiosos no que se refere a uma renúncia sem compromisso ao mundo” (T. MERTON, Chagas, Ed. Vozes, 126).

Teologia das Realidades Celestes

 As Vítimas

Oferecemos no sacrifício pascal Jesus Cristo, cabeça do Corpo Místico, o único que vale algo. Mas oferecemos também a nós mesmos. Porque nossa inserção em Cristo místico, nossa união com Jesus dá-nos valor também.

Jesus quer nossa cooperação na redenção. Somos salvos pela união e semelhança com Jesus. E agora nós, seus membros, temos a honra de ser vítima com ele, por nós e pelos outros.

A Igreja, o povo de Deus é complemento de Cristo: está portanto associada também à sua obra. Fazemos parte desse sacrifício infinito, oferecido diariamente por nossa cabeça. Nós, a título de membros, oferecemos e somos oferecidos, sacrificadores e vítimas na proporção de nossa união com Jesus. Na cruz, Jesus sacrificou-se sozinho; instituiu a Santa Missa, a fim de que todos dela participem, e do modo mais pleno possível. Na quarta prece eucarística do novo Missal, rezamos: “Para que reunidos num só corpo nos tornemos em Cristo um sacrifício vivo, para louvor de tua glória”. É a palavra de Rm 12,1: “Rogo-vos… ofereçais vossos corpos em holocausto, vivo, santo e agradável a Deus”.

Recolhemos de São Cipriano este belo texto: “O sacrifício do Senhor (Missa) não estará santamente celebrado, se à oblação não corresponde o sacrifício de nós mesmos” (Epist. 63)

Sto. Agostinho comenta: “Cristo não pede nossos donativos, mas nossas pessoas… quis que nós mesmos fôssemos seu sacrifício… Toda a cidade redimida é oferecida a Deus como sacrifício universal do Sumo Sacerdote.

E, ainda a voz da Escolástica (Sto. Tomás, II II 85,2); “O sacrifício que se oferece externamente significa o sacrifício interno, espiritual, no qual a alma se oferece a Deus”.

Mortos em Cristo

 

Nossa união mística com Cristo realiza-se com Cristo vítima; não com o Cristo ressuscitado e glorioso, por enquanto. Rm 6,5: “Fomos enxertados em Cristo pela semelhança com sua morte”.

A aplicação ascética é: tirar o velho homem do pecado, e revestir o novo homem, isto é, Cristo (Rm 8,6; Cl 3,9; Gl 3,27).

A ascese cristã é continuação e complementação da morte de Cristo em cada cristão (Stolz). A assimilação ao crucificado é que nos salva, assimilação ao seu estado de vítima. É o grão que deve morrer para florir e dar frutos. O corpo místico é a base real do cristianismo, e este está pregado na cruz. A Santa Missa arrasta-nos ao Calvário.

Teologia das Realidades Celestes: Padre João Beting CSsR

Por força desse caráter sacerdotal, o sacerdote, e ele só, como instrumento de Cristo, pronuncia as palavras da consagração que, efetivam a presença real de Cristo sob o estado de vítima. É o ato essencial do sacrifício.

Feito isto, o sacerdote “oferece”, apresenta a vítima divina ao Pai, em louvor, ação de graças e expiação. Jesus se oferece ao mesmo tempo ao Pai como vítima universal.

Essa oferta é feita em nome da Igreja e de todo o povo de Deus. E nessa co-oblação, Cristo-sacerdote, todos os assinalados pelo caráter batismal estão autorizados por Cristo a aderir à sua oferta.

O caráter batismal não dá somente capacidade passiva para usufruir do sacrifício, mas implica em certa colaboração de todos os qualificados como membros de Cristo.

Superabundância da redenção que faz com que os remidos possam cooperar, num segundo ato, à própria redenção, isto é, na distribuição do usufruto.

Nesta participação dos fiéis no culto sacrifical é preciso distinguir dois níveis (cf. JOURNET, Messe 140). O nível cultual, ritual, sacramental, e o nível do amor divino, da graça santificante.

Nosso entrosamento no Corpo místico efetua-se também em dois níveis. Ficamos enxertados em Cristo:

a) Pelo caráter batismal; e o sacerdote ainda num grau a mais, pelo caráter sacerdotal.

b) Pela graça santificante, ou seja, pelo amor de Deus, que nos faz crescer Cristo adentro. Na ceia pascal, somente Jesus agiu no nível cultual.

No nível da graça, do amor, houve cooperação e até mesmo fervorosa dos apóstolos, discípulos e piedosas mulheres.

Na Santa Missa, no nível cultual, oferecem Cristo, sacerdote, fiéis; no nível do amor, sacerdotes e fiéis. No nível cultual, a parte do fiel é subordinada, mediata e acidental.

No nível do amor, os fiéis entram em franca competição com os sacerdotes. Garantida a validez espiritual, será superior a parte que possuir mais amor, maior santidade.

O clero perde sua posição privilegiada, e pode ser ultrapassado pelo ardor do fiel. E os últimos no culto tornam-se primeiros na ordem da graça.

Tauler deixou-nos uma página luminosa, abrindo horizontes vastos como o Reino de Deus, e profundos como o abismo do seu amor infinito: “Deus tem na terra bons amigos… Graças a esses amigos de Deus, graças a essas almas santas… nenhuma missa da cristandade será jamais privada do amor. Quantos saltérios e noturnos recitados, quantas missas rezadas ou cantadas, quantos sacrifícios e renúncias, cujo benefício não vai de forma alguma em favor de quem efetua estes atos, mas é dado inteirinho a quem tem maior amor.

Com todos estes bens preenchem seu vaso. Nada no mundo lhes escapa. A medida dos corações transbordantes estende-se sobre a Igreja toda, bons e maus.

Eles recolhem tudo quanto se fez de bom por toda a terra. Não deixam nada se perder, seja pequeno ou grande.

Nem a prece mais pequenina, nem um pensamento piedoso, nem o menor ato de fé. Eles apresentam tudo a Deus e oferecem tudo ao Pai do céu… Ó meus filhos! Se não tivéssemos estes homens estaríamos em bem má situação. Não só os homens, mas as mulheres também podem oferecer este sacrifício”.

Teologia das Realidades Celestes

Sacerdócio dos fiéis

No Calvário, na redenção objetiva, Jesus agiu só, assistido por Maria Santíssima, co-redentora.

“O gênero humano não é o autor da própria redenção, mas o beneficiário da obra de Cristo”, (Philips).

A Igreja não existia ainda. Nasceu no Calvário, no Coração de Jesus.

Mas na redenção subjetiva, na distribuição e aplicação do mérito da cruz, Jesus quer a colaboração do seu corpo místico. Na Santa Missa, a Igreja e todos os fiéis são oferentes e oferecidos. Segundo a expressão de Sto. Agostinho: a Igreja oferece e é ofertada (Cf. Mediator Dei)

Diz Sto. Tomás (Sent 13): “O que foi ofertado uma vez por Cristo, pode ser ofertado todos os dias por seus membros”.

Escreveu Pio XI (1928): “Também o povo todo dos fiéis, com todo o direito chamado… estirpe régia e sacerdócio escolhido e real, deve ofertar, seja para si, seja por todo o gênero humano”. Confirma-o Pio XII (Myst. Corp. 1943): “Os próprios fiéis oferecem o cordeiro imaculado, pela mão do sacerdote, ao Eterno Pai”.

Portanto, todos os fiéis, marcados pelo caráter batismal, participam do sacerdócio da Igreja, segundo o conhecido texto, de Pd 2,5; e Ap 1,6 chama-os “reis e sacerdotes”.

Pelo caráter batismal os fiéis estão capacitados para haurir a graça através dos sacramentos da Igreja, e em particular para assistir a Santa Missa com fruto, favor que os não-batizados não gozam, mesmo que sejam pessoalmente mais santos. A Igreja primitiva despedia os catecúmenos após o culto da Palavra, por serem incapazes de participar do rito sacrifical.

Os fiéis batizados exercem também uma colaboração ativa no culto litúrgico, sendo partes da Igreja e do Corpo Místico (Vatic. II LG 34,62)

Este sacerdócio comum a todos os fiéis não deve ser exagerado, mas também não deve ser minimizado. Os fiéis exercem um real poder no culto litúrgico, embora subordinado ao sacerdócio ministerial e por seu intermédio.

O sacerdote está ligado a Cristo não só pelo caráter batismal e crismal, mas também pelo caráter sacerdotal.

Por força desse caráter, o sacerdote é o representante oficial do povo de Deus no culto perante o Cristo e perante o Pai.

Teologia das Realidades Celestes

“Mediator Dei”

A encíclica de 1947  introduz o fiel na profundeza do mistério pascal:

“A missa é verdadeiro sacrifício. Por uma incruenta oblação, o Sumo Sacerdote faz o que fez na cruz… O mesmo sacerdote, a mesma vítima… os mesmos fins: glória de Deus, ação de graças, expiação, súplica…”

“O homem, qual filho pródigo, dissipou todos os bens recebidos do Pai Celeste, e assim está reduzido à extrema pobreza… Os méritos imensos, simplesmente infinitos deste sacrifício não conhecem limites. Mas requer-se que cada ser humano entre em contato vital com o sacrifício da cruz…”

“Na cruz, Cristo agiu sem a Igreja… mas quando se trata de repartir o tesouro, ele se comunica com sua esposa e quer sua oblação, sua colaboração… O sacrifício do altar é o meio que distribui os méritos da cruza aos fiéis”…

“É oferecido todos os dias, recordando-nos que não há salvação senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus mesmo quis que esse sacrifício fosse continuado desde a aurora até ao pôr-do-sol, para nunca se interromper o hino de louvor e gratidão…”

“A Igreja oferece e é oferta; sacerdote e vítima… Aquela frase do apóstolo, “Senti em vós o mesmo que Cristo sentiu”, exige de todos os fiéis que tenham em sua mente os mesmos afetos do divino Redentor… de adoração e de louvor…”

“Exige, enfim, que todos nós nos submetamos à morte mística na cruz, junto com Cristo, a fim de podermos reivindicar a sentença de São Paulo: “Com Cristo estou pregado na cruz” (Gl 2,19).”

“Deve-se dizer que os fiéis também oferecem a divina vítima, embora de uma maneira diferente (do sacerdote).

O ritual e os textos litúrgicos mostram que a oferta da vítima se faz pelo sacerdote junto com o povo”…

“Pelo Batismo, os fiéis tornam-se membros de Cristo-Sacerdote. E pelo caráter que lhes fica gravado na alma, são designados para o culto divino. E assim participam do sacerdócio do próprio Cristo, de acordo com sua situação”…

“Aquela imolação incruenta, em que Cristo, após as palavras da consagração, se torna presente sobre o altar em estado de vítima, é realizada apenas pelo sacerdote, enquanto representa a pessoa de Cristo; mas não enquanto representa os fiéis Depois, o sacerdote coloca a vítima sobre o altar e oferece a Deus Pai a mesma oblação em honra da Santíssima Trindade e em prol de toda a Igreja. É nesta oblação, em sentido restrito, que participam a seu modo os fiéis..”

“O povo oferece o sacrifício, não porque realiza o rito litúrgico visível, tarefa que compete só ao ministro designado por Deus, mas porque une seus votos de louvor, de súplica, de expiação e de ação de graças ao sacerdote.

Mais ainda: une-os aos do Sumo Sacerdote, a fim de que sejam entregues ao Pai”… “A fim de que a oblação obtenha pleno êxito, é preciso que os fiéis acrescentem ainda algo: é necessário que eles se ofereçam a si próprios em sacrifício, segundo 1Pd 2,5 e Rm 12,1… Junto com o Sumo Sacerdote e por meio dele ofereçam-se como vítimas espirituais”…

“Todos os elementos litúrgicos, pois, convergem para que nossa mente se impregne da imagem do divino Redentor pelo mistério da cruz, conforme a palavra do apóstolo dos gentios: “Com Cristo estou pregado na cruz; já não vivo eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,19).”

“E assim nos tornamos uma vítima junto com Cristo para maior glória do Pai Eterno”.

Teologia das Realidades Celestes

Uma opinião recente contribui com uma nova focalização do problema: a Santa Missa não repete a morte de Jesus no Calvário, mas torna-a presente para nós.

Não há dois ou mais sacrifícios, mas um só: o da morte física de Jesus, que se faz presente a todos os séculos posteriores, à semelhança de um video-tape.

 Todavia, com uma diferença substancial: a presença é real. Presença real (e eficiente) da ação sacrifical do Calvário.

Charles Journet (La Messe, 89) comenta: A onipresença espacial é inteligível.

A onipresença de Deus no tempo é um mistério. Para nós há passado, presente e futuro. Perante Deus tudo é presente. A eternidade de Deus exclui toda sucessão: Deus co-existe (Sto. Tomás,,14,13).

 O ato sacrifical de Jesus na cruz é conhecido de Deus desde a eternidade. Transitório no tempo, é sempre presente e existente em Deus.

A onipotência divina pode estender o efeito, a força, por contato, a todo o tempo posterior. E assim, a Santa Missa não é um outro sacrifício, mas é uma outra presença.

Presença operativa porque se trata de uma ação, não de uma substância.

Presença mistérica, sacramental: não sangrenta, debaixo de véus simbólicos. Como nas numerosas hóstias consagradas está presente o único, idêntico Cristo, assim se multiplica em relação a nós o ato da morte de Jesus. Presença real, não metafórica; no entanto, em conceito análogo.

Como na ceia da Quinta-Feira Santa, no Cenáculo de Jerusalém, não há dois Cristos, mas um só, e este presente em duas presenças, uma corporal e outra sacramental (natural-sacramental), assim a relação entre cruz e missa.

O sacrifício é numericamente um e idêntico; diferente sua presença: histórica e respectivamente mistérica. O conceito presença é análogo; o conceito Cristo é unívoco.

Na cruz Jesus sacrificou sozinho. Mas instituiu a Ceia pascal e, de um modo insigne, o sacerdote. Somos oferentes e oferecidos, sacerdotes e vítimas, parcelas do Sumo Sacerdote, partículas da grande vítima.

Na cruz, Jesus agiu como segundo Adão, como representante da humanidade. Renovando o sacrifício do Calvário, na Santa Missa, faz participar todos os seus membros místicos, a fim de integrar a todos na economia da salvação. Pela Paixão e Morte, Jesus entrou na glória.

Mas o cristão, ainda na terra, deve seguir o mesmo caminho para atingir sua perfeição. O sacrifício da cruz deve tornar-se sacrifício de cada cristão, pois somos um único organismo.

O que faz a cabeça, convém a todo o corpo. Estamos em comunhão sacrifical com Jesus, não somente de maneira subjetiva e afetiva, mas real e objetivamente.

Como a paixão e morte no Calvário foi sua ação mais meritória, assim para cada cristão a participação na Santa Missa deve ser o ponto culminante de cada dia de sua vida espiritual.

 Teologia das Realidades Celestes –  Padre João Beting CSsR

Oferecemos – Sacrificamos

A Paixão e Morte foram para Jesus a ação ascética mais perfeita, ponto culminante de toda a sua vida espiritual: o abandono total à vontade do Pai.

 O primeiro Adão quis teimar a fazer sua própria vontade. O segundo Adão vê sua principal tarefa na glória de Deus Pai, em fazer a sua vontade; rejubila quando chegou a hora de lhe dar a mais sublime prova, a suprema.

É para Jesus ocasião de júbilo, honra e glória eterna. “Pai, é chegada a hora. Glorifica teu Filho para que teu Filho te glorifique” (Jo 17,1).

Acima de tudo a glória de Deus. E esta é realizada pela submissão total à vontade de Deus. Maior coisa a fazer do que a vontade divina, não há.

E nossa “salvação” consiste na união mais íntima, na identificação com Cristo e com seu holocausto. Na incorporação afetiva e efetiva em seu mistério pascal. Eis a primeira, a mais excelente de todas as normas práticas ascéticas.

A Santa Missa é presença do Calvário. Eis a ascese mais perfeita: participar da Santa Missa. O caráter batismal põe-nos em contato vital com a cruz.

Repetindo-se os contatos, repetem-se seus efeitos em nós, criaturas sujeitas à historicidade, incapazes de realizar transformações substanciais de uma vez.

 Por essa razão, repetimos “a obra da nossa redenção” litúrgica todas as manhãs, até se completar nossa redenção, real e efetivamente.

Diz Sto. Tomás (III 79,7): “Em cada missa multiplica-se a oblação, e por isso multiplica-se o efeito”. Ou, como diz Ambrósio de um modo mais drástico: “Eu que peço todos os dias, preciso do remédio todos os dias”.

Presença

A teologia esforça-se em investigar o mistério salvífico da Santa Missa, da ceia eucarística em sua relação com o Calvário.

Sacerdote e vítima são idênticos, estão substancialmente presentes. A ação sacrifical, oblação e morte, renova-se e repete-se em cada missa de uma maneira invisível, não sangrenta, mas real.

Nas duas “Missas”, na cruz e no altar, a ação sacrifical é substancial e essencialmente idêntica. Não há concorrência, nem paralelismo, mas repetição. A Santa Missa só é possível porque a antecedeu o Calvário. Verdade que cada repetição tem valor infinito.

“Ó Jesus Cristo, dai-nos fé grande e alargai nosso coração estreito!”

No sagrado mistério pão e vinho transformam-se, mudam de natureza. Pão e vinho! O pão é Corpo de Cristo.

Vinho é Sangue de Deus. E uma grande saudade deve brotar da alma: “Ó Senhor, muda também a mim. Transforma-me em Ti, ó Deus Onipotente.

Aqui jaz minha alma fraca; transforma-a em força.

Aqui jaz minha alma escura; transforma-a em luz.

Aqui jaz minha alma fria e dura; faze-a ficar fogo.

Transforma meu ser terreno em vida divina.”

Gólgota Perene

A vida de Deus, a vida da salvação, é a cruz do Salvador, a única via: a dor de Cristo e a dor do Corpo místico.

Calvário e Missa. Em rigor, todos nós que somos necessitados da salvação, deveríamos retornar no tempo, ao ano trinta, e colocar-nos debaixo da cruz de Redentor, oferecendo-nos junto com a vítima divina, porque o que nos salva é o contato com a cruz. “Com Cristo cravado na cruz” (Gl 2,19). “Em simbiose com sua morte” (Rm 6,5).

Mas, sendo impossível o retorno no tempo, Jesus inventou um modo de tornar seu sacrifício, sua cruz, sua morte, presentes a todos os séculos da história da humanidade: todas as ondas das gerações humanas embatem no morro do Calvário.

Ou melhor: Jesus plantou sua cruz e sua morte salvífica dentro do rio humano, colorindo suas águas com sangue divino. E todas as gerações futuras passam, quais ondas, debaixo de sua bênção.

 Assistindo à Santa Missa, tornamo-nos contemporâneos de Jesus. Com Maria Santíssima, com as mulheres, com João, o apóstolo, assistimos de um modo misterioso, mas real, à morte de Jesus no alto do Calvário.

Paixão e morte foram para Jesus o caminho necessário para a glória. Vale a mesma lei para seu Corpo místico, para nós. A Santa Missa introduz-nos no mistério pascal. Ela se repete a fim de incorporar todas as gerações sucessivas, até se completar Cristo total.

Infinita

E sua bênção é poderosa, infinita. É o maior sacrifício da humanidade, e maior que todos aqueles milhões de sacrifícios oferecidos ao céu, desde a origem até hoje. É a vítima mais preciosa. De valor infinito, sem limites e sem restrições. O Sangue de Deus brada ao céu, implorando perdão e oferecendo satisfação total.

Um boato

Se um dia corresse pelo mundo a notícia inaudita que N. Senhor voltou à terra… tomou domicílio em Jerusalém, ou em Roma, e atende a todos… que alvoroço seria!

De todas as nações e regiões sairiam as romarias a fim de ver o Filho de Deus humanado. A televisão daria as primeiras imagens. Mas cada um quereria ir ver pessoalmente.

A gente iria guardar as últimas economias para fazer esta viagem, ao menos uma vez na vida. A gente iria sangrar os pés na longa marcha. A fim de falar só uma noite. Até chegar a nossa vez. Entramos com o coração a bater. E estamos face a face com Jesus. “Ó Senhor, quanto coisa para dizer, para pedir. Ó Jesus, vê de quanto peso estou carregado!… tira isto ou ajuda-me carregar…”

Iríamos cair de joelhos e pedir a sua bênção, para o corpo e para a alma. Quantas preces ardentes iriam jorrar com ímpeto do nosso coração, estando lá perante N. Senhor, e vendo-o face a face….

Mas não é boato, é realidade. Pois ele veio. Está morando aqui na terra. Se tivéssemos fé, fé viva, aquela fé que transporta e sacode, revolve a fundo um coração humano! Se tivéssemos essa fé, então nossas Igrejas estariam cheias, dia e noite. Os adoradores iriam rodear os sacrários, abismados pela presença divina.

Mãos súplices levantar-se-iam ininterruptamente ao Filho de Deus, pedindo sua bênção santa e toda poderosa. Não haveria mais alma amargurada que não recebesse aqui alguma doçura. Não haveria mais sofrimento na terra que não buscasse, e não recebesse aqui alívio e conforto. Não haveria mais no mundo criatura desconsolada.

Não poderia mais haver, se tivéssemos fé, fé viva, fé santa, forte. Aquela que se levanta como um vendaval, e arrasta num turbilhão para o alto. Longe do marasmo e da mesquinhez terrestre. “Ó Filho de Deus, dai-nos essa fé!”

Se tivéssemos essa fé viva, forte, iríamos acorrer com ímpeto ao sacrifício eucarístico, à Santa Missa… Que mistério! Que mistério profundo como a eternidade: O Filho de Deus apresenta-se todos os dias ao homens dizendo-lhes: “Vou levantar minhas mãos ao Pai. Minhas mãos chagadas. Ponham nelas vossas falhas e culpas, vossas privações e frustrações, vossas misérias do corpo e da alma. Vou levar tudo aos pés do trono de meu Pai e vou pedir por vós, e meu Pai me atende.”

Que mistério, profundo como a eternidade! Todos os dias N. Senhor aparece entre nós, de braços abertos, e pergunta: há alguém aqui a carregar um peso? Há alguém padecendo necessidades? Dai-me tudo. Vou levar tudo ao céu.

 Na Santa Missa, no Pai-Nosso, Jesus abre os braços e reza conosco. Ele alcança tudo. Se tivéssemos fé… Mas somos frios, desinteressados, atarefados demais; não há tempo para o Reino de Deus.

Se tivéssemos fé viva, luminosa e ardorosa, nunca falharíamos ao banquete do Reino, à grande ceia pascal que nos alimenta para a vida eterna. Quando o corpo tem fome, damos-lhe comida. Quando a alma tem fome, recebe drogas. E Jesus a oferecer-nos sua própria comida, aquele pão e vinho que transfundem em nossas veias a vida de Deus, luz e fogo. Se tivéssemos fé, estaríamos incendiados, estuantes de amor…

Teologia das Realidades Celestes

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