Archive for setembro, 2011


Sofrimento apostólico

Escreve São João d’Ávila: “Os filhos que devemos
gerar por meio da palavra não devem ser filhos da voz,
mas filhos das lágrimas”.

Sto. Inácio está peculiarmente alegre e P. Ribadeneira
insiste em saber o motivo.

“Pois bem, Pedro, durante a oração, Deus Nosso Senhor garantiu-me que enquanto a Companhia existir, nunca deixará de gozar da preciosa herança de sua paixão, vivendo em meio de contradição e perseguições”.

Em nossos dias, Charles de Foucauld: “Podendo amar
e sofrer, a gente faz o máximo que se possa fazer na
terra”.

É o eco longínquo de São Paulo: “Quando estou
sofrendo. então sou forte” (2Cor 2,10).

E este tempero de mirra nunca faltará ao apóstolo em seus labores.

Que aproveita em prol de sua ação: “Apóstolos não lutam com outras armas que os sofrimentos, e triunfam morrendo” (Francisco de Sales).

“Com quinze minutos de sofrimento
pode-se salvar mais almas do que com a pregação mais
brilhante” (Sta. Teresinha).

Uma anedota espiritual.

Um casal de velhos, bem unidos, no Transvaal, África do Sul. Casamento misto.

A esposa é luterana fervorosa. Ele, calvinista: quer dizer,
chegou a converter-se à fé católica.

E agora, gostaria de dar à sua cara esposa, sinceramente, a mesma graça.

Toda a sua eloqüência é inútil.

E ele refletiu: “Assim, não vai. O caso reclama sacrifício. Qual é para mim, o maior sacrifício? Renunciar ao cachimbo. Pois seja”.

Dois dias da semana sem o cachimbo querido. A velha repara, mas não se converte. E mais um dia da semana sem  fumaça.

Sem efeito. Então os sete dias de uma vez.

Agora, fez efeito: “A religião do velho deve ser melhor ainda que a minha”.

TEOLOGIA DAS REALIDADES CELESTES

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OS MEIOS

Os meios do apostolado na ordem inversa de sua eficiência, são três: ação, oração, sofrimento. E a acrescentar um quarto, ou melhor, o primeiro meio de um apostolado eficaz, seu fundamento indispensável: a santidade do apóstolo-missionário.

Apraz-nos repetir e repisar: o apóstolo de Cristo deve romper caminho com sua santidade,
com sua união com Cristo, com seu amor por Cristo.

Santidade apostólica

O cristão pode merecer para si o aumento da graça santificante. Mas nenhuma graça de auxilio pode ser a rigor merecida, e menos ainda a grande graça da perseverança final. É dom da bondade divina e fruto da oração:”supliciter emereri potest”.

Quanto ao próximo, só Jesus mereceu graças no rigor do termo. Dai, salvar almas remir o mundo dos pecadores, na boca da criatura, é algo bem diferente da obra redentora de Jesus.

Nossa força dentro do Corpo Místico atua não à base de direitos e méritos, mas na proporção
da amizade, “da nossa amizade com Deus”, “secundum proportionem caritatis” (Sto. Tomás, I II 118,6).

Talvez seja bom recordar: “Sois meus amigos… já não vos chamo servos” (João 15,14). Nossa eficiência apostólica é proporcional ao calor do amor de Deus que arde em nosso intimo.

Por isso, afirma São João da Cruz, (Cântico 29,1): “É mais precioso para Deus e para a alma
um pouquinho deste amor puro, e de mais proveito para a Igreja, embora pareça que não faz nada, do que todas estas outras obras juntas.

Por isso, Maria Madalena escondeu-se no deserto por trinta anos, a fim de entregar-se
a esta amor… pelo muito que aproveite e importe à Igreja um pouquinho deste amor… E, enfim, para este fim de amor fomos criados”.

 

Teologia das Realidades Celestes

Alguns têm facilidades, isto é, têm a graça de Deus e sentem-se estimulados pelos encontros apostólicos.

Para outros, talvez para a maioria de nós que estamos navegando em tempestades, há o perigo do apostolado dissipado.

Para chegar à renúncia de todo o egoísmo, imprescindível no apostolado de Deus, “o acúmulo máximo de obras externas de apostolado não é remédio algum” (Plé).

O único remédio contra a dissipação, e solução banal, é a meditação. O único remédio contra o esvaziamento é a oração freqüente que nos enche de amor de Deus.

“A oração não é um dever imposto. Não é um exercício preparatório para o apostolado. A oração é a primeira necessidade do homem e a alegria de sua vida”, (LOCHET, Christus, 19,55).

E acrescentamos prosaicamente: oração é o modo mais simples, mais fácil e mais barato de amar a Deus. Amando a Deus com fervor, a sua graça não encontra em nós, seus ministros, obstáculos para passar e chegar até a alma do pecador.

Em tempos antigos, já escreveu São Gregório Magno: “quando os santos retornam da oração e falam aos outros, eles ferem e incendeiam com suas palavras o coração dos seus ouvintes”.

Julgue o leitor mesmo a frase ambígua: “A oração do apóstolo em geral não é muito longa; ele precisa destas longas horas para dedicar-se a obras de zelo”.

Melhor inspirado pelos apóstolos de Cristo (Atos 6,4) escreve Perrin: “A oração é tão essencial ao coração do apóstolo como seu amor a Deus”.

Verdade é que as necessidades individuais, por assim dizer, variam. Sto. Inácio deixou o tempo da oração à inspiração individual. Pessoalmente desfrutava de uma excepcional facilidade de recolhimento na presença de Deus.

São João Maria Vianney, atendendo confissões ininterruptamente, de madrugada até meia-noite, foi dispensado do Breviário por força da obediência, Mas ele podia contemplata tradere, podia haurir de sua provisão, pois nos primeiros anos desocupados do paroquiato passara
dias em oração.

Retomemos a Perrin (Vie Spirituelle, 1948): “A oração é apostólica porque é uma ação eficaz sobre as almas.

Toda a ação que se restringe às forças humanas, contando somente com indústria própria, é curta demais para atingir uma alma na ordem da santificação. As realidades com as quais lidamos aqui só são acessíveis à fé.

Razão e sentidos, disto nada compreendem”.

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Escreve Piá (Vie Spirituelle, 1948): “A ação (do ativista) faz muito volume e mostra magra fecundidade sobrenatural.

Ele organiza mais do que transmite a vida. O Espírito Santo aí não joga à vontade, porque o homem
ocupa lugar demais”.

A atividade apostólica visa a santificação do próximo, não do apóstolo. Supõe o apóstolo formado na escola de Jesus, com diploma de madureza.

Creio que está fora de dúvida que é mais fácil transformar a audição de um sermão em atos de fé e de amor do que declamá-lo.

Novamente Piá: “Falar do apostolado como de um meio de santificação é uma expressão infeliz. Não se é apóstolo para se santificar a si mesmo, mas para santificar aqueles aos quais é enviado.

Mas há uma realidade certa: o apóstolo pode se santificar no exercício de seu apostolado…

O apóstolo é dispensador do mistério. A sua mensagem será aceita somente por aqueles que Deus chama interiormente, segundo João 6,44”.

A ação apostólica deve ser prenhe do amor de Deus e a Deus. O dilema não é ação versus contemplação, mas ação externa versus número de horas de apostolado, Mas em cada lado valem o grau e o número dos atos de amor a Deus.

Todos os atos apostólicos devem ser atos de amor divino. Para este fim não basta uma boa intenção geral feita de manhã ao levantar-se. É útil repetir durante as horas do dia jaculatórias, atos de amor; mas nada disto resolve.

É necessário transformar, de fato, todas as nossas ações em atos informados pelo amor de Deus; explicita ou implicitamente. Devem ser atos comandados pelo amor de Deus, e não secretamente pelo amor próprio.

Como diz Sto. Tomás: “Toda a atividade virtuosa deve ser regida, ou atual ou virtualmente, pelo império da caridade divina”, As virtudes valem perante Deus por seu grau de amor. E para isto não basta uma intenção habitual, feita uma vez, não revogada, mas esquecida (Cf. TRUHLAR,
Antinomias).

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OS PERIGOS

 

Os perigos que ameaçam o apóstolo na sua tarefa são todos aqueles fatores que afrouxam sua união com Jesus; que o tornam instrumento menos maleável, nas mãos do Salvador. Perigo é menos o mundo mau, o inimigo externo, do que os inimigos internos: dissipação espiritual e egoísmo.

 

O egoísmo ou o amor próprio é defeito comum a todo o mundo. Mas é particularmente danoso na ação apostólica.

 

A vaidade é “às vezes, ou sempre, ridícula” (Mesa).

 

Mil pequenas satisfações humanas. Tudo isto trava a ação do Salvador.

 

O naturalismo. Técnicas humanas, psicológicas, dão resultados aparentes. Mas o insucesso a longo prazo é fatal, porque é “Deus quem faz crescer” (1Cor 3,7).

 

A dissipação espiritual, seguida pelo descuido da oração.

 

Há sempre o perigo de esvaziamento. A heresia da ação é inata. É o dinamismo horizontal, sem contato vertical, sem contato com o alto. John Wu disse certa vez: “Isto não é ação católica, é somente agitação”. “Quanto apostolado cristão não passa de um movimento puramente humano com muito barulho e muita poeira. Falta o cimento que liga as pedras. Falta o contato com a única fonte de vida cristã, o amor divino” (Gabriel Maria, OCD).

“Condição indispensável e medida de eficiência de nosso apostolado é o grau de nossa vida interior” (Antonelli).

 

A vida interior é também o único esteio para não sucumbir à tentação do desânimo: alinhando-nos com Jesus também no fracasso externo do seu apostolado. Portanto, haja no apóstolo muito amor a Deus e nenhum amor próprio.

 

Por isso:

 

– Repitamos com Sto. Inácio de Loiola: “in omnibus quaerant Deum. Procurem em tudo a Deus”. “Na ordem sobrenatural, escreve ele aos estudantes de teologia em Coimbra, é como na ordem natural. O ser age segundo sua natureza“. Sendo instrumentos da vida sobrenatural devemos ser movidos em tudo pelo Espírito de Deus (Rm 8,14; 1Cor 3,15). E o meio de manter a bússola ininterruptamente no rumo do coração de Deus é a oração.

 

– Axioma: Agir sempre movidos por amor a Deus, por um grande amor a Deus. Sendo encarregados de levar aos homens o amor de Deus, é bom levar uma boa provisão (Rm 5,5). E mais uma vez: o meio de fazer provisão deste amor é a oração.

 

“As ações apostólicas são um modo de amar a Deus, e certamente não o último” (Mesa). Todas as nossas ações do dia, de sol a sol, devem ser atos de amor a Deus, tanto o trabalho mental como o manual. Um lugar de destaque se dê ao trabalho apostólico. Mas como somos seres humanos, tão humanos, estamos sujeitos a numerosas deformações, todas oriundas do amor-próprio.

 

As obras externas atraem mais que a hora da meditação; atraem, distraem, dissipam. Escreve Charmot: “Não está no pensamento de Sto. Inácio que um discípulo possa santificar-se pelo apostolado a não ser agindo por e com Cristo”.

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Apostolado santificante

 

O apostolado conduz à santidade? Depende. Apostolado é carisma, é graça gratis data, segundo a terminologia teológica. É graça externa, dada por Deus e recebida em favor do próximo. Portanto, não reverte automaticamente em santificação do apóstolo.

 

Há uma ligeira exceção no apostolado sacerdotal.

 

Administrando sacramentos, o sacerdote recebe o aumento da graça santificante ex opere operato.

Por exemplo: confessando semanalmente mil pessoas, confere mil sacramentos e faz jus a um proporcional aumento de graça santificante. Naturalmente se supõe crescimento proporcional do amor de Deus e da cooperação. Senão, para ficar santo bastaria rezar cada dia três missas, quod patet esse falsum, o que evidentemente não é verdade.

 

Há um elemento psicológico favorável:

1. observar no apostolado o trabalho da graça de Deus nas almas é comovente;

 

2. desperta nossa gratidão; inflama também nosso amor a Deus.

3. Ver o fervor espiritual, por exemplo, nas confissões, nas missões, nos cursilhos, estimula o apóstolo a não ficar para trás.

 

Mas a razão formal é o amor de Deus, com que o apóstolo trabalha na vinha do Pai.

 Apostolado é um ato de amor de Deus. Por amor a Deus procuramos conduzir o próximo à união com ele.

 Nota Suhard: “O apostolado não nasce das necessidades das almas, mas do amor a Deus”. O “X” é o apóstolo agir sempre por amor a Deus.

 

O apostolado é vontade de Deus, portanto, também um meio de santificar-se (creio ser mais exatamente uma ocasião) se praticado nas devidas condições.

 

Espiritualidade apostólica

 

A Espiritualidade apostólica tem acentos diferentes da espiritualidade contemplativa, apesar da identidade substancial. O apostolado de ação missionária requer formação intelectual, moral, social; requer toda uma suma de virtudes, diz Sto. Antônio Maria Claret.

Segundo a antiga exortação de São Paulo: “Fazer-se tudo para todos”.

 

Mas a base comum é o amor de Deus, de cuja super-abundância deve jorrar a ação. “O apóstolo mais fecundo é o santo; porém, não nos passe sequer pela cabeça que se deva ser santo antes de começar o apostolado.

 

Se assim fosse, raros demais seriam os apóstolos.

 

É, portanto, necessário unir a ascese espiritual ao exercício do apostolado. E isto não é fácil” (P. Gabriel, OCD).

 

No processo da conversão e santificação, o apóstolo é instrumento de Cristo. Inútil agir sem ser movido pela causa principal, se estar sob seu influxo. No apostolado trata-se de comunicar a vida sobrenatural, o que requer necessariamente a intervenção do próprio Deus.

Nosso apostolado é colaboração dependente, subordinada à ação divina. “Senão, diz São João da Cruz, tudo se reduz a um martelar inútil e a fazer pouco mais do que nada; tantas vezes nada mesmo, e às vezes até dano” (Ct 29,3).

 

Jorge La Pira, famoso apóstolo leigo dá-nos uma lição:

 

“Nestes tempos tristes, nada é mais eficiente do que uma alma capaz de amar a Deus perdidamente. O amor não se acende, e aceso não irradia sem uma vida interior de recolhimento e de meditação. É preciso ter a coragem de se deixar ficar aos pés adoráveis do Salvador, sem pressa”.

 

Sto. Inácio de Loiola é ardoroso defensor da vida ativa de apostolado. Quis que sua Companhia fosse dedicada à ação apostólica, e fechou conventos que haviam reduzido o apostolado a um mínimo, vivendo como cartuxos.

 

“Já existem mosteiros contemplativos”, comentou.

 

“Cada qual tem sua vocação: a nossa é o apostolado”.

 

Contudo, é lógico, insiste ele na necessidade de vida interior:

 

“Todos que pertencem à Companhia dediquem-se à conquista de sólidas virtudes e às coisas espirituais, e estejam convencidos que estas são de maior importância que a doutrina e outros dons naturais e humanos para alcançar o nosso fim” (Regra: 10,2).

“Entre as qualidades (do missionário) a primeira de todas é que ele esteja unido e em familiaridade com Deus e Nosso Senhor, tanto na oração como em todas as ações” (Regra 9).

 

Charmot, SJ., define a espiritualidade apostólica com peculiar acerto. Significa “revestir-se de Cristo, isto é: ver Cristo em tudo; viver em sua familiaridade; agir sempre como instrumento de Cristo; ser dócil ao Espírito Santo como Jesus”.

 

Espiritualidade básica do apostolado é buscar os interesses de Jesus e só a eles. Assim o apóstolo obriga-se a uma contínua renúncia do egoísmo, imitando a Cristo em sua obediência ao Pai sob a inspiração do Espírito Santo (Mt 4,1 etc.). É a velha fórmula de São Paulo: revestir-se de Cristo, isto é, renunciar a si próprio; morrer na sua morte, ressuscitar em sua ressurreição e viver vida nova. Ação e contemplação exigem portanto as mesmas virtudes. O termo da viagem é idêntico. Os dois caminhos partem de Cristo, continuam nele e terminam nele. Tudo se resume em viver unido a Cristo, união que é necessidade metafísica para um instrumento.

Teologia das Realidades Celestes

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