Apostolado santificante

 

O apostolado conduz à santidade? Depende. Apostolado é carisma, é graça gratis data, segundo a terminologia teológica. É graça externa, dada por Deus e recebida em favor do próximo. Portanto, não reverte automaticamente em santificação do apóstolo.

 

Há uma ligeira exceção no apostolado sacerdotal.

 

Administrando sacramentos, o sacerdote recebe o aumento da graça santificante ex opere operato.

Por exemplo: confessando semanalmente mil pessoas, confere mil sacramentos e faz jus a um proporcional aumento de graça santificante. Naturalmente se supõe crescimento proporcional do amor de Deus e da cooperação. Senão, para ficar santo bastaria rezar cada dia três missas, quod patet esse falsum, o que evidentemente não é verdade.

 

Há um elemento psicológico favorável:

1. observar no apostolado o trabalho da graça de Deus nas almas é comovente;

 

2. desperta nossa gratidão; inflama também nosso amor a Deus.

3. Ver o fervor espiritual, por exemplo, nas confissões, nas missões, nos cursilhos, estimula o apóstolo a não ficar para trás.

 

Mas a razão formal é o amor de Deus, com que o apóstolo trabalha na vinha do Pai.

 Apostolado é um ato de amor de Deus. Por amor a Deus procuramos conduzir o próximo à união com ele.

 Nota Suhard: “O apostolado não nasce das necessidades das almas, mas do amor a Deus”. O “X” é o apóstolo agir sempre por amor a Deus.

 

O apostolado é vontade de Deus, portanto, também um meio de santificar-se (creio ser mais exatamente uma ocasião) se praticado nas devidas condições.

 

Espiritualidade apostólica

 

A Espiritualidade apostólica tem acentos diferentes da espiritualidade contemplativa, apesar da identidade substancial. O apostolado de ação missionária requer formação intelectual, moral, social; requer toda uma suma de virtudes, diz Sto. Antônio Maria Claret.

Segundo a antiga exortação de São Paulo: “Fazer-se tudo para todos”.

 

Mas a base comum é o amor de Deus, de cuja super-abundância deve jorrar a ação. “O apóstolo mais fecundo é o santo; porém, não nos passe sequer pela cabeça que se deva ser santo antes de começar o apostolado.

 

Se assim fosse, raros demais seriam os apóstolos.

 

É, portanto, necessário unir a ascese espiritual ao exercício do apostolado. E isto não é fácil” (P. Gabriel, OCD).

 

No processo da conversão e santificação, o apóstolo é instrumento de Cristo. Inútil agir sem ser movido pela causa principal, se estar sob seu influxo. No apostolado trata-se de comunicar a vida sobrenatural, o que requer necessariamente a intervenção do próprio Deus.

Nosso apostolado é colaboração dependente, subordinada à ação divina. “Senão, diz São João da Cruz, tudo se reduz a um martelar inútil e a fazer pouco mais do que nada; tantas vezes nada mesmo, e às vezes até dano” (Ct 29,3).

 

Jorge La Pira, famoso apóstolo leigo dá-nos uma lição:

 

“Nestes tempos tristes, nada é mais eficiente do que uma alma capaz de amar a Deus perdidamente. O amor não se acende, e aceso não irradia sem uma vida interior de recolhimento e de meditação. É preciso ter a coragem de se deixar ficar aos pés adoráveis do Salvador, sem pressa”.

 

Sto. Inácio de Loiola é ardoroso defensor da vida ativa de apostolado. Quis que sua Companhia fosse dedicada à ação apostólica, e fechou conventos que haviam reduzido o apostolado a um mínimo, vivendo como cartuxos.

 

“Já existem mosteiros contemplativos”, comentou.

 

“Cada qual tem sua vocação: a nossa é o apostolado”.

 

Contudo, é lógico, insiste ele na necessidade de vida interior:

 

“Todos que pertencem à Companhia dediquem-se à conquista de sólidas virtudes e às coisas espirituais, e estejam convencidos que estas são de maior importância que a doutrina e outros dons naturais e humanos para alcançar o nosso fim” (Regra: 10,2).

“Entre as qualidades (do missionário) a primeira de todas é que ele esteja unido e em familiaridade com Deus e Nosso Senhor, tanto na oração como em todas as ações” (Regra 9).

 

Charmot, SJ., define a espiritualidade apostólica com peculiar acerto. Significa “revestir-se de Cristo, isto é: ver Cristo em tudo; viver em sua familiaridade; agir sempre como instrumento de Cristo; ser dócil ao Espírito Santo como Jesus”.

 

Espiritualidade básica do apostolado é buscar os interesses de Jesus e só a eles. Assim o apóstolo obriga-se a uma contínua renúncia do egoísmo, imitando a Cristo em sua obediência ao Pai sob a inspiração do Espírito Santo (Mt 4,1 etc.). É a velha fórmula de São Paulo: revestir-se de Cristo, isto é, renunciar a si próprio; morrer na sua morte, ressuscitar em sua ressurreição e viver vida nova. Ação e contemplação exigem portanto as mesmas virtudes. O termo da viagem é idêntico. Os dois caminhos partem de Cristo, continuam nele e terminam nele. Tudo se resume em viver unido a Cristo, união que é necessidade metafísica para um instrumento.

Teologia das Realidades Celestes