Archive for novembro, 2011


As listas litúrgicas enumeram as diversas categorias
do clero, depois as virgens; no fim, as viúvas. Talvez, não
erramos ao supor que os virgens, do sexo masculino,
nunca se organizaram em grupo, mas se intercalaram nos
vários estágios do clero.

De modo que, virgem provavelmente
sempre se refere ao sexo feminino. Na terminologia
que deparamos a partir do século lI, os homens são
chamados ascetas, eunucos ou continentes. A partir do
século IV, chamam-se ascetas ou monacoi (em latim, confessores).

As moças, virgens ou virgens consagradas (sacras).
Na sexta-feira santa rezamos ainda: “pro episcopis…
ostiariis, confessoribus, virginibus, viduis et pro omni
populo Dei”.

Confessor, no sentido de sobrevivente ao
martírio; viúvas não são todas as idosas, mas aquelas
que, após breve casamento, não contraíram novas núpcias.

A Didaqué (fim do século I) menciona apóstolos e
profetas itinerantes, vivendo pobres e sem família. Eusébio faz menção honrosa destes anônimos da primeira
geração, na sua História Eclesiástica (3,37).

Um deles,pertencendo aliás, à terceira leva, dos meados do século segundo, chama-se Melito de Sardes, o conhecido escritor e apologista, que Polícrates de Sardes orna com o
nome evangélico de Melito o eunuco (5,24).

O Pastor de Hermas (150 pC) recomenda a vida dos e das continentes.

Justino fala de cristãos crianças de 60 e 70 anos, como também da prática voluntária da pobreza entre eles (I 29; 14,2; 15,6).

Atenágoras diz que muitos cristãos vivem continentes a fim de unir-se melhor a Deus, aludindo a 1Cor 7 (Apologia 23). Minucius Félix salienta a virgindade entre cristãos no c. 31, e a pobreza voluntária, no c. 36.

Temos ainda o testemunho pagão. Galieno, do tempo
do imperador Septímio Severo, atesta, com admiração,
a continência de homens e mulheres entre os cristãos.

Não pode faltar o fundo escuro, a heresia: o materialismo
grosseiro do maniqueísmo, no século terceiro, preparado
e como que inculcado, incubado pelo gnosticismo.

Já no século segundo, o excesso de Marcion, proibindo
como imoral o matrimônio, o uso de vinho e de carne. O
mesmo vemos no encratismo, o qual provavelmente não
estava organizado como seita, mas era um movimento
ideológico de moral puritana, proibindo matrimônio, vinho e carne, a famosa trilogia má.

E a nota pitoresca: o bispo Pýnitos de Cnossos, do tempo de Marco Aurélio, entendeu de exigir o celibato de todos os seus diocesanos.

Mas o cristianismo autêntico sempre entendeu a renúncia como um ato não obrigatório, mas espontâneo, de generosidade espiritual.

As virgens viviam na casa paterna. Talvez também
reuniam-se três ou quatro, morando juntas na mesma casa.

Sto. Antão, antes de embrenhar-se no deserto, coloca
sua irmã num parthenion; mas já estamos no ano 300.
Espera-se delas uma vida cristã mais fervorosa, um vestuário modesto.

São muito estimadas, têm na Igreja um
lugar próprio, logo após o clero: isto é certo após o século
IV; não consta, se nos séculos anteriores fora assim.

Para entrar a fazer parte desse grupo teria havido
alguma cerimônia religiosa, ou ao menos uma declaração
perante o bispo?

Não sabemos, por falta de documentação
do século II. A partir do século III, a virgindade é “estado”
de vida.

A partir de Tertuliano dispomos de textos
que nos informam. “Não se pode mais duvidar a respeito,
declara Metz (Consecration des vierges, 1954, p. 60).

As expressões usadas não deixam dúvida sobre a
natureza do compromisso assumido pelas virgens. É mais
que uma simples resolução de renunciar ao matrimônio.

As expressões correspondem bem à definição de voto:

promessa feita a Deus. A promessa era feita in facie ecclesiae, isto é, em cerimônia ritual, litúrgica; é possível e
provável.

Para o século III faltam as provas. Certo para o
século IV.

Mas o voto feito a Deus em particular teria sido
comunicado ao bispo, o qual informaria à comunidade
cristã, pois já era estado de vida.

Teologia das Realidades Celestes

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CONCLUSÃO

Nem o poderio do mundo, nem o progresso da técnica
enfraquecem a Igreja. Sua renovação é jogar lastro
para subir.

Sua renovação é levar a sério o papel e o poder
da graça que nos fez filhos de Deus. Sua renovação é
a fé.

Adverte a palavra da Revelação: (Hb 11,33): “Pela fé
conquistaram reinos,estabeleceram a justiça, alcançaram
as promessas”.

Desembaracemo-nos de todo e qualquer empecilho…
Corramos ao certame… com os olhos em Jesus,
autor e consumador de nossa fé… o qual abraçou a cruz,..
e está sentado à direita do trono de Deus.

Fé pequena,força pequena. Fé grande, vôo alto. Assim narra a história dos povos cristãos. “Tudo é possível para quem crê” (Mc 9,23). “Esta é a vitória que vence o mundo: nossa fé” (1Jo 5,4).

E essa fé também é graça. “‘Por isto dobro o joelho
diante do Pai… Queira ele conceder-nos a caridade que
Cristo habite em nossos corações pela fé” (Ef 3,14-17).

2. VIDA CONSAGRADA

HISTÓRICO DOS VOTOS

As descobertas de Qumran, em 1949, surpreenderam,
provam existência de vida monástica no judaísmo.
Qumran, edifício e escritos descobertos (entre eles, a Regra), revela-se como um convento masculino de cenobitas, confirmando enfim textos discutidos de Filo e de Plínio Jr.

No N.T. a formação de conventos monásticos levou
três séculos. Devido ao estado de perseguição, latente ou
aberta, vivia a vida monástica, por assim dizer, no “underground”.

As palavras de Jesus, sobre pobreza e virgindade,
e as do apóstolo (1Cor 7) continuavam fermentando
no íntimo da Igreja. Sempre houve cristãos consagrados,
como o atesta a literatura cristã dos três primeiros séculos.

A Igreja primitiva de Jerusalém entendeu viver a
mensagem de Jesus numa comunidade quase monástica,
conforme nos contam Atos 2-5. Foi uma tentativa de verdadeiro cenobitismo, no primeiro fervor, primícias do espírito, caracterizado por renúncia espontânea dos bens e haveres próprios, oração e talvez refeição comunitária.

A boa vontade era geral. A alegria circulava de coração em
coração. Ciúmes e rivalidades, tão humanas toldaram o
horizonte (At 6), mas foram superadas pela instituição de
diáconos (helenistas).

A perseguição de Herodes Agripa (42-44), pôs fim a
tudo, dispersou os apóstolos, fez mártir a São Tiago e
reduziu toda a comunidade à pobreza evangélica real,
pelo confisco dos bens (todos reunidos na caixa comum?).

Ignoramos se conseguiu retomar aos mesmos
moldes no intervalo de paz até a guerra final, em 66.

As quatro filhas do diácono Felipe de Cesaréia,
mencionadas nos Atos 21,8, abrem o cortejo das virgens
consagradas. Mudaram-se depois com o pai para Hierápolis, na Ásia Menor (diz Eusébio, História Eclesiástica, 3,29,9).

Também as filhas do diácono Nicolau (Atos 6,5)
consagraram sua virgindade, narra Clemente Alexandrino
(Stromata, 2,18).

Há exegetas que pensam que o texto de
1Tm 5,9 já seria uma sagração litúrgica do estado virginal.
São Clemente de Roma menciona, na Igreja de Corinto,
um grupo de continentes (I 38,3) aos quais previne
do orgulho.

Sto. Inácio mártir presta homenagem ao fervor
das virgens de Smirna, (13,1). Na carta a Policarpo (5,2),
menciona ascetas, e manda que estejam sujeitos ao bispo.
Há virgens que se julgam superioras ao bispo hierárquico,
provavelmente virgens de sexo masculino.

Teologia das Realidades Celestes

PADROEIRA DAS MISSÕES

Ouçamos por fim a maior missionária do século XX,
Sta. Teresinha.

Oito irmãozinhos a precederam no lar, e cada vez foi
pedido, implorado um missionário.

O nono parto traz, que decepção, mais uma menina. Mas é a futura padroeira das missões. Deus atendeu as preces… a seu modo.

Sta. Teresinha tem, portanto, uma vocação apostólica,
não contemplativa. Desde os catorze anos, desde
que viu o sangue de Jesus gotejar do braço da cruz, dedicou-se ao apostolado de salvação dos pecadores (Vida,
131).

Quis entrar no Carmelo a fim de tornar-se apóstola
dos apóstolos, pela oração e pelo sacrifício. Recusou entrar numa congregação missionária, convencida que sua
atuação no Carmelo seria mais eficiente para seu apostolado.

“Pelo sofrimento pode-se salvar almas” (Carta, 23).

“Uma carmelita, que não fosse apóstola, afastar-se-ia do
fim de sua vocação, e cessaria de ser filha da seráfica
Sta. Teresa, que desejava dar mil vidas pela salvação de
uma só alma” (Carta, 177).

Sta. Teresinha acentua e põe em destaque que a melhor arma do apóstolo é seu amor por Jesus.

“Sabes que as almas fiéis me consolam, dia
por dia, das blasfêmias dos ímpios, por um simples olhar
de amor?” (Poesias).
É apóstola da palavra. Preciosa a experiência e a
doutrina sobre o apostolado da palavra que exerceu durante os cinco anos que foi mestra do noviciado como
“pincel de Jesus” (Vida, 295).

“De longe, parece cor-de-rosa fazer bem às almas, fazê-las amar mais a Deus… De perto, é bem o contrário. A cor-de-rosa desaparece. Sente-se que fazer o bem é cousa tão impossível, sem o socorro de Deus, quanto fazer brilhar o sol durante a noite”(Vida, 299).

Eis a intuição sobrenatural da palavra de Jesus:
“Sem mim nada podeis fazer”.

E: “ninguém pode chegar a
mim se o Pai não o atrair” (Jo 6,44). E é todo o mistério
da eficiência da graça eficaz ou suficiente.

Palavras externas e manobras psicológicas não movem a vontade humana no terreno sobrenatural. Deus tem de intervir.
“Maravilha de lucidez e de franqueza, Teresinha articula
as palavras sem rebuço… Confessa que antes de ter
de ocupar-se com o assunto, nutria as ilusões mais lisonjeiras sobre suas aptidões em pedagogia espiritual.

Podia julgar-se capaz de lidar eficazmente com as almas. Mas apenas teve de entrar em ação, tudo escureceu. O rosado das ilusões tão verossímeis desapareceu…

Tal veredicto sobre a ação (apostólica), lançado por uma tal santa, deveria transformar todos aqueles que estão engajados em alguma forma de apostolado: sacerdotes, religiosos, catequistas, leigos da AC, ou da Legião de Maria.

Ou jamais ouviram esta sentença? É um fato: Teresinha não teme declarar, e com que força: Atenção! O que vocês têm de fazer não é propriamente difícil, mas impossível” (Combes).

O problema que sempre retoma é a nossa palavra
apostólica, isto é, a graça externa seja acompanhada pela
graça interna.

“Quando me foi dado penetrar no santuário das almas,
vi imediatamente que a tarefa estava acima de minhas
forças. Pus-me então como uma criancinha nos braços
de Nosso Senhor, e escondendo o rosto entre seus
cabelos disse-lhe:

“Senhor, sou pequena demais para alimentar vossas filhas.

Se quiserdes dar-Ihes por mim o que convém a cada uma, enchei minha mãozinha, e sem deixar vossos braços, sem virar a cabeça, darei vossos tesouros à alma que vier pedir-me sua nutrição”…

E o grandioso remate: “Minha madre, desde que
compreendi que me era impossível fazer algo por mim
mesma, a tarefa que me impusestes não me pareceu
mais difícil. Senti que a única cousa necessária era unirme
cada vez mais a Jesus e o resto me seria dado por
acréscimo” (Vida, 299).

Solução surpreendente do problema. Mas solução
bíblica. “Confesso… tivesse me apoiado em minhas próprias forças teria logo entregue as armas”.

Teologia das Realidades Celestes

Se a meditação pode ser dispensada nos casos de
urgência, a presença de Deus é indispensável, diz São
Francisco de Sales.

Mas este recurso suplente, por sua vez, é problemático nos múltiplos afazeres do apostolado externo.

E sua maior ou menor facilidade depende e é originada, a meu ver, não do temperamento, ou do caráter ou do treino, mas da graça de Deus.

Retorna o velho estribilho: “pedi e recebereis”.

Sta. Joana de Chantal perguntou um dia a São
Francisco de Sales se, apurado em tantos negócios, conseguia fazer sua meditação.

“Não, respondeu; mas faço o equivalente”.

Fazemos coisas agradáveis a Deus se o abandonamos por necessidade a fim de levar auxílio a nossos irmãos.

Anedota moderna: Em vez da visita ao Santíssimo
Sacramento visito uma família pobre?

Responde Jesus:
“Deve-se fazer isto e não omitir aquilo” (Mt 23,23).

Minha visita ao pobre tenciona confirmá-lo na paciência,
fé, amor de Deus.

Para este fim disponho de dois meios: ir lá e falar, ou ficar a rezar.

O segundo meio não perde em eficiência para o primeiro.

Famoso, desde séculos, o aforismo: “é mister renunciar
à doçura da contemplação para atender às necessidades
do próximo” (Cf. II II 182,1).

É preciso distinguir:
se para atender a necessidades físicas urgentes (tratar
de doentes, por exemplo), apoiado.

Para as necessidadesnespirituais do próximo, posso ficar na solidão de Deus rezando e amando, talvez sofrendo; uma ajuda provavelmente mais eficaz.

Leio: “Os homens apostólicos não devem ser afastados
de sua vocação e missão transformando-os em
místicos”…

Oxalá que o sejam, e no mais alto grau. O apostolado
só pode lucrar com a mística. Aliás, siga cada
um sua vocação, para a qual o Mestre da seara o designou.

Para preservar-nos de toda a vanglória, estejamos
nós, apóstolos e missionários, lembrados que Deus pode
também fazer apostolado sem nós; que ele é capaz de
converter o pecador sem intermediário humano, só em
troca de oração e de preces.

“Deus não tem necessidade de ninguém para fazer bem na terra”, escreve Sta. Teresinha (Vida, C 264).

Exemplos recentes: a conversão de Cohen, dos irmãos Ratisbonne, no século passado, e, em nosso século, de Max Jacob, de Paul Claudel, de Madalena Sémer e de André Froissard (1935), e de mais dois comunistas militantes de alto coturno: Maurício Clavel e Didier Decoin (1970).

Nota: A primeira conquista de Jesus neste apostolado
é São Paulo.

Teologia das Realidades Celestes

 

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