Por força desse caráter sacerdotal, o sacerdote, e ele só, como instrumento de Cristo, pronuncia as palavras da consagração que, efetivam a presença real de Cristo sob o estado de vítima. É o ato essencial do sacrifício.

Feito isto, o sacerdote “oferece”, apresenta a vítima divina ao Pai, em louvor, ação de graças e expiação. Jesus se oferece ao mesmo tempo ao Pai como vítima universal.

Essa oferta é feita em nome da Igreja e de todo o povo de Deus. E nessa co-oblação, Cristo-sacerdote, todos os assinalados pelo caráter batismal estão autorizados por Cristo a aderir à sua oferta.

O caráter batismal não dá somente capacidade passiva para usufruir do sacrifício, mas implica em certa colaboração de todos os qualificados como membros de Cristo.

Superabundância da redenção que faz com que os remidos possam cooperar, num segundo ato, à própria redenção, isto é, na distribuição do usufruto.

Nesta participação dos fiéis no culto sacrifical é preciso distinguir dois níveis (cf. JOURNET, Messe 140). O nível cultual, ritual, sacramental, e o nível do amor divino, da graça santificante.

Nosso entrosamento no Corpo místico efetua-se também em dois níveis. Ficamos enxertados em Cristo:

a) Pelo caráter batismal; e o sacerdote ainda num grau a mais, pelo caráter sacerdotal.

b) Pela graça santificante, ou seja, pelo amor de Deus, que nos faz crescer Cristo adentro. Na ceia pascal, somente Jesus agiu no nível cultual.

No nível da graça, do amor, houve cooperação e até mesmo fervorosa dos apóstolos, discípulos e piedosas mulheres.

Na Santa Missa, no nível cultual, oferecem Cristo, sacerdote, fiéis; no nível do amor, sacerdotes e fiéis. No nível cultual, a parte do fiel é subordinada, mediata e acidental.

No nível do amor, os fiéis entram em franca competição com os sacerdotes. Garantida a validez espiritual, será superior a parte que possuir mais amor, maior santidade.

O clero perde sua posição privilegiada, e pode ser ultrapassado pelo ardor do fiel. E os últimos no culto tornam-se primeiros na ordem da graça.

Tauler deixou-nos uma página luminosa, abrindo horizontes vastos como o Reino de Deus, e profundos como o abismo do seu amor infinito: “Deus tem na terra bons amigos… Graças a esses amigos de Deus, graças a essas almas santas… nenhuma missa da cristandade será jamais privada do amor. Quantos saltérios e noturnos recitados, quantas missas rezadas ou cantadas, quantos sacrifícios e renúncias, cujo benefício não vai de forma alguma em favor de quem efetua estes atos, mas é dado inteirinho a quem tem maior amor.

Com todos estes bens preenchem seu vaso. Nada no mundo lhes escapa. A medida dos corações transbordantes estende-se sobre a Igreja toda, bons e maus.

Eles recolhem tudo quanto se fez de bom por toda a terra. Não deixam nada se perder, seja pequeno ou grande.

Nem a prece mais pequenina, nem um pensamento piedoso, nem o menor ato de fé. Eles apresentam tudo a Deus e oferecem tudo ao Pai do céu… Ó meus filhos! Se não tivéssemos estes homens estaríamos em bem má situação. Não só os homens, mas as mulheres também podem oferecer este sacrifício”.

Teologia das Realidades Celestes

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