QUANDO?

Sabemos que o céu é um paraíso verdadeiro. E, no entanto, ninguém tem pressa de sair da terra. Por que alegramo-nos tão pouco pela esperança do céu? Falta de fé? A doutrina da Igreja é clara e está fora de discussão.

Sentimos que podemos contar com o céu. Mas por que então um futuro tão risonho não “puxa?” Esta inefável felicidade que nos é prometida pela fé, pela palavra de Deus, devia preocupar-nos dia e noite. Devíamos arder em impacientes sobressaltos, ansiosos como um escolar que conta dias e horas até o início das férias. E todavia, nenhum dos cristãos vive afobado pela vinda do céu.

Será, talvez, por medo da morte? O portão, que conduz ao céu, é a morte com suas sombras, seus imprevistos e suas incógnitas. Talvez já tenhamos visto alguma pessoa nas últimas horas. Quadro desolador! Parece sentir dores, apesar das injeções. Talvez este pensamento esfria o entusiasmo. É possível. Mas pensando bem, após algumas horas (não anos) no hospital, estaremos definitivamente arranjados e para melhor.

Ou será o medo do inferno? Não pode ser! Quem tem boa vontade tem o céu garantido. Boa vontade de amar a Deus. E bondade para amar cá na terra seu próximo. Não disse Jesus que os misericordiosos serão tratados com misericórdia? Os bondosos, com bondade. Tudo na mesma medida. Portanto, não há problema.

Ou prende-nos o amor à vida terrena? Na mocidade, sim. Mas depois – pensando bem – devíamos nos convencer que só haveria vantagem na troca.

Mas qual é então o empecilho? A fé nos afirma e garante o céu e sua desmedida felicidade. Mas são todas elas coisas invisíveis E tão abstratas como fazer contas de matemática ou geometria. E assim, não impressionam.

E nosso coração só se entusiasma se vê algo. É a grande cegueira da humanidade perante o mundo do além. Por lá tudo é escuro! Ou seja: tão azul celeste e nada mais. O que Jesus contou, muito ou pouco; analisando suas palavras, levantam-se novos problemas que restam no obscuro.

Jesus descreveu o céu com palavras singelas e com várias parábolas, de um modo tão sugestivo que toda criança é capaz de entender algo.

O céu, na teologia dogmática, é um dos tratados que ocupam menos páginas. Mas também é impossível despejar o mar num buraco da areia. O jeito é esperar. Somos como um cego que viaja através de uma paisagem belíssima: não vê nada. Se o companheiro tenta descrever- lhe o que vê, alegra-se um pouco, talvez mais por ver seu amigo tão entusiasmado. Mas, por hora, acontece que todos os passageiros são cegos.

Daí, desta fraqueza da fé, da opacidade, da impermeabilidade da mente humana é que provém o nosso pouco entusiasmo pelo céu. É como se víssemos um país só no mapa, não na realidade. O único remédio é meditar, refletir mais, rezar. Talvez nos pegue algum dia a saudade que sentiam os santos.

Francisco de Assis, na última doença, recebe a visita de um anjo que toca um violino. Sumiram todas as dores do moribundo. E disse o santo: tivesse tocado mais uma vez, teria morrido de felicidade.

Diz Sto. Agostinho tão bem: “O prêmio que Deus dá é ele mesmo. Pode-se ser exigente e insaciável; Deus basta”.

Teologia das Realidades Celestes

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