“AMABIMUS”

 

Para um ser espiritual a felicidade não é completa sem amor perfeito. Amar é tarefa de meu coração, é sua alegria, seu alimento, sua vida.

E como nosso coração quer viver sempre mais, por isso quer também amar sempre mais Amar sempre, sem temer engano, desilusão, inconstância.

Nosso coração sonha com uma amizade firme, duradoura, intensa. Esse ideal não existe sobre a terra. Nenhuma criatura pode ser amada com tal amor prepotente.

 

O coração é mobile, o nosso e o dos outros. E, por outro lado, são inevitáveis as desilusões. No céu, encontraremos entes queridos e seres dignos de amor.

É que são todos santos e santificados pela glória de Deus.

Escreveu Lucie Christine: “Como estão equivocados aqueles que crêem que, na outra vida, seus amores e simpatias desaparecerão. Na verdade, ali só recebem seu pleno desenvolvimento. As almas perdidas em Deus adquirem ali sua plena expansão, a madureza de todas as faculdades, pensando, contemplando e amando em Deus e por Deus. Em Deus, compenetram-se as almas de um modo maravilhoso, mistério e felicidade totalmente ignorados na terra” (Journel, 314).

 

Entre todos a mais formosa, a Virgem Perpétua e Mãe de Jesus atrairá amor e afeição total do nosso coração.

 

“Quero, ó Mãe, em teus braços queridos descansar”…

 

E todas as poesias e canções à Santíssima Virgem serão ultrapassadas pela realidade.

 

Mas o sol no céu estrelado de Deus: Deus Pai, Deus Filho, Deus Amor. Os demais amores no céu, comparam-se às estrelas, pequeninos pontinhos luminosos. Meu amor pelo Filho de Deus na terra era só um começo. Ademais, assombrado pelo medo de perdê-Lo. Não havia lugar de temer desilusão, mas a minha inconstância, obcecada talvez por ilusões terrestres, fatamorganas inconsistentes.

 

Enfim, no céu encontro o ideal absoluto, cheio, pleno, total. Encontro a realidade. Agora, enfim, irei amá-lo sem limites e restrições. No ardor de um êxtase ininterrupto, irei gozar enfim a segurança, a paz no amor de Deus.

 

Deus, visto face a face, não me parecerá menos amável do que eu imaginei na terra. Ao contrário, sua visão ultrapassa toda a expectativa. Realmente: “coração humano jamais sentiu o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9). E igualmente seguro estou que ele corresponde ao meu amor. Deus me ama com amor infinito. Desde eternidades, seu amor me preveniu. Procurou-me em longas caminhadas na terra. Agora que ele me possui para sempre, nunca me abandonará. E eu mesmo estou na feliz situação de não mais poder abandoná-Io.

 

Minha vontade está confirmada no amor de Deus por toda a eternidade. Não preciso mais temer separação ou morte.

 

Deus se me deu de presente eterno. Eu mesmo sou agora imortal. Uma necessidade feliz, imperiosa, constrange-me a amar a plenitude do amor e a plenitude do ser. Minha alma mergulha neste oceano de felicidade, oceano sem margem, sem fundo. Jesus disse a São Paulo da Cruz: “Filho, no céu a alma bem aventurada não estará unida a mim como amigo com seu amigo, mas será como o ferro penetrado pelo fogo”. Sta. Teresinha: “O que me atrai no céu? Nada de felicidades. O que então? Só o amor. Amar e ser amada”.

Lúcia Cristina: “O que serei na eternidade? Um ato de amor”.

 

Nossa ocupação principal no céu será amar a Deus.

 

Amá-lo-emos, não com nosso coração humano, estreito e mesquinho. Amá-Io-emos com o seu amor. Deus nos emprestará seu próprio coração para amá-Io. Amaremos a Deus com a Terceira Pessoa da Trindade Santa, com a pessoa-amor, o Espírito Santo.

Pois ouça as alvíssaras de São Paulo: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

 

Jesus já dera o primeiro aviso na vigília de sua morte: “O amor com que me tens amado, ó Pai, esteja neles e também eu esteja neles” (Jo 17,26). Por isso também nosso amor ao Deus Uno e Trino será “forte como a morte e suas labaredas de fogo são inestingüíveis”, jubila a esposa dos Cânticos (Ct 8,6).

 

Não sabemos como orar: “O Espírito Santo de Deus é que agora ora por nós em súplica inefável” (Rm 8,26).

 

Menos ainda sabemos amar a Deus como deve ser. O Espírito vem pois em nosso socorro. Deus envolve a criatura humana com sua essência infinita. Deus é amor(1Jo 4,8). E assim, a nossa alma torna-se amor.

O furacão celeste de Pentecostes figura esse amor divino, impetuoso como um vendaval. Sta. Madalena dei Pazzi corria pelos corredores silenciosos do mosteiro, embriagada de amor divino e fora de si, clamando: “Ó Amor, ó Amor, ó Amor… ó Deus meu, é demais! Não para tua majestade, mas para mim, pobre criatura! Ó Deus, como tu amas a nós, vossas criaturas!”

 

Teologia das Realidades Celestes

 

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